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Fé em Ação

A crise do mundo vivo

Devido à pressão sobre a natureza e o clima, pela primeira vez os especialistas afirmam que o planeta está em chamas.

 Por Gilberto Natalini e Marcus Eduardo de Oliveira

Conter os danos ambientais levados ao corpo da Terra e as significativas alterações na base ecológica do mundo vivo (todas gestadas pelo avanço dos projetos economicistas predatórios) é, de longe, o desafio mais imediato de nossa civilização moderna. 

O fato é: chegamos num ponto crítico. Assim sendo, diante de um modelo de produção e consumo (escala global) que promove exploração comercial dos recursos verdes (sem ao menos respeitar o tempo de regeneração da natureza), acelerando assim a destruição da sociobiodiversidade e, em última instância, modificando o clima, temos plena convicção de que nos encontramos, agora mesmo, na encruzilhada do aquecimento global. Quer dizer: olhos postos na emergência climática, não há escapatória, o colapso ecológico chegou; a crise climática aí está. 

Moral da história: devido à pressão sobre a natureza e o clima, pela primeira vez os especialistas afirmam que o planeta está em chamas. 

Nesse caso, assusta saber que cada uma das últimas quatro décadas - pelos documentos oficiais do IPCC - foi sucessivamente mais quente do que qualquer outra década que a precedeu, desde 1850. Assim, pensando nas condições ambientais que asseguram o direito à vida e que, como se sabe, estão no limite crítico, justamente por conta do desempenho da economia global que dependente dos combustíveis fósseis, não há mais como esconder os fatos (e as evidências) aterradores, a começar pelo aumento do desmatamento tropical (redução da capacidade das florestas diante da derrubada criminosa de árvores, nossa “riqueza maior” que realiza a fotossíntese, absorve dióxido de carbono, libera oxigênio, ajuda a mitigar os efeitos das emissões de gases de efeito estufa e ainda melhora a qualidade do ar) e também pela fragilização dos ambientes naturais, dois contributos à perda de equilíbrio ecológico.

De resto, numa sociedade que aprendeu a acenar para o modelo de acumulação (com olhos na produtividade), tudo converge para a incidência de rupturas metabólicas, razão pela qual, num decisivo momento, a qualidade de vida da humanidade, e é isso o que mais importa, segue comprometida.

Vendo a questão assim, e de forma ampliada, precisamos dizer algo mais: a lógica da produção e do consumo, ao mesmo tempo em que reproduz a mais antiecológica das lógicas pensadas pela inteligência humana, num outro termo, a expansão do capitalismo global com o qual se pretende organizar a sociedade moderna, corporifica toda a nervura da própria de crise atual, isto é, a busca de uma economia de crescimento sem fim (absoluta impossibilidade) que se dá acima da capacidade de suporte do planeta. Logo, diante do contexto de exploração e apropriação da natureza pelo setor produtivo, para enfatizar o básico, a Terra, como sinalizam os especialistas, se aproxima de “pontos de inflexão do risco”. Isso significa dizer que, num mundo com dificuldades de manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, tanto mais significativas tendem a ser as deformações no funcionamento geral da biosfera. Daí a certeza de que o colapso ambiental, do modo como o experienciamos, se configura num quadro de destruição/devastação da natureza – e esgotamento de recursos, é claro – jamais presenciado. Ainda assim, para continuar eliminando dúvidas, vamos lembrar que: 

  • um terço das terras aráveis e férteis (12 bilhões de hectares) do mundo estão improdutivas, impactando na produção, na reserva de água e no sequestro de carbono; 

  • nada menos que 70% dos sinais vitais da Terra, devido os efeitos das mudanças climáticas, estão em estado crítico.

Bem entendido essa primeira parte nevrálgica, continuemos com a explicação um pouco mais detalhada, destacando agora que:

  • setenta e sete por cento da terra e 87% do oceano foram (radicalmente) alterados pelo antropocentrismo dominador; 

  • a metade conhecida das zonas úmidas do planeta (pântanos, mangues, charcos, turfeiras) desapareceu devido aos impactos da agricultura, urbanização e poluição; 

  • o derretimento do gelo (a saber, 2023 foi o ano em que o mundo perdeu mais gelo do que em pelo menos cinco décadas) e das geleiras, ameaça frontalmente a segurança hídrica das sociedades modernas. No caso, é dado saber que 40% das reservas hídricas da Terra podem desaparecer até 2030, devido às mudanças climáticas.

Complementando, o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) já apontou que, em 2023 e 2024, os anos mais quentes dos últimos 120 mil anos, os rios do mundo tiveram a pior seca em pelo menos 30 anos; assim, calor e seca estão minando cursos de água vitais. De igual modo, o Rangelands Atlas informa que 54% da superfície terrestre do mundo consiste em áreas sem florestas, biomas não florestais, mas, todavia, somente 12% deles está sob proteção. Nos relatórios do World Wildlife Fund (WWF) é possível ler com atenção que houve declínio de 83% em relação aos animais que habitam os rios de água doce, principalmente na América Latina e Caribe. E por último, mas não por fim, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), destaca em tom de alerta que 73% das raças de gado bovino no mundo estão ameaçadas de extinção. Das cerca de 7 mil raças de gado do planeta, apenas 1,3% dispõem de estoque de material genético suficiente para assegurar sua reconstituição em caso de extinção.

Assim sendo, resta claro que estamos diante do mais grave sinal de empobrecimento da diversidade biológica da Terra. 

Empobrecimento da diversidade biológica da Terra

De um lado, focos de queimadas, extração de madeira, e, em alguns lugares, total ausência de chuvas, mudando velhos habitats ao longo das bordas da floresta. 

Do outro, tempestades destrutivas e cada vez mais intensas, pesca excessiva, poluição por fertilizantes e pesticidas comprometendo a rica história de biodiversidade do mundo vivo. 

No fim das contas, como foi dito, eis a pesarosa situação de empobrecimento da diversidade biológica da Terra. E como o planeta que habitamos não dispõe de recursos em abundância e tampouco dispomos de outro planeta à nossa disposição, não é difícil inferir, daí em diante, que milhões de pessoas, animais e vegetais em diversas partes do mundo serão ainda mais afetadas por conta do desequilíbrio da natureza. De toda sorte, olhos postos na crise de biodiversidade atual, permanece o alerta: se nada for feito de forma radical em termos de mudanças, o tempo crítico, seguindo de perto os cientistas da Terra, está definido: até 2075, como indicam várias estimativas, a biodiversidade local poderá ser reduzida em 75%.

Portanto, nessa perigosa situação de destruição do mundo natural e de absoluto comprometimento dos ecossistemas planetários, se o mundo moderno não enfrentar com determinado vigor as mudanças climáticas, até 2030 (e isso nos parece uma questão central na articulação de mudanças políticas significativas) mais de 120 milhões de pobres e desprotegidos estarão aptos a ingressar no quadro assustador que agora o senso comum chama de refugiados climáticos (vítimas ambientais).

Dessa perspectiva, ajustando interpretações, resta concluir dizendo que, na realidade em que estamos inseridos, ainda “seduzidos” pelo imaginário do progresso à custa do meio ambiente, as tramas do equilíbrio planetário não passarão ilesas. Nessa mesma direção, e sem a pretensão de fugir de nossas responsabilidades, temos o dever de reconhecer que, por conta da aceleração da mundialização que se impôs sobre o mundo natural, agora temos conosco a mais violenta “lógica de destruição” do mundo vivo. Assim sendo, e sem que se desvie o olhar de todo esse processo de desgaste ambiental, importa não esquecer as causas e as consequências do desajuste planetário, tendo em conta que: 

  • os grandes rios do mundo continuam sendo impiedosamente desviados e contaminados com química pura; 
  • o ar que respiramos está cada vez mais poluído, tanto que a Organização das Nações Unidas, ONU, classifica a poluição atmosférica como a “maior assassina do planeta”, responsável por um quarto das mortes prematuras e doenças em todas as partes do planeta; 
  • os espaços ambientais se fragmentam em velocidade nunca vista; 
  • os oceanos, os maiores ecossistemas conhecidos, seguem comprometidos pela poluição de microplásticos; 
  • a elevação do nível dos mares é cada vez mais preocupante; 
  • a diminuição da água potável, hoje, como sempre, se tornou sinônimo de risco imediato à vida na Terra; 

Curiosamente, a reflexão que melhor retrata essa desconexão socioambiental, chamemos assim, diz respeito à confirmação de que toda a Humanidade, notadamente para moldar seu estilo de vida consumista e opulento, vem usando quase 150% dos recursos oferecidos pela Terra, ignorando os efeitos mais indesejados possíveis, em especial as emissões de gases de efeito estufa “produzidas” pela queima de carvão, petróleo e gás mineral, e mesmo pelo aumento da queda florestal, pela agricultura e pecuária, alheias, como se sabe, à causa ambiental.

Fechando o raciocínio, queremos apenas registrar que, por conta do avanço da sociedade de crescimento, isto é, do atual modelo de economia global que quer nos convencer que sem aumento da produção não é possível alcançar modernidade e prosperidade, agora temos, em nossa vida cotidiana, os mais sérios problemas na estabilidade dos ecossistemas e especialmente na vida das florestas. Temos, para resumir, a mais grave crise ecológica instalada no Lar Natural onde habitam todas as espécies vivas. Temos, sobretudo, um Corpo Planetário adoecido e maltratado pela economia global que nos guia, ajudada pelo antropocentrismo dominador, que aqui podemos chamar de a força humana.

Gilberto Natalini é médico-cirurgião, vereador por cinco mandatos na Câmara Municipal de São Paulo. Foi secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente (2017) e candidato a governador do Estado de São Paulo pelo Partido Verde (PV) em 2014.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental, mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo – USP. Autor de A civilização em risco (Jaguatirica, 2024), entre outros.

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