A Missão nos ensina a partir

05 de agosto de 2026

 

Experiência missionária entre os indígenas na diocese de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Por Eugenio Bento Cristóvão 

A Missão cristã é uma experiência sempre de encontro com Deus, consigo mesmo e com o próximo. Ao aceitar o chamado de Deus, por meio do batismo, o batizado não permanece fechado em seu território ou em suas próprias seguranças, mas aprende a sair de si, colocar-se a caminho e responder ativamente à vocação. 

É nesse sentido que vamos narrar a experiência do padre Gildo Nogueira Gomes entre os indígenas que vivem do Rio Içana e seus afluentes, na diocese de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. Ele é sacerdote diocesano de Barra do Piraí, Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Trabalhou em Nipepe, Diocese de Lichinga, em Moçambique, de 1998 a 2001, e desde 2024 está na Paróquia Assunção de Içana, diocese de São Gabriel da Cachoeira.

Padres Eugênio Bento e Rosalino Dall'Agnese, missionários da Consolata em São Gabriel da Cachoeira com a finalidade de visitar o padre Afonso, moçambicano, incardinado na arquidiocese de Manaus, mas do momento em missão na diocese de São Gabriel da Cachoeira, se uniram para visitar padre Gildo. Padre Afonso desempenhou a função de formador no seminário propedêutico e agora é pároco de Dom Bosco, com 11 comunidades.

Após esse primeiro momento de acolhida e partilha (Padres Bento, Rosalino e Afonso), seguimos viagem rumo à Paróquia da Assunção. O percurso, realizado integralmente por embarcação, teve duração aproximada de três horas, uma distância de aproximadamente 170 km.

Chegados à Assunção encontramos o padre Gildo que estava à espera. A sua atuação missionária abrange 21 comunidades indígenas pertencentes às etnias Baniwa, Koripako, Kubeo e outros povos da região até à comunidade Juripari quase fronteira com a Colômbia. Entretanto, na realidade religiosa do médio e baixo Içana, a maioria das comunidades são evangélicas. A Missão católica desenvolvida pelo padre Gildo fundamenta-se no diálogo e na convivência fraterna com os povos originários, buscando fortalecer a fé das comunidades católicas, promovendo a formação bíblica e pastoral e acompanhando as lideranças e pastorais presentes na paróquia.

A presença do padre Gildo nas comunidades caracteriza-se pela multiplicidade de iniciativas que parte de sua aproximação com as pessoas, acompanhamento constante das famílias e das lideranças, formações bíblicas, litúrgicas e pastorais. Ao mesmo tempo também sua Missão é uma escola de transformação, na qual escuta e aprende com os povos originários.

Um dos principais desafios da Missão está relacionado às longas distâncias percorridas por embarcação para alcançar as comunidades indígenas. Os deslocamentos são realizados exclusivamente pelos rios, exigindo muitas horas e, em alguns casos, vários dias de viagem. Essa realidade demanda resistência física, planejamento, disponibilidade de tempo e capacidade de adaptação às condições de alimentação presentes na região, como o bejú, xibé, mingaus de farinha com água, buriti, patauá e outras. 

Sobre as visitas às comunidades, apelidadas de itinerâncias, ele contou o seguinte: “agora os rios estão cheios, alguns metros acima, o que facilita a navegação. A hospedagem é confortável, com lugares para pendurar as redes, telhado de palha ou zinco, chão de terra batida ou cimento liso. Água tem nos rios e igarapés para beber, banhar e lavar. Sempre tem gente que faz a tradução do português para baniwa e vice-versa. Participo de muitas conversas sem entender nada. No curso tem a chegada com as devidas apresentações das delegações participantes, confissões, missa diária, palestras sobre as parábolas de Jesus, círculos bíblicos sobre a criação na Bíblia e na história baniwa, Maria e a Igreja, o dízimo, orientações sobre a celebração litúrgica. A tarde sempre tem esporte, quase sempre futebol masculino e feminino. A noite tem um filme’’.

Com 40 anos de sacerdócio, a presença missionária do padre Gildo junto aos povos indígenas revela que a Missão não consiste apenas em levar uma mensagem, mas em estabelecer relações, aprender com a realidade das comunidades e deixar-se transformar pela riqueza humana, espiritual e cultural daqueles que são encontrados no caminho. Por isso, podemos afirmar que a Missão nos ensina a partir e sem medo. Cada encontro vivido, cada serviço realizado e cada comunidade onde somos enviados tornam-se oportunidades de crescimento, amadurecimento da fé e compromisso com o Reino de Deus. A Missão não é apenas um lugar onde vamos, mas um caminho pelo qual Deus nos transforma e nos envia para anunciar sua presença.

Eugenio Bento Cristóvão, Missionário da Consolata no Amazonas.

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