O missionário “corredor” que difunde a fé em movimento
Com uma sólida formação acadêmica adquirida em três continentes (África, Europa e América) e uma profunda vocação pastoral vivida em contato com as pessoas, o padre Juma Mário Henriques, 37 anos, conta sua trajetória desde sua terra natal, Moçambique, até a paróquia de Santo Cura Brochero, na Argentina.
Entre Moçambique e Argentina são milhares de quilômetros, profundas diferenças culturais e climas radicalmente distintos. No entanto, para o missionário da Consolata, padre Juma Mário, as distâncias geográficas diminuem quando a missão é vivida com abertura, disponibilidade e espírito de fraternidade.
Sua trajetória sacerdotal e missionária combina uma sólida formação em teologia dogmática com a proximidade da realidade cotidiana das comunidades e uma paixão pessoal pela corrida.
Atualmente, padre Juma exerce seu ministério pastoral na paróquia de Santo Cura Brochero, em Merlo Moreno, na província de Buenos Aires, onde coloca a serviço da comunidade sua experiência acadêmica e missionária, juntamente com uma fé vivida com simplicidade e concretude. No interior da comunidade paroquial, localizada na periferia da capital, funciona uma Comunidade Apostólica Formativa (CAF), com estudantes de teologia provenientes de diferentes países.
A “mala espiritual” e as bagagens que não cabem nela
1º de fevereiro de 2025 marcou o início oficial de seu primeiro trabalho missionário na Argentina. Em sua mala física viajavam a Bíblia, fonte insubstituível de discernimento; o rosário, companheiro nos momentos de solidão; algumas lembranças da família e uma imagem da Consolata. Mas, segundo padre Juma, aquilo que é realmente essencial para entrar em uma nova terra não pode ser guardado em uma mala.
“O mais essencial é uma atitude interior de abertura, a disposição para aprender com uma nova cultura, deixar-me transformar por ela e descobrir, no cotidiano, a presença de Deus que me chama a ser fonte de consolo.”
Seu caminho de preparação para a missão foi longo e exigente. Começou na comunidade de São Timóteo-Muthiapua e em Itoculo, sua humilde cidade natal no norte de Moçambique, onde trabalhou na terra para sobreviver e conheceu de perto a experiência da pobreza.
Sua formação prosseguiu no Seminário Mater Apostolorum de Nampula (2010-2012), onde realizou os primeiros estudos. Depois, estudou Filosofia em Matola (2013-2015), no Seminário Interdiocesano de Santo Agostinho, e fez o Noviciado em Sagana, no Quênia (2016-2017). De 2018 a 2021, estudou Teologia no Cedara Theological Institute, na África do Sul, antes de se mudar para Roma, onde, entre 2022 e 2024, concluiu a especialização em Teologia Dogmática e Fundamental na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino (Angelicum).
Uma trajetória que atravessa quatro países e diferentes realidades culturais e formativas, preparando padre Juma não apenas para o estudo da teologia, mas também para viver a missão como um contínuo exercício de escuta, encontro e transformação.
A fé em movimento
O missionário é a mente por trás das corridas. Para padre Juma, correr é muito mais do que uma simples atividade esportiva: é um espaço privilegiado para encontrar Deus e as outras pessoas. No ritmo dos passos e na respiração, encontra um tempo de oração e recolhimento; ao longo do percurso, por sua vez, relaciona-se com outros corredores, ouvindo suas histórias e compartilhando experiências. Assim, o que poderia ser apenas um treinamento também se transforma em uma experiência de encontro e comunidade.
Entre as lembranças mais significativas de sua experiência esportiva, padre Juma guarda a de 9 de novembro de 2019, dia de seu aniversário. Naquela tarde, enquanto treinava, um cachorro de rua avançou contra ele, fazendo-o cair no chão e provocando diversos hematomas e dores. Um episódio doloroso que, no entanto, não o desanimou. Pelo contrário, padre Juma transformou aquela queda em uma lição para sua vocação missionária:
“Essa queda me ensinou que o esporte, assim como a missão, exige resiliência: não basta ter força, é preciso ter perseverança e capacidade de recomeçar depois de cada revés. A vida missionária nos apresenta imprevistos e quedas que nos fazem sentir vulneráveis, mas Deus nos chama a transformar as feridas em testemunhos. A verdadeira vitória não é chegar em primeiro lugar, mas não parar de seguir em frente.”
Teologia em caminho, rumo às periferias
Sua formação teológica na África do Sul foi decisiva para moldar seu olhar sobre a vulnerabilidade social. Tendo experimentado pessoalmente a pobreza, padre Juma aprendeu que a teologia não pode permanecer confinada aos livros e às salas de aula, mas deve se tornar um instrumento para ouvir as comunidades mais vulneráveis e reconhecer, no sofrimento dos outros, um lugar sagrado onde Deus se revela.
Na paróquia de Santo Cura Brochero e na Comunidade Apostólica Formativa, onde, junto aos padres Marcelo De Losa e Romaus Shiveka, acompanha cinco jovens seminaristas provenientes da Venezuela, Etiópia, Colômbia e Quênia, padre Juma procura traduzir na vida cotidiana o chamado do Papa Francisco a ser uma “Igreja em saída”.
“Na Argentina, experimentei o que significa chorar com as pessoas, compartilhar suas dores e também suas esperanças. É nesses momentos que a teologia se faz carne: não como uma teoria abstrata, mas como uma palavra que consola e um gesto que acompanha”, observa.
O metrô, o mate e a sabedoria de um povo
Desejoso de se comunicar com as pessoas que o haviam acolhido, naquele mesmo mês começou a estudar espanhol. Seu cotidiano também incluía viagens de metrô, durante as quais, orientado por seus professores, aprendeu não apenas a gramática, mas também alguns aspectos da cultura argentina. Entre eles, descobriu o significado profundo do “mate”, que logo se tornou para ele uma verdadeira ponte de amizade, diálogo e partilha.
Um ano depois, em fevereiro de 2026, participou de um seminário intercultural em Córdoba, enquanto aprofundava seus conhecimentos sobre a história e a cultura dos povos indígenas da Argentina, entre eles os Mapuche e os Kolla.
Olhando para o futuro, o missionário não pensa tanto em novos caminhos de especialização, mas no desejo de transmitir aos jovens e às famílias argentinas o fogo do carisma da Consolata: uma fé viva, próxima e alegre, capaz de levar consolo onde a vida se torna mais difícil. Um caminho vivido sob a proteção de Nossa Senhora da Consolata e à luz do legado de São José Allamano.
Celina Atencio, Equipe de Comunicação da Região Argentina.