O trem e o desemprego

10 de setembro de 2026

Rotina nos vagões dos trens intermunicipais de São Paulo revela economia informal. 

Por Alfredo J. Gonçalves

Desde os tempos mais remotos, na história da humanidade, o mercado é campo de guerra. Oferta e demanda travam o eterno duelo da troca entre coisas e pessoas. Com dinheiro ou sem ele, o duelo se arrasta, lento e longo, recheado de sorrisos disfarçados e de concessões que sobem e descem. Gestos, palavras e olhares, em meio ao confronto, se convertem em golpes afiados. Com razão escreveu o velho Marx que, nesse jogo de manhas e manobras, "as coisas se comportam como pessoas, e estas como coisas". De rua em rua, de esquina em esquina, de balcão em balcão, mercadorias ganham vida própria.

Esse duelo, todavia, se revela de forma muito mais viva e singular nos trens da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), em São Paulo, como por exemplo no trajeto entre as estações da Barra Funda e Jundiaí, ida e volta. Primeiro, porque representa uma das faces mais nuas, cruas e tragicômicas do desemprego. De vagão em vagão, torna-se feroz e ruidosa a competição entre os inúmeros vendedores ambulantes, a ponto de abafar o martelar das rodas sobre os trilhos, ferro sobre aço.

Produtos como água mineral, coca-cola, fanta, guaraná, refrigerantes, cerveja, bebida bem geladinha; fones de ouvido, carregador e capas de celular; cintos e carteiras, barbeador e gillette, guarda-chuvas e chaveiros; amendoim doce e salgado, batata frita, pipoca, salgadinhos, doces e balas coloridas; creme dental, escovas e pentes; bolas de plástico e animais de pelúcia para as crianças - tudo isso é oferecido aos berros pelos vagões e no meio da multidão comprimida. Gritos que logram superar os alto falantes oficiais e seus avisos sobre a proibição do comércio ambulante no interior dos trens e estações.

Mais vende e mais lucra quem é capaz de gritar com maior força. Não raro, produtos idênticos se batem por espaço e gente, na tentativa de atrair os eventuais compradores. A disputa cresce e se acirra. "Um pacote de fralda é oito, dois é quinze"! "Você leva meia dúzia por trinta reais"! "Vinte reais a peça, mais barato que na loja"! "Olha aqui, cinco barras de chocolate por apenas quinze reais, lá fora você paga mais caro"! "Só seis por unidade, em qualquer lugar vai pagar o dobro"! "Seis pares de meias por quinze reais, só aqui"! "E agora, pra acabar, um real o saquinho de chiclete, com cinco reais leva seis"! "Agora, os últimos dois por um real"!

Não viaja com dinheiro? Sem problema, aceito cartão, crédito e débito. Não tem cartão, também aceito pix. Facilito sua compra. O produto vai até você, nem precisa levantar do banco. Sem fila no caixa, sem burocracia, tudo na hora, tudo rapidinho. Você economiza grana e tempo. Faça uma surpresa para a esposa, pro marido e as crianças, pra toda família. E tudo bem baratinho, aproveite!

Alfredo J. Gonçalves,  cs, é assessor do Serviço de Proteção ao Migrante (SPM), São Paulo, SP.

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