XIII Experiência Missionária revela a força da fé e da união dos povos indígenas em Roraima
Seminaristas e agentes missionários conheceram de perto a história, a resistência e a vivência comunitária dos povos Macuxi e Wapichana na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Entre os dias 10 e 19 de outubro de 2026, 87 missionários e missionárias participaram da XIII Experiência Missionária, promovida pelo Seminário São José de Manaus e organizada pelo Conselho Missionário de Seminaristas do Regional Norte 1 da CNBB (COMISE Labonté). Inspirada na passagem bíblica “Para que o mundo creia” (Jo 17,21), a iniciativa aconteceu na Diocese de Roraima, proporcionando dias de convivência, evangelização e aprendizado junto às comunidades locais.
O grupo, formado por seminaristas, estudantes de Filosofia e Teologia, religiosos, religiosas e agentes de diversas pastorais, passou por 16 frentes missionárias, entre paróquias, áreas missionárias e comunidades indígenas. A experiência possibilitou um encontro especial com os povos Macuxi e Wapichana, além de aproximar os participantes dos desafios enfrentados nas fronteiras e periferias, especialmente pelas comunidades indígenas e pelos migrantes.
A força de ser comunidade
Um dos principais aprendizados aconteceu na convivência com as comunidades indígenas, onde a união se revela fundamento da organização e da vida cotidiana. A fé, a educação, a saúde e a administração dos projetos comunitários caminham de forma integrada, com a participação de lideranças locais, catequistas, professores e agentes de saúde.
Na região da Serra, a acolhida e o acompanhamento de Dona Deolinda, catequista responsável pela coordenação de mais de 300 catequistas de 79 comunidades, organizadas em dez Centros, foram fundamentais para aproximar os missionários da realidade local.
Outro símbolo que marcou os participantes foi o malocão, espaço comunitário onde acontecem encontros, formações e debates. Sua estrutura, sustentada pela união de diferentes partes, tornou-se uma imagem concreta da força que nasce da organização coletiva.
A experiência também revelou a importância de respeitar e fortalecer as lideranças locais, que carregam a memória das lutas e acompanham os processos de desenvolvimento das comunidades.

“A nossa vida é bíblica”
A expressão do tuxaua Jaime, da comunidade de Maturuca, sintetizou um dos momentos mais significativos da experiência: “A nossa vida é bíblica”.
A frase revela a profunda relação entre fé, história e resistência dos povos originários. Ao escutar as lideranças, os missionários conheceram uma trajetória marcada por perseguições, violência e sacrifícios na luta pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, homologada em 2005.
Uma das palavras mais presentes nos relatos foi união, considerada essencial para defender o território, a cultura e os direitos das comunidades. A sabedoria de um tuxaua também ficou registrada na expressão: “Quem afoba cansa, quem espera alcança”.
Os participantes conheceram ainda a decisão histórica assumida em 26 de abril de 1977, expressa no lema “Ou vai ou racha”, que marcou o compromisso comunitário de dizer não à bebida alcoólica e sim à vida em comunidade.
Para os estudantes de Filosofia e Teologia, escutar essas histórias representou uma oportunidade de compreender que a evangelização começa pelo encontro, pela escuta e pelo respeito à realidade dos povos. A fé, nesse contexto, não está separada da vida, mas se manifesta na resistência, na fraternidade e na defesa da dignidade humana.
Uma missão que transforma
A convivência com crianças, jovens, famílias e lideranças proporcionou momentos de oração, celebração, partilha e aprendizado. O grupo também destacou a importância da cultura, das tradições e do cuidado com a criação como dimensões inseparáveis da vida comunitária.
A imagem do feixe de varas, presente nas capelas e nos malocões, tornou-se uma expressão concreta do lema do Mês Missionário de 2026: “Um em Cristo, unidos na Missão”. Assim como as varas ganham força quando permanecem juntas, as comunidades encontram na união a capacidade de enfrentar desafios, preservar sua identidade e alimentar a esperança.
Os participantes agradeceram à Diocese de Roraima, especialmente ao bispo Dom Evaristo Spengler, pela acolhida, e aos missionários da Consolata, padres Luiz Carlos Emer e Corrado Dalmonego, pelo acompanhamento durante a experiência.
A missão terminou com uma certeza que atravessou os diferentes testemunhos: os participantes chegaram para evangelizar e voltaram também evangelizados. Como recordou o padre Luiz Carlos Emer, a realidade da missão nem sempre corresponde ao que foi planejado, pois é o Espírito Santo que conduz os caminhos do encontro.
Mais do que levar uma mensagem, a XIII Experiência Missionária mostrou que a missão também significa aprender com os povos, reconhecer sua história e caminhar ao seu lado. Uma experiência de fé que reafirma o chamado a viver a comunhão e a unidade para que o mundo creia.