“É preciso ser sempre aluno”, afirma missionário de 88 anos
Padre João Monteiro da Felícia em Paróquia São Marcos Evangelista, São Paulo, SP. Foto: PASCOM
A jornada missionária do padre João da Felícia começou em Moçambique e, anos mais tarde, prosseguiu no Brasil, onde permanece até hoje. Com 88 anos, esse missionário tem uma convicção: “É preciso ser sempre aluno”.
Aos 88 anos, o padre João Monteiro da Felícia, Missionário da Consolata, continua em missão no Brasil. A partir de terras brasileiras, o missionário enviou um testemunho com as memórias de seu percurso à revista FÁTIMA MISSIONÁRIA, que em 2026 dedica estas páginas aos Missionários da Consolata portugueses que atuam fora do país. Em seu relato, o missionário, natural de Golpilheira, no distrito de Leiria, recorda que, logo após concluir a antiga quarta série, seus dias passaram a ser marcados pelo trabalho agrícola para “o homem mais rico da terra”.
Foi na pré-adolescência que surgiu o desejo de ser ordenado. “Por volta dos dez anos surgiu em mim a vontade de ser padre. Pedi aos meus pais, mas eles não deixaram. Disseram que eu era muito novo.” Anos mais tarde, insistiu. “Aos 14 anos repeti o pedido e eles disseram que iam pensar. Conversaram com o pároco, que se entusiasmou com a ideia. Depois me disseram: ‘No próximo ano você pode ir para o seminário’.”
Foi o pároco de sua localidade quem lhe falou do Seminário da Consolata, em Fátima, inaugurado em 1950. “Ele me disse que haviam chegado a Fátima alguns padres missionários estrangeiros e me aconselhou a ir. Fui a Fátima ver a construção ainda em andamento. Era muito grande.” Algum tempo depois dessa visita, um padre da Consolata foi encontrá-lo em sua localidade. “Ele foi ao campo onde eu trabalhava com meus pais. Conversamos bastante, enquanto eu semeava feijões, plantava couves e regava.”
No dia 15 de outubro de 1952, João ingressou no seminário. “Encontrei os colegas e os padres. Era muita gente. Conheci também o meu grupo. Éramos 16, mas no total havia cerca de 90 seminaristas, de todas as séries.” Anos mais tarde, a “falta de espaço em Fátima” levou alguns alunos para Águas Santas, onde os Missionários da Consolata também estão presentes. “Lá também ficou cheio. Construímos o campo de futebol e organizamos melhor a casa — que era pequena — para que todos ficassem bem acomodados.”
Após esse período, iniciou o noviciado em Certosa di Pesio, na Itália. Eram 61 noviços, e a dificuldade de comunicação era grande. “Foram os primeiros contatos com o idioma italiano falado, e eu não entendia quase nada…” Depois do noviciado, João estudou filosofia e teologia em Turim, onde também aconteceu sua ordenação sacerdotal, em 17 de dezembro de 1966.
O território moçambicano foi o primeiro destino do padre João, junto com outros dois missionários. A viagem foi feita de navio. “Em novembro embarcamos rumo a Moçambique. Dentro do navio havia de tudo: comida, bebida, soldados, civis, material de guerra e peças de carros”, enumera o sacerdote, que recorda ainda que os motores do navio ficaram “parados em alto-mar”, perto da Madeira. “Os mecânicos conseguiram fazê-los funcionar, e chegamos bem à ilha.”
Após três dias na Madeira, a viagem prosseguiu. “Embarcamos novamente e seguimos até Angola. Lá fizemos uma parada de uma semana.” Já em Moçambique, o destino foi Nacala, no dia 23 de dezembro de 1967. Mais uma vez, enfrentou o desafio de uma língua desconhecida. “Fui para Maúa. Um missionário me pediu para ouvir confissões. Sem conhecer a língua, ficava difícil, mas ali todos os missionários eram estrangeiros.” Então lhe disseram: “Escute e dê a absolvição. O resto é Deus quem faz.”
João da Felícia trabalhou quase seis anos em Moçambique. Em seguida, passou por um período formativo em Roma e, mais tarde, desenvolveu trabalho missionário no Brasil. Em 1982, foi destinado a Portugal, onde permaneceu até 1995. Depois, retornou ao Brasil, onde está até hoje. Atuou em missão no Rio Grande do Sul, em Erechim e na Bahia. Atualmente, encontra-se em São Paulo. “Em todos os lugares por onde passei, sempre houve muitos desafios.” Por isso, enfatiza: “É preciso ser sempre aluno.”
Atualmente, a atividade da congregação no Brasil é realizada por missionários brasileiros, latino-americanos, europeus e africanos, sendo que “a predominância hoje é africana”. No país, os Missionários da Consolata estão presentes no Paraná, em São Paulo, na Bahia, em Manaus e em Boa Vista. Os desafios são muitos, mas o padre João e seus companheiros seguem trabalhando para levar esperança a esses povos. “As distâncias são enormes. As estradas não oferecem boas condições, mas a Consolata não para. A missão é um desafio constante.”
Fonte: Fátima Missionária