O olhar que gera encontro
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprovou em sua Assembleia anual realizada em abril, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026–2032. As Diretrizes são fruto da escuta, do discernimento e da comunhão eclesial e renovam o chamado para uma Igreja que caminha com o povo, testemunha a esperança e anuncia o Evangelho por meio do encontro. Mais do que um plano de ação, elas reafirmam uma convicção: evangelizar é aproximar-se das pessoas, reconhecer sua dignidade e deixar-se transformar por elas à luz de Cristo.
Esta edição da Revista Missões nasce em plena sintonia com esse horizonte. Embora reúna temas diversos, todos convergem para uma mesma pergunta: como olhar o mundo com os olhos de Cristo?
Vivemos um tempo marcado por guerras, migrações, crises ambientais, desigualdades e profundas mudanças culturais. Diante dessa realidade, a tentação pode ser a indiferença ou o isolamento. No entanto, o Evangelho nos convida ao movimento contrário: abrir os olhos, aproximar-nos das pessoas e fazer de cada encontro uma oportunidade para testemunhar a esperança.
Não por acaso, os textos desta edição recordam que tudo começa pelo olhar. Antes das palavras, dos projetos e das estruturas, existe a capacidade de enxergar o outro. É esse olhar que reconhece a presença de Deus no pobre, no migrante, na criança, no idoso, nos povos originários, na criação ferida e em todos aqueles que esperam ser acolhidos. Quando o olhar se deixa iluminar pelo Evangelho, nasce o compromisso; quando nasce o compromisso, floresce a esperança.
Essa mesma perspectiva atravessa as novas Diretrizes da Igreja no Brasil. Elas convidam as comunidades a fortalecerem a comunhão, a participação e a missão, fazendo da sinodalidade um modo permanente de ser Igreja. Caminhar juntos significa aprender a escutar antes de falar, discernir antes de decidir e servir antes de ocupar espaços. Evangelizar deixa de ser apenas uma atividade para tornar-se um estilo de vida.
Ao celebrarmos o centenário da chegada ao céu de São José Allamano, reencontramos nesse grande missionário uma inspiração sempre atual. Sua espiritualidade nasceu da contemplação, alimentou-se da oração e encontrou sua expressão mais autêntica no serviço aos povos. Allamano compreendeu que ninguém pode levar Cristo ao mundo sem antes deixar que Cristo transforme o próprio coração. Sua vida continua lembrando que santidade e evangelização caminham inseparavelmente.
As reportagens e reflexões desta edição traduzem esse mesmo chamado. O cuidado com a Casa Comum, a atenção aos migrantes, a solidariedade diante das crises humanitárias, o compromisso pastoral, a fidelidade à vida litúrgica da Igreja e a busca por uma sociedade mais fraterna revelam diferentes expressões de uma única vocação: fazer do Evangelho uma presença concreta na história.
Talvez o maior desafio da evangelização em nossos dias não seja encontrar novas respostas, mas recuperar a capacidade de ver. Ver a realidade sem medo, ver as pessoas sem preconceitos, ver a criação como dom de Deus e ver, em cada circunstância, uma oportunidade de viver o amor de Cristo. Esse é o olhar que gera encontro. E é do encontro que nasce uma Igreja verdadeiramente sinodal, samaritana e missionária.
Que esta edição inspire cada leitor a renovar esse olhar. Um olhar que contempla antes de julgar, acolhe antes de excluir, escuta antes de responder e serve antes de esperar reconhecimento. É assim que o Evangelho continua transformando pessoas, comunidades e o mundo.
Boa leitura!