“O missionário não é tanto quem leva a Deus, mas quem tem a capacidade de encontrar Deus onde quer que vá”
Missionário da Consolata, que atua há 14 anos na Amazônia colombo-peruana, José Fernando Florez participa, em São Paulo, do Curso Continental de Formação Contínua e partilha aprendizados sobre escuta, cultura, território e vida como caminhos para uma missão vivida com o povo
Aos 49 anos, o padre José Fernando Florez, Missionário da Consolata, traz na trajetória 26 anos de caminhada missionária e uma experiência de 14 anos na Amazônia colombo-peruana, onde atua no Vicariato Apostólico de San José del Amazonas. Ordenado sacerdote em 7 de dezembro de 2013, em Bogotá, Colômbia, ele participa, em São Paulo, do Curso Continental de Formação Contínua dos Missionários da Consolata.
Realizado na Casa Regional dos Missionários da Consolata, o encontro teve início em 31 de agosto e prossegue até 24 de setembro, reunindo religiosos com 10 a 15 anos de ordenação sacerdotal ou profissão perpétua. A iniciativa propõe um itinerário de formação, espiritualidade e renovação do compromisso missionário, com atenção à vocação e à redescoberta do carisma consolatino-allamaniano.
Para José Fernando, o período de formação também é uma oportunidade para “voltar novamente às fontes”, avaliar o caminho percorrido e projetar os próximos passos. Em sua experiência na Amazônia, porém, foi o encontro com os povos e a disposição para escutar que transformaram sua maneira de compreender a missão.
Padre Fernando, o senhor está participando do Curso Continental de Formação Contínua. Qual é o significado deste momento em sua caminhada missionária?
José Fernando Florez: Meu nome é José Fernando Florez, sou Missionário da Consolata. Nasci na Colômbia e comecei este caminho no ano 2000. Portanto, já são 26 anos de caminhada. Hoje estamos aqui em São Paulo, neste curso, para voltar novamente às fontes e, a partir disso, ver como estamos e olhar para projetar o caminho para onde queremos ir.
Por isso, estamos reunidos com diversos companheiros que estão entre 10 e 15 anos de ordenação ou profissão perpétua. É um momento para avaliar o caminho, conversar, desfrutar, rir e, acima de tudo, projetar.
O senhor traz também uma experiência significativa de atuação na Amazônia. O que essa caminhada representa em sua trajetória?
José Fernando Florez: Vivo há 14 anos na Amazônia colombo-peruana. Quando cheguei lá, minha pergunta foi: como faço não apenas para estar, mas como saber estar?
Então, um ancião Murui Muina, da etnia, do povo onde vivo e com quem convivo, me disse: “Fernando, se você quer saber estar, você tem que fazer três coisas: sente-se, escute e olhe”.
Essa orientação marcou profundamente minha experiência missionária.
E como esse ensinamento transformou sua compreensão da missão?
José Fernando Florez: Quando me deram o meu envio missionário, disseram-me: “Vá e anuncie”. Ali aconteceu a minha primeira síntese: não é tanto “vá e anuncie”, mas sim “vá e escute”.
E essa escuta precisa ser feita com calma. Eles me ensinaram que isso se faz a partir do fekuytsa, uma palavra Murui que significa “com calma”, no seu próprio tempo, sem pressa.
Por isso, levamos cinco anos para conseguir elaborar o nosso plano missionário naquele lugar.
O que foi construído a partir desse processo de escuta?
José Fernando Florez: Esse plano consistia em três pilares: território, cultura e vida.
Perguntavam-nos: “E onde está o Evangelho?”. Nós o fundamentávamos em João 10,10: “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância”.
Então, tudo o que é em favor do território, as lutas com eles para seguir em frente, tudo o que é em favor da própria vida e tudo o que é em favor da cultura... isso é uma Boa Notícia. Ali está Deus.
O que essa experiência ensinou ao senhor sobre a presença de Deus na missão?
José Fernando Florez: Depois de toda essa caminhada, o que eu aprendi é que o missionário não é tanto quem leva a Deus, mas sim quem tem a capacidade de encontrar Deus para onde quer que vá.
A experiência vivida na Amazônia e compartilhada durante o curso revela uma compreensão da missão marcada pela escuta, pelo respeito aos ritmos dos povos e pelo compromisso com a vida. Ao “voltar às fontes”, padre Fernando também reconhece que a missão se renova quando o missionário se dispõe a aprender com as pessoas e com os lugares onde é enviado. Entre escutar, olhar e caminhar com o povo, a missão deixa de ser apenas um anúncio levado ao outro e se torna também um caminho para reconhecer a presença de Deus que já se manifesta na realidade.