Três fogos que não se apagam: oração, compaixão e silêncio

 

Superior Geral dos Missionários da Consolata destaca três experiências fortes durante seu tempo de formação na visita canônica ao Seminário Teológico em São Paulo. 

Por Maurício Guevara

Há histórias que não se contam apenas com palavras, mas com uma espécie de luz  interior que permanece acesa. Assim foi o testemunho partilhado pelo Superior  Geral, padre James Lengarin, durante celebração eucarística, no seminário Teológico  Internacional João Batista Bisio, em São Paulo. 

Ele falou de três experiências fortes durante o seu tempo da formação que, como três  fogos discretos, sustentaram a sua fidelidade missionária ao longo dos anos. 

A primeira foi a oração  

Não uma oração aprendida, mas uma oração descoberta. Lembrou que, ao chegar ao  seminário, encontrou os seus irmãos em adoração eucarística. O silêncio parecia-lhe  estranho, quase incompreensível. “Não entendo o que fazem todos aí durante uma hora inteira…”, disse com a sinceridade de quem ainda não aprendeu a linguagem do invisível.  Foi então que um formador, com sabedoria simples, lhe indicou um diretor espiritual. E ali  começou um caminho: aprender a permanecer, a escutar, a deixar que Deus fosse mais  do que uma ideia, fosse presença. Desde então, a direção espiritual e a oração  tornaram-se bússola, ajudando-o a discernir, passo a passo, o que Deus lhe ia pedindo. 

A segunda foi a experiência pastoral  

Durante três anos, em Londres, num hospício, acompanhou pessoas em fase terminal.  Ali, a missão deixou de ser teoria e tornou-se carne. Ele lembra o impacto, o choque, o  desarmamento interior diante da fragilidade humana. Muitas vezes voltava para casa sem  conseguir sequer comer. Havia dias de pastoral no hospício em que tudo o que fazia era  “segurar uma mão; uma mão ainda quente, que lentamente se tornava fria”. E nesse  gesto, tão pequeno e tão absoluto, descobriu algo essencial: acompanhar e consolar não  é fazer muito, nem dizer muito. É permanecer. É amar até ao limite do silêncio. 

A terceira foi o deserto  

Ao terminar os estudos de teologia, sentia-se pequeno, quase indigno diante do mistério  do Sacerdócio. Pediu então algo incomum: quarenta dias de retiro na Certosa di Pesio,  na Itália. Ali, entre montanhas e silêncio, se deixou confrontar diariamente pela Palavra de  Deus. “Não procurava respostas rápidas, mas uma verdade mais profunda”. E no ritmo lento do deserto, onde o tempo deixa de ser pressão e se torna espaço, foi entendendo o  mistério da sua própria vida e vocação. Não como conquista, mas como dom. 

O Superior Geral, desde uma sabedoria simples, nos relatou três experiências, indicando  três caminhos e três formas de Deus se aproximar. E talvez, no fundo, seja isso que  sustenta toda vocação: não a força de quem sabe tudo, mas a fidelidade de quem se  deixa transformar.

Maurício Guevara, imc, é reitor do Seminário Teológico João Batista Bisio, São Paulo, SP.

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