Eleições 2026: cartão vermelho

24 de julho de 2026

 

Cartão vermelho para todo tipo de autoritarismo, de populismo barato e de oportunismo. Pela reconquista e defesa da democracia, urge expulsar do campo político e econômico os jogadores inertes e corruptos. 

Por Alfredo J. Gonçalves

No ano da Copa do Mundo, sem dúvida a metáfora guarda certo grau de oportunismo, mas não deixa de ter sua relevância para o processo eleitoral deste ano de 2026. Vale recordar, de início, que uma das primeiras edições do Grito dos Excluídos usou o cartão vermelho como símbolo de protesto contra os rumos da política econômica daquele momento. Lembramos também que, em 1958, o jurista, sociólogo e historiador brasileiro Raymundo Faoro lançou sua obra “Os donos do poder”, com o subtítulo “Formação do patronato político brasileiro”. O autor tratou de interpretar a política econômica do país a partir da chave do patrimonialismo, conceito com origem na península Ibérica, mas com terreno fértil em terras de Santa Cruz.

Os chamados "ciclos econômicos" da história do Brasil, por exemplo, assentam-se sobre oligarquias locais e regionais de nomes e contornos respectivamente conhecidos e mais ou menos precisos. Não seria exagero falar dos "donos" do pau-brasil, do açúcar, do algodão, da borracha, do cacau, do ouro/diamante, do café, e assim por diante. Ainda hoje, um punhado de oligarcas, com seus representantes na Câmara Federal e no Senado, detêm o domínio sobre o agronegócio e a agroindústria, as telecomunicações, a extração e comercialização do petróleo e do minério de ferro, a indústria automobilística e farmacológica, a distribuição de bens em geral... Numa palavra, as fatias mais rentáveis da produção e do mercado nacional, bem como suas relações com o mercado internacional, encontram-se nas mãos dos deputados e senadores, eleitos ao Congresso Nacional para representar a população brasileira e seus cidadãos. 

Daí a urgência de usar a arma do voto na urna como cartão vermelho para expulsar boa parte dos congressistas. Através das emendas parlamentares (ou para lamentar!), são eles que controlam a fatia mais gorda e recheada do bolo orçamentário da União. Mas não é só isso! Igualmente eles é que detêm o poder de fazer o governo refém de suas decisões. Aprovam ou desaprovam leis e decretos não de acordo com as carências e necessidades básicas da população brasileira, mas conforme seus interesses pessoais e familiares, eleitorais e corporativistas. Figuram no Planalto central como verdadeiros extraterrestres, desconhecendo o que se passa na planície, base da pirâmide social onde grassa a pobreza.

Também em nível da economia globalizada, um punhado de milionários e bilionários (já se poderia falar de trilionários) tudo fazem, desfazem e refazem como bem lhes interessa. São "os donos do poder" mundial. Uma vez mais, dispõem e usufruem das melhores fontes de renda e riqueza: telecomunicações, petróleo e energia em geral, Inteligência Artificial (IA), empresas aéreas, entretenimento e lazer, poder financeiro, e assim por diante. Por um lado, usam e abusam dos canais, instrumentos e mecanismos da democracia para instalar verdadeiras ditaduras. Por outro, depois de ter em mãos o controle do poder, passam a exercê-lo em vista de uma maior concentração de renda e riqueza, em detrimento de melhorias sociais e dos direitos humanos. 

O resultado de tudo isso é que a democracia está em franco declínio. Por um fio tênue em alguns lugares, mutilada e ameaçada em outros, e, não raro, morta e sepultada. Emergem, em contrapartida, novas formas de totalitarismo, fascismo e colonialismo. Disso decorre a insistência do cartão vermelho para todo tipo de autoritarismo, de populismo barato e de oportunismo. Pela reconquista e defesa da democracia, urge expulsar do campo político e econômico os jogadores inertes e corruptos. Estes se esforçam não pelo bem-estar da população, e sim pelo aumento dos próprios lucros e pelo desvio do erário público. A Res publica protege os bens de todos, não os cofres de uma minoria assentada nos degraus do poder.

Alfredo J. Gonçalves, cs, é assessor do Serviço de Proteção ao Migrante (SPM)/CNBB.

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