Biosfera em situação crítica
Fator determinante, o jeito como a humanidade percebe a modernidade, subordinando a natureza à lógica da acumulação infinita, indica a situação ecológica do mundo.
Subjugar a natureza ao poderio do Homo Economicus tornou-se o caminho mais fácil para chegarmos ao centro da crise ecológica de agora, especialmente com a Terra fragilizada, com os ecossistemas comprometidos, com as espécies de animais e vegetais em risco de extinção. Nesse caldo adverso, temos dificuldades de conciliar produção com preservação ecológica, afinal, consumimos (sociedade humana em geral) num nível acima do que a Terra pode nos oferecer. E parece que esquecemos que o planeta tem limites, e esses estão sendo ultrapassados.
Por isso, a questão mais importante aqui, sem meias palavras, é entender que a economia, como sistema, gera o risco ecológico; na verdade, potencializa o dano ambiental.
Em todo o caso, a máquina capitalista dos últimos duzentos e cinquenta anos de economia de mercado, ignorando a capacidade regenerativa da Terra, responde pelo desajuste ecológico planetário, quer dizer, ajuda (e muito) a intensificar toda a estrutura de degradação socioambiental.
Em termos simples, esse desajuste é fácil de ser localizado: vai do desmatamento, que leva a perda do patrimônio genético, à poluição do ar, do solo, dos oceanos; passa pela perda de biodiversidade ao esgotamento dos ecossistemas. Na base, e isso não pode ser ignorado, a razão é simples de entender: mais extração para mais produção, sempre num ciclo ininterrupto.
Portanto, trazendo para uma linguagem cotidiana, faz mais de meio século que a comunidade humana abusa das condições dos ecossistemas planetários, comprometendo sobremaneira os sistemas geradores de vida na Terra, além de comprometer o bem-estar da humanidade.
Nesse sentido, o impacto humano no Sistema Terrestre vem a reboque da expansão da produção material que abala as condições ecológicas conhecidas, afetando a regulação climática e as condições químicas para a reprodução do sistema vida. Na mesma extensão, ainda inviabiliza as condições que tornam possível a vida (humana e a não humana) no planeta. No geral, o entendimento também é simples: chegamos num ponto derradeiro em que a habitabilidade do planeta (as condições atuais da vida no planeta), como consequência imediata dos fatos mencionados, passa a ser veementemente contestada.
Quer dizer, por diversas razões, tanto o modo humano quanto seu modelo de economia capitalista, ambos em escala crescente, seguem colocando a biosfera (com seus recursos finitos) em situação bastante crítica, principalmente quando se leva em conta nossa capacidade de extrair, produzir, consumir e descartar num nível insustentável para o planeta, incompatível com o ritmo da natureza.
Aliás, é disso que trata o capitalismo: expansão desenfreada sem respeito aos limites da natureza.
Logo, por trás do triunfo econômico (elevado grau de desenvolvimento das forças produtivas), os escombros ecológicos (repercutindo no problema de segurança alimentar, na escassez de água, na falta de energia). Desses escombros, como se vê, surge a principal ameaça à sustentabilidade. Nesse caso ainda, o senso comum alerta que o mundo vivo, à espera da impossibilidade do crescimento sustentável, está degradado.
Em resumo, pela concepção inadequada de desenvolvimento que buscamos, passamos dos limites. Agimos contra a biodiversidade global, contra as zonas úmidas (85% destas regiões no mundo já foram danificadas pela força humana), contra a cobertura arbórea (intensificando o desmatamento – a grande ameaça às florestas tropicais - para favorecer a expansão agrícola), contra a natureza que generosamente insiste em nos favorecer.
E sequer conseguimos proteger 30% das terras e oceanos do mundo. Não é de estranhar assim que apenas 17% das terras e 8% dos oceanos estão sob alguma forma de proteção.
Por conseguinte, tudo é mais favorável ao jogo econômico global. Daí em diante, mantendo o status quo, as grandes economias do mundo moderno, adeptas à expansão dos mercados, passaram a ser potenciais provocadores da crise atual, afetando de início os serviços ambientais dos quais dependemos para sobreviver.
Para complementar, enquanto ainda debatemos o conceito de desenvolvimento sustentável, e enquanto ainda entendemos a economia como superior a tudo, incluindo o meio ambiente, a crise – puxada pelos padrões dominantes - se agrava a vista de todos.
Naturalmente, é preciso lembrar, estamos vivendo tempos de extinção (sem polemizar, agora se sabe que a taxa de extinção de vertebrados será, por volta de 2050, até 117 vezes maior do que o imaginado) e de aquecimento do mundo moderno (a temperatura média global já é cerca de 1,37°C acima dos níveis pré-industriais).
Na conta final, precisamos admitir à luz do bom senso: jamais havíamos presenciado significativa diminuição ecológica, porque jamais havíamos tido tanta ânsia pelo crescimento econômico.
Disso tudo vem outro significado importante nesta mesma representação: pela primeira vez, o tamanho da perda de natureza – um dos principais desafios ambientais que precisamos resolver - leva ao rompimento do equilíbrio ecológico, facilitando, entre outras adversidades, o aparecimento das zoonoses. E pela primeira vez, com nossa fórmula consumista, e, claro, com nosso modelo de acumulação e expansão a qualquer custo, nós podemos nos declarar os responsáveis diretos por abalar a saúde do planeta.
Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Autor de Civilização em desajuste com os limites planetários (CRV, 2018) e A Civilização em risco (Jaguatirica, 2024), entre outros.