Dom Osório Afonso é morto a tiros em residência episcopal em Moçambique
O missionário da Consolata e bispo de Quelimane foi morto na residência episcopal. Em sua última visita pastoral, fez um forte apelo pela convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos e pela paz em Moçambique.
A Igreja em Moçambique e a família dos Missionários da Consolata vivem dias de profunda tristeza após o assassinato de Dom Osório Citora Afonso, IMC, bispo de Quelimane e administrador apostólico da Arquidiocese da Beira. O prelado, de 54 anos, foi encontrado morto na manhã de sábado, 6 de junho, na residência episcopal de Quelimane, vítima de disparos de arma de fogo.
Missionário da Consolata, Dom Osório havia assumido a Diocese de Quelimane em 2025 e, desde abril deste ano, exercia também a missão de administrador apostólico da Arquidiocese da Beira. As circunstâncias do crime ainda estão sendo investigadas pelas autoridades moçambicanas.

Última mensagem marcada pelo diálogo e pela paz
Um dia antes de sua morte, em 5 de junho, Dom Osório realizou uma visita pastoral a uma comunidade local. Durante o encontro, registrou-se um momento que hoje ganha um significado especial: o bispo retirou suas sandálias e sentou-se para dialogar com líderes e membros da comunidade muçulmana.
Na ocasião, comentava a Nota Pastoral publicada pela Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) em maio deste ano, na qual os bispos manifestavam preocupação com a violência e o extremismo que atingem especialmente a província de Cabo Delgado.
Em sua fala, Dom Osório recordou a tradição de convivência pacífica entre os diferentes grupos religiosos do país e deixou um apelo que se tornou sua última mensagem pública:
“Que a religião não nos divida, meus irmãos. Eu lhes peço: jamais podemos aceitar que a religião nos divida; ao contrário, que ela nos una.”
O bispo destacou que cristãos e muçulmanos compartilham a mesma vida cotidiana, frequentando os mesmos mercados, hospitais e espaços públicos, e insistiu que a fé deve ser um instrumento de fraternidade e não de separação.
“Todos nós rezaremos pela paz em Moçambique, rezaremos pelo bem-estar em Moçambique, rezaremos para que haja justiça em Moçambique”, afirmou.
Ao explicar o gesto de retirar as sandálias antes do encontro, acrescentou que desejava recordar que Deus pede humildade e o reconhecimento de que todos são irmãos.
Investigação em andamento
Segundo informações divulgadas pelas autoridades moçambicanas, os autores do crime teriam entrado na residência episcopal após escalar os muros do local e desativar o sistema de segurança. Os investigadores informaram que Dom Osório foi atingido por disparos na região do peito e do coração.
Até o momento, não houve prisões nem confirmação sobre a motivação do assassinato. As autoridades também não estabeleceram qualquer ligação entre o crime e a ação dos grupos extremistas que atuam no norte do país.
Comoção na Igreja de Moçambique
A notícia provocou forte repercussão em todo o país. O arcebispo de Nampula e presidente da Conferência Episcopal de Moçambique, Dom Inácio Saúre, convocou uma reunião de emergência dos bispos para acompanhar o caso e coordenar a resposta da Igreja.
Em mensagem oficial, os bispos moçambicanos manifestaram profunda dor pela perda de um pastor que também exercia a função de secretário-geral da Conferência Episcopal.
O presidente da República de Moçambique, Daniel Francisco Chapo, também expressou condolências, afirmando que a morte de Dom Osório representa uma perda irreparável não apenas para a comunidade cristã, mas para toda a sociedade moçambicana.
Papa Leão XIV manifesta pesar
A Santa Sé também reagiu ao assassinato por meio de uma mensagem divulgada pelo diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Matteo Bruni.
“O Papa Leão XIV recebeu com dor a notícia do grave ato de violência que causou a morte de Sua Excelência, Dom Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane e administrador apostólico da Beira, e une-se em oração ao povo das dioceses e de Moçambique nesta hora de desorientação.”
O Santo Padre pediu que o Senhor conceda consolo ao povo moçambicano, proteja cada homem e cada mulher em seu amor e detenha a violência.
Missionário da Consolata
Nascido em 1972, Dom Osório Citora Afonso ingressou nos Missionários da Consolata e foi ordenado sacerdote em 2002. Realizou estudos em Roma e Jerusalém e dedicou sua vida ao serviço missionário e pastoral.
Antes de assumir a Diocese de Quelimane, foi bispo auxiliar de Maputo e colaborou com o Dicastério para a Evangelização, no Vaticano. Sua trajetória ficou marcada pelo compromisso com a evangelização, a promoção da paz e o diálogo entre os povos.
Seu último apelo público, pronunciado poucas horas antes de sua morte, permanece como um testemunho de fé e fraternidade:
“Que a religião não nos divida, mas nos una.”