Quando a saudade se torna sombra
Mais do que saudades, prefiro falar da memória agradecida. Mais do que nostalgia, prefiro a comunhão. Mais do que ausência, prefiro falar de presença.
A saudade é uma das palavras mais belas da língua portuguesa, mas também pode se tornar uma morada perigosa quando deixa de ser ponte e se transforma em residência permanente.
O desafio desta reflexão talvez não seja negar a saudade, mas sim refletir sobre a forma de atravessá-la, para que não nos impeça de habitar o hoje.
Há sentimentos que nos visitam como peregrinos e há sentimentos que tentam instalar-se como proprietários da nossa casa interior. A saudade pertence à primeira categoria. Veio para visitar-nos, não para nos governar.
Vivemos numa cultura que muitas vezes romantiza a saudade. Nós a exaltamos, cantamos, a transformamos numa espécie de altar emocional. Mas talvez seja necessário perguntar: até que ponto a saudade nos ajuda a viver bem o presente? E a partir de que momento ela nos tira o tapete do chão da realidade que habitamos?
A saudade tem uma tendência silenciosa: deslocar-nos do presente. Enquanto o coração se demora no que já passou, a vida continua a acontecer diante dos nossos olhos.
O ontem, que deveria ser memória fecunda, transforma-se numa espécie de museu interior onde passamos horas a contemplar aquilo que já não existe. Por exemplo, eu não gosto de dizer que tenho saudades do meu pai falecido. Não porque o tenha esquecido. Pelo contrário. Porque acredito que ele vive em Deus. Rezo por ele todos os dias. Converso com ele no silêncio da oração. A sua presença não pertence ao passado; pertence à comunhão misteriosa que une os vivos e os mortos no amor de Deus.
A saudade, neste caso, me parece uma forma de dizer que ele ficou para trás. Mas não ficou. O amor verdadeiro não conhece o verbo “perder”. Conhece apenas o verbo “transformar”. Aquilo que amamos autenticamente não desaparece, porque se torna parte de nós. Por isso, talvez o desafio espiritual não seja cultivar saudades, mas cultivar presenças. Não alimentar ausências, mas reconhecer heranças. Não perguntar incessantemente “o que perdi com a ausência de alguém?”, mas descobrir “o que recebi e ficou em mim que me faz continuar caminhando na vida?”
As pessoas que marcaram a nossa vida não devem ser carregadas como fotografias amareladas dentro da carteira da memória. Devem viver em nós como forças interiores. O pai que educou, a mãe que cuidou, o amigo que amou, o mestre que orientou: todos eles continuam presentes cada vez que escolhemos o bem que deles aprendemos. A recordação amadurecida não produz lágrimas permanentes. Produz gratidão.
A saudade permanece à flor da pele. A gratidão desce ao coração. A saudade tende a fixar-nos numa emoção. A gratidão transforma-se numa energia criadora. A saudade pergunta pelo que já não está. A gratidão reconhece aquilo que continua vivo. Talvez a verdadeira maturidade espiritual aconteça quando deixamos de olhar para trás procurando quem fomos e começamos a olhar para dentro reconhecendo aquilo que nos tornamos.
Deus não habita o passado, ele é sempre presente. Deus se chama “Eu Sou”. E aquele que vive em Deus não nos espera atrás das nossas memórias, mas caminha conosco no presente. Por isso, mais do que saudades, prefiro falar da memória agradecida. Mais do que nostalgia, prefiro a comunhão. Mais do que ausência, prefiro falar de presença. Mais do que recordar a vida que passou, prefiro acolher a vida que continua. E talvez seja precisamente isso a eternidade: o amor que já não precisa da saudade para existir.
Mauricio Guevara, imc, é reitor do Seminário Teológico João Batista Bísio, dos missionários da Consolata.