Pão partido com migrante estrangeiro
No dia da ressurreição, o evangelista Lucas (24,13-35) apresenta as aparições de Jesus nos arredores de Jerusalém. Dois discípulos que voltam para Emaús não reconhecem o peregrino que caminha com eles até que - sentado à mesa - “parte o pão”, com o que lhes abrem os olhos, eles o reconhecem e então Jesus já pode desaparecer. Vê-lo no παροικέω é sempre possível.
O relato dos peregrinos de Emaús contém uma série de elementos importantes para compreender a intenção da comunidade que escreve o Evangelho de Lucas. Faz parte da intenção do autor que todas as cenas de aparições do Ressuscitado ocorram no mesmo dia: o primeiro da semana, domingo da ressurreição; ele começa afirmando “naquele mesmo dia, dois deles estavam indo...”. Eles vão “conversando entre si” e um terceiro se junta a eles com a pergunta: “Do que vocês estão falando?”. Já conhecemos o relato. O contexto parece indicar que “todos” em Jerusalém falavam do “assunto Jesus”. Todos sabem disso.

Quando dizem: “És tu o único paroikéō…?” que significa este termo grego? Esta palavra παροικέω significa “habitar junto a”, “viver perto” ou “residir como estrangeiro sem cidadania”. Etimologia: de παρα (para, “junto a”) + οἰκέω (oikéō, “habitar, viver”).
No texto, seria “residir como estrangeiro” (no sentido de viver em um lugar sem ser cidadão). Nesse sentido, a expressão aparece em textos da Bíblia grega (Septuaginta) e na literatura clássica para descrever alguém que vive em um lugar como forasteiro, mas sem ser cidadão oficial ou reconhecido.

És tu o único…
Lucas 24:18**: “Σὺ μόνος παροικεῖς ἐν Ἱερουσαλήμ;” … “És tu o único que reside como estrangeiro em Jerusalém?” Isso é dito em função da “estrangeirice” (paroikía). O estrangeiro, migrante, é aquele que habita em um país que não é o seu (distingue-se do forasteiro, ou daquele que “está de passagem”).
Os cristãos das primeiras comunidades eram tratados assim. Não se deve ler isso em sentido “espiritual”, como se pensasse que os cristãos são “cidadãos do céu” e, portanto, estão “no mundo” como “estrangeiros”. Essa interpretação é totalmente alheia ao texto. Os cristãos são considerados “inferiores” (desprezados, o que Deus não faz) na sociedade em que vivem; mas a fé e a esperança lhes conferem uma nova identidade, um espaço de pertencimento.
É assim que os migrantes devem viver neste mundo, encontrando nesse modo de vida sua própria identidade e sendo assim reconhecidos pelos outros.
Os peregrinos não conseguem compreender o destino do “Cordeiro”, o seu sofrimento. Eles precisam de algo mais do que simplesmente ouvir - aceitar - o que as Escrituras dizem sobre o Messias.
Um salto… A palavra “paróquia” vem diretamente do grego παροικία (paroikía), derivada do verbo παροικέω (paroikéō): “residir como estrangeiro”. Em sua evolução histórica, passou para o latim como parochia e acabou designando a comunidade cristã local sob os cuidados de um pároco.

Eles nos ajudam a abrir os olhos…
Diante dessa intervenção de Cleofás, agora responde o desconhecido… Seus olhos estavam “fechados” (kratéô, vazios, cobertos) e não podiam “ver” - por um lado, qualificando os dois peregrinos de “insensatos” (desajeitados, ignorantes; o termo costuma ser usado de forma agressiva, cf. Gl 3,1.3; 1 Tm 6,9; Tt 3,3; aqui é sinônimo do que se segue: não compreendem) e “lentos de coração” (o coração, sede das decisões e da compreensão, é “lento”).
Posteriormente, recorrendo agora aos profetas, ele mostra que “era necessário” (deì, refere-se a algo previsto por Deus, em sua vontade, em seu plano de salvação) que “o Messias sofresse isso e assim entrasse em sua glória”.
O diálogo termina aqui. Os peregrinos chegam em casa e o desconhecido deve seguir em frente – obviamente, ele não é daquela aldeia, Emaús. Os peregrinos o convencem a passar a noite com eles, o que é compreensível, dada a importância da hospitalidade no mundo antigo. Ao acolher estrangeiros, obtinham-se graças de Deus, entre elas o perdão das faltas.
A chave de todo o relato encontra-se no versículo 30, onde o desconhecido à mesa parte o pão, o que faz com que “se lhes abram os olhos”. Os olhos deles se abrem e deixam de vê-lo!
Por isso, caminhar com os migrantes por meio do Serviço de Pastoral dos Migrantes e da Cáritas Diocesana (uma parceria já consolidada em Roraima) é “caminhar deixando-nos esclarecer sobre quem é Jesus e reconhecê-lo no παροικέω. Ao partir os pães: o da Eucaristia, na mesa improvisada onde se compartilha e multiplica a comida, o do sorriso agradável, o de encontrar direitos que podemos aproveitar juntos (e pelos quais podemos lutar juntos) etc.

Ouvir: a chave
Neste tempo pascal, com uma equipe multidisciplinar que atua a partir da chamada Casa da Caridade da Diocese, saímos ao encontro, identificando-nos com o desconhecido; a maioria de nós somos παροικέω (quem escreve é argentino, outros são venezuelanos, colombianos… migrantes sem cidadania aqui), mas também, às vezes, com os peregrinos. E ao ouvir os outros (παροικέω) e ao compartilhar o tempo com eles (παροικέω), vamos crescendo como uma Igreja em saída, aberta e samaritana. Percorremos Iracema, Rorainópolis, Bonfim (fronteira com a Guiana Inglesa), Pacaraima (vizinha à Venezuela) e outras “casas” onde “caminhamos”, “nos sentamos à mesa”, nos enriquecemos com a troca de conhecimentos e experiências e encontramos sentido nas dores, tristezas e angústias de muitos (relembramos também as nossas). Mas também nos alegramos com os caminhos que se abrem para muitos, as portas que se abrem (de trabalho, de inserção escolar, de conquistas com tantas nuances, mas sobretudo de fé, resiliência e coragem). Muitos quilômetros. Muita gasolina necessária (isso também podemos comentar um dia e estender a mão a quem puder nos dar um pãozinho para encher o tanque de combustível – em uma conta da Cáritas ou do Serviço de Pastoral do Migrante diretamente… outro dia, outro assunto).
Recostar-nos… à mesa e para lavar os pés
O verbo kataklínô (estar à mesa, recostar-se) é exclusivo de Lucas no Novo Testamento (5 vezes, cf. Êx 21,18; Nm 24,9); encontra-se nos relatos da multiplicação dos pães (Mt 14,19 / Mc 6,41 / Lc 9,16) e no relato da Eucaristia de Mateus e Marcos, mas não em Lucas, que o desloca para este momento (Mt 26,26 / Mc 14,22); por outro lado, o verbo “partir o pão” (kláô) também se encontra nos relatos da multiplicação dos pães, mas não em Lucas (Mt 14,19; 15,36 / Mc 8,6.19) e nos relatos da Eucaristia (também em Lucas, Mt 26,26 / Mc 14,22 / Lc 22,19) e aqui.
Lucas quer dar à ação de Jesus um sentido eucarístico, e é esse fato que lhes “abre os olhos”. “Abrir os olhos” é o contrário de “não compreender”, de ser “lento de coração”; agora eles veem e compreendem (cf. Gn 3,5.7; 2 Rs 6,17.20; Zc 12,4). Nesse sentido, é sinônimo de “acreditar”; antes eles não o “conheciam” (v. 16), agora o “conhecem” (v. 31), o contraste entre os dois momentos é evidente, e a causa da novidade é dada pela partilha do pão; uma vez que o reconhecem e acreditam, já não precisam “vê-lo”. Jesus desaparece.
O verbo original seria “torna-se invisível”. Ou seja, ele está lá, mas eles não o verão mais. Porém, mais tarde, sentirão a sua presença entre eles.
O relato conclui com a interpretação que os próprios peregrinos dão do fato: “o coração ardia” quando lhes explicava as Escrituras: com a explicação de Jesus, assim como o fogo ilumina, “arde” o coração, a sede da inteligência, e então eles podem compreender o que os olhos vazios não conseguiam descobrir.
Reinterpretar a dor, as lágrimas, os sofrimentos são premissas para abrir os “olhos” e reconhecer Jesus no meio de nós. Não é o Cristo da “Prosperidade” que é proposto aos migrantes pelas igrejas pentecostais e outros movimentos (inclusive dentro da Igreja Católica).
Observação sobre “o outro peregrino”. Quem era o companheiro de Cléofas? Os termos utilizados estão no plural masculino? Mas… Mas falaremos disso em outra ocasião, se estiverem interessados. Podemos continuar caminhando com Jesus e que “o coração ardia” à luz da Palavra e da presença dos migrantes entre nós, como presença de Deus.
Juan Carlos Greco, imc, é missionário junto aos imigrantes Warao, em Roraima.