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Missão em Contexto

Profeta Jeremias e Diocese de Roraima, pontos em comum

Migrantes, Indígenas e Pessoas em Situação de Rua são situações comuns na diocese e remetem ao Profeta.

Por Juan Carlos Greco 

Vincular a figura do profeta Jeremias com a missão da Diocese de Roraima oferece uma perspectiva teológica e pastoral profunda. Embora separados por séculos de história, o "estilo" do ministério de Jeremias se encaixa de forma quase exata com a realidade da Igreja em Roraima, um território marcado pela fronteira, pela migração em massa e pela resistência dos povos indígenas. A relação entre ambos pode ser traçada através de quatro eixos fundamentais: 

A vocação profética em uma "terra de fronteiras 

Jeremias foi chamado para ser "profeta das nações" (Jeremias 1, 5) em um momento de extrema crise geopolítica, vivenciando na própria pele a dor das fronteiras e o choque dos impérios. A Diocese de Roraima compartilha esta realidade geográfica e humana. Ao situar-se no extremo norte do Brasil - fazendo fronteira com a Venezuela e a Guiana -, vive em uma constante fronteira física, social e cultural. A Igreja aqui não apenas administra sacramentos, mas assume uma missão profética de acolhida: enfrenta crises humanitárias complexas (como o fluxo de mais de um milhão de migrantes nos últimos anos) e serve de ponte em um cenário de extrema vulnerabilidade. 

O anúncio e a denúncia em defesa dos vulneráveis 

Jeremias é conhecido como o profeta que denunciou com coragem a injustiça social e a opressão dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros (Jeremias 7, 6). Sua fidelidade à verdade custou-lhe a perseguição dos poderosos de seu tempo. Esta tem sido a marca de identidade da Diocese de Roraima ao longo de sua história pastoral, desde bispos históricos como Dom Aldo Mongiano até os dias de hoje. Através da Pastoral Indigenista e do acompanhamento a povos como os Yanomami, Macuxi ou Wapichana, a Igreja local encarna o mesmo espírito de Jeremias. Denuncia: levanta a voz contra a invasão de terras, o garimpo ilegal e o tráfico de pessoas. Anuncia: proclama a dignidade inalienável dos povos originários e dos migrantes descartados pela sociedade. 

"Arrancar e destruir, edificar e plantar" 

No relato da vocação de Jeremias, Deus lhe confia uma dupla tarefa: "para arrancar e para destruir, para arruinar e para dissipar, para edificar e para plantar" (Jeremias 1, 10). As Pastorais Sociais e as missões de Roraima (como a missão Catrimani ou o trabalho em Pacaraima) vivem esta mesma dualidade: Arrancar e destruir: Questionar as estruturas de exclusão, a xenofobia institucional e os projetos econômicos extrativistas que destroem a Amazônia e arrastam as pessoas para a miséria. Edificar e plantar: Construir comunidades eclesiais de base, fomentar a sinodalidade, criar redes de solidariedade para a segurança alimentar e "plantar" a esperança de um futuro onde os povos indígenas sejam os verdadeiros protagonistas de sua própria história 

O profeta do sofrimento e da consolação 

Jeremias é o profeta que chora pela dor do seu povo (atribuindo-se-lhe tradicionalmente o livro das Lamentações), mas também é quem escreve cartas de esperança aos exilados na Babilônia, convidando-os a construir casas e plantar hortas porque Deus tem "projetos de paz e não de aflição" (Jeremias 29, 11). A Diocese de Roraima caminha junto a um povo que sofre: o migrante que caminha com fome pelas rodovias ou as comunidades indígenas golpeadas pelas doenças e pelo abandono estatal. No meio dessa dor, a Igreja se transforma nesse "Jeremias" que oferece consolação e resiliência. Ao oferecer refúgio, assistência jurídica e apoio espiritual, lembra àqueles que estão longe de seu lar que Deus não os esqueceu. 

O Papa Francisco costumava insistir na necessidade de uma "Igreja em saída" e profética. Em Roraima, o espírito de Jeremias se atualiza cada vez que um missionário, uma imagem ou um líder comunitário levanta a voz pelos direitos humanos e pela justiça no coração da Amazônia. 

Linhas de ação

Ao vincular o profeta Jeremias a três realidades específicas no contexto de Roraima (Migrantes, Indígenas e Pessoas em Situação de Rua), tentamos encarnar o texto bíblico de forma muito concreta no asfalto, na floresta e nas fronteiras da Diocese. 

A Pastoral do Migrante e Jeremias: Deus que caminha no exílio 

Jeremias viveu o trauma do exílio e o desenraizamento de seu povo. Em Jeremias 29, o profeta envia uma carta aos deportados na Babilônia. Não lhes diz para se resignarem, mas para lançarem raízes, construírem e buscarem a paz da cidade onde estão, porque Deus está com eles ali, fora de sua terra. A atualização em Roraima: Em cidades como Pacaraima e Boa Vista, a Pastoral do Migrante (junto a redes como o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados - SJM -, Cáritas, IMDH e os Missionários da Consolata) atua exatamente como essa "carta de Jeremias". Diante da xenofobia ou do desespero do migrante venezuelano ou de outras nacionalidades, a Pastoral oferece acolhida e ferramentas para "plantar hortas e construir casas" no Brasil (documentação, formação com vistas à inserção profissional). É o anúncio profético de que o migrante não é um perigo, mas um irmão com dignidade.

A Pastoral Indigenista e Jeremias: O grito contra o esbulho da terra 

Para Jeremias, a terra não é uma mercadoria, mas um dom de Deus vinculado à Aliança. O profeta denunciou duramente os reis e poderosos que acumulavam riquezas à custa do sofrimento dos pobres e do abuso de poder (Jeremias 22, 13-17). 

A atualização em Roraima: No coração da Amazônia, a Pastoral Indigenista (em comunhão com o CIMI) encarna o rosto mais combativo de Jeremias. Roraima é um cenário de violenta pressão pelo garimpo ilegal e pelo agronegócio. A Pastoral situa-se ao lado dos povos originários (Macuxi, Wapichana, Yanomami, Ye'kwana) para denunciar a destruição da "Casa Comum" e o genocídio silencioso, bem como para anunciar o direito constitucional aos seus territórios ancestrais. É uma fé que defende a vida e a cultura diante dos "ídolos" do dinheiro e da exploração. 

A Pastoral com Pessoas em Situação de Rua e Jeremias: A voz dos "invisíveis" na praça pública 

Jeremias não pregava escondido; Deus lhe ordenava ir às portas do Templo ou às praças públicas de Jerusalém (Jeremias 7) para incomodar os transeuntes e as autoridades morais. O profeta visibilizava o que a sociedade da época preferia ignorar: que a aparente prosperidade da cidade estava construída sobre a exclusão do desamparado. 

A atualização em Roraima: O fenômeno da situação de rua em Boa Vista cresceu exponencialmente, alimentado pela falta de moradia, pelo desemprego e pelas sequelas das crises migratórias e sociais. A Pastoral do Povo da Rua, a Cáritas e outros que desenvolvem serviços no “asfalto quente”, realizam o gesto profético de ir ao encontro. Não esperam que as pessoas vão à igreja; saem às praças, às pontes e às calçadas. Ao oferecer um banho, comida, atendimento médico e, sobretudo, escuta humana, a Pastoral arranca essas pessoas da "invisibilidade". Da mesma forma que Jeremias nas portas do templo, esta pastoral incomoda a sociedade e o poder público, lembrando que uma cidade não é verdadeiramente próspera se suas ruas estiverem cheias de filhos de Deus dormindo no chão. 

O nexo comum: "Não temas... porque eu estou contigo" (Jeremias 1, 8) Se unificarmos as três pastorais sob o olhar de Jeremias, encontramos um fio condutor: a Igreja de Roraima decidiu armar a sua tenda na periferia da existência. Nestas três fronteiras humanas, a Diocese assume o custo de ser profeta: a incompreensão de alguns, a perseguição política ou midiática e o cansaço pastoral. Mas, assim como o fogo que Jeremias sentia em seus ossos (Jeremias 20, 9), o amor pelo Cristo que sofre no migrante, no indígena e no habitante de rua é o que mantém viva e acesa a missão em Roraima. 

Juan Carlos Greco, imc, é missionário da Consolata na Diocese de Roraima, junto ao povo Warao.

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