Missionários iniciam Assembleia Regional

 

“Estamos em tempos de semeadura, não de colheita”, afirma Padre Alfredinho na abertura da Assembleia Regional dos Missionários da Consolata

Por Redação (Fotos: Cleber Pires)

Teve início nesta terça-feira, 19 de maio, a Assembleia Regional dos Missionários da Consolata (Região Brasil), que reúne missionários atuantes no país para uma semana de reflexão, espiritualidade e planejamento pastoral. O encontro segue até o próximo dia 22 de maio, em São Paulo, e conta também com a presença do padres James Lengarin, Superior Geral e Michelangelo Piovano, Vice-Superior, em visita canônica.

A abertura da Assembleia foi marcada por uma análise de conjuntura conduzida pelo padre Alfredo Gonçalves (Alfredinho), missionário scalabriniano e colaborador da Revista Missões. Em uma reflexão ampla sobre a realidade social, econômica, política e eclesial do Brasil e do mundo, o sacerdote apresentou dados preocupantes e destacou os desafios enfrentados pela sociedade contemporânea e pela própria Igreja.

Segundo ele, vivemos um período de “grande precariedade” dos direitos humanos universais, agravado pelo crescimento da desigualdade social e pela insegurança vivida pelas famílias trabalhadoras. Como exemplo, citou o aumento da população em situação de rua nos grandes centros urbanos.

“Em todos os centros das capitais nós temos hoje uma favela com barracos, com tendas, como a gente está acostumado a ver”, afirmou. Referindo-se à capital paulista, acrescentou: “São 88 mil pessoas na rua, isso segundo a prefeitura. Podemos desconfiar dos dados da prefeitura, não é?”.

Padre Alfredinho também chamou atenção para a violência doméstica e o avanço dos feminicídios no Brasil. Para ele, o dado de quatro feminicídios por dia é “assustador” e está ligado a uma realidade marcada pelo desemprego, pela informalidade e pela perda de direitos sociais.

Ao abordar o mundo do trabalho, criticou duramente a chamada “uberização” da economia e o discurso do empreendedorismo. “O empreendedorismo é uma forma de o trabalhador se auto explorar”, afirmou. Segundo o missionário, as reformas trabalhistas e os novos modelos econômicos transferem para o trabalhador os custos da produção e aprofundam a precarização das relações de trabalho.

Outro ponto destacado foi a questão migratória. Padre Alfredinho lembrou que cerca de 800 milhões de pessoas vivem fora de seus territórios de origem, considerando também as migrações internas, e afirmou que muitos migrantes acabam sendo utilizados como “exército de reserva” para pressionar salários para baixo.

Em sua análise política, o missionário declarou que o crime organizado já não está restrito às periferias. “Está na Avenida Faria Lima (importante via de São Paulo), está em Brasília, está nos três poderes da União”, afirmou. Ele também criticou a relação entre governos e mercado financeiro: “Os governos do mundo inteiro são reféns do mercado”.

Para o sacerdote, o Brasil ainda é profundamente marcado pelas oligarquias regionais e pelas estruturas de poder econômico. “Ganhar o governo mas não ganhar o Senado vai adiantar muito pouco em termos de mudanças estruturais”, observou, com relação à eleição de 2026.

A reflexão também alcançou a realidade da juventude e da Igreja. Padre Alfredinho alertou para o aumento do suicídio entre jovens — inclusive dentro do clero — e afirmou que muitos perderam referências sólidas em uma sociedade marcada pela fluidez e pela insegurança.

Sobre a Igreja Católica, o missionário descreveu-a como um “guarda-chuva em que cabe tudo debaixo”, referindo-se à diversidade de correntes e visões existentes no interior da instituição. Ao mesmo tempo, criticou o que chamou de “ritualismo estéril” e a tentativa de retorno a uma “igreja triunfal da Idade Média”.

Para ele, a vida consagrada e missionária deve recuperar a essência do Evangelho e da prática de Jesus, superando uma religiosidade apenas exterior. “Hoje não estamos em tempo de colheita… são anos de semeadura”, enfatizou.

Apesar das críticas e preocupações apresentadas, Padre Alfredinho também apontou sinais de esperança. Entre eles, destacou a democratização do acesso à saúde, especialmente através do Sistema Único de Saúde (SUS), a redução da mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida em diversas partes do mundo.

Encerrando sua reflexão, deixou uma provocação sobre ética e responsabilidade social: “Liberdade não é fazer o que se quer. Liberdade é fazer o que não se quer… porque a liberdade é acompanhada da responsabilidade”.

A Assembleia Regional dos Missionários da Consolata continua sua programação em São Paulo até a próxima sexta-feira, dia 22, reunindo missionários de diferentes regiões do Brasil para momentos de oração, partilha e planejamento da missão.

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