Novas Paróquias à luz da Conferência de Aparecida
As observações da Conferência de Aparecida são basicamente instigantes para a mudança de mentalidade paroquial, que ainda é resistente à inovação.
Em um mundo cada vez mais desigual econômica e culturalmente, as paróquias — amparadas pela renovação pastoral — possuem um valor cristão fundamental na vida periférica e no ambiente social. O Documento de Aparecida, que aponta elementos importantes acerca das paróquias, bem como sobre a identidade cristã na sociedade, evidencia algo eficaz no que se refere às paróquias. Por serem lugares voltados para a formação educativa cristã, as paróquias são convidadas a colaborar organizadamente para a evangelização e, acima de tudo, para a melhoria da qualidade de vida. Entretanto, a Conferência de Aparecida destaca que:
A renovação das paróquias no início do terceiro milênio exige a reformulação de suas estruturas, para que seja uma rede de comunidades e grupos, capazes de se articular conseguindo que seus membros se sintam realmente discípulos e missionários de Jesus Cristo em comunhão. [...] Sua própria renovação exige que se deixe iluminar de novo e sempre pela Palavra viva e eficaz (DAp. 172).
As observações da Conferência de Aparecida são basicamente instigantes para a mudança de mentalidade paroquial, que ainda é resistente à inovação. Essas recomendações têm uma contribuição relevante para a renovação de paróquias, visto que novas formas de responder aos desafios contemporâneos demandam trabalhos pastorais autênticos e inovadores. As paróquias, quando estão fechadas no autoritarismo clerical, não colaboram para o avanço da identidade cristã dos leigos e das leigas, alimentando uma Igreja vazia de atividades pastorais e, principalmente, sem a presença do Evangelho na comunidade.
Em meio às desigualdades sociais, as paróquias renovadas são importantes no processo de formação humana e comunitária. Por meio de alternativas pastorais, as igrejas locais promovem valores fundamentais na promoção do exercício da cidadania e da identidade cristã em sintonia com o desenvolvimento coletivo. Ainda que as paróquias resistam à transformação estrutural, o Documento de Aparecida reforça a importância da renovação no universo urbano, adotando outros meios pastorais que possam transmitir a mensagem do Evangelho e motivar os cristãos a serem colaboradores na construção do Reino.
A Conferência de Aparecida sugere que "[...] esforços das paróquias neste início do terceiro milênio devem estar na convocação e na formação de leigos missionários". Só através da multiplicação deles poderemos chegar a responder às exigências missionárias do momento atual" (DAp 174). Ainda destaca que a renovação das paróquias consiste em cuidar da formação dos leigos e das leigas no discipulado eclesial, dado que é possível dialogar com as demandas recentes da sociedade (DAp 174). Ademais, o Documento de Aparecida (n. 176) recomenda que as paróquias sejam solidárias, porque essas comunidades religiosas de forma alguma devem se afastar dos sofrimentos humanos.
Por efeito disso, depreende-se que a solidariedade é uma tomada de decisão pastoral que visa responder de forma competente às contrariedades políticas e sociais na vida humana. Como meio de colaborar com o avanço democrático, precisamente com o poder público municipal, as paróquias — solidárias ao clamor popular — são opções em resposta ao descaso político na sociedade. A solidariedade ultrapassa a dimensão assistencialista, o projeto momentâneo de Igreja e, principalmente, o desânimo pastoral. Em um sentido mais amplo, essa solidariedade consiste em pautar a vida cristã para uma presença significativa no ambiente comunitário.
Pertinente expressar que, com base em Aparecida, a mudança paroquial "[...] exige atitudes novas dos párocos e dos sacerdotes que estão a serviço dela. A primeira exigência é que o pároco seja autêntico discípulo de Jesus Cristo, porque só um sacerdote apaixonado pelo Senhor pode renovar uma paróquia” (DAp 201). Em outra perspectiva comunitária, o pároco é aquele que orienta, colabora, inspira, motiva e provoca o avanço pastoral cristão, possibilitando o desenvolvimento de uma paróquia mais humana e fraterna. Ademais, numa relação evangélica com as lideranças leigas, os párocos podem contribuir para a expansão da Igreja em favelas ou em bairros com sérios problemas sociais.
A renovação paroquial, sob a luz da comunhão, é uma abordagem colaborativa, visto que "[...] não basta a entrega generosa do sacerdote e das comunidades de religiosos. Requer-se que todos os leigos se sintam co-responsáveis na formação dos discípulos e na missão" (DAp 202). Párocos centrados em si mesmos não têm forças para a renovação pastoral, porque acabam expulsando os leigos e as leigas da Igreja. Assim, as consequências são sérias quando os religiosos não possuem uma dimensão pastoral aberta e humana para acolher as qualidades das lideranças. Refletindo ainda a tarefa dos párocos, o Documento de Aparecida (201) indica uma sugestão significativa e vital no trabalho eclesial dos sacerdotes: o ato de buscar aqueles que estão afastados da Igreja.
Paróquias renovadas, enquanto espaços que propiciam a humanização da identidade cristã, principalmente dos leigos e das leigas, estão em conformidade com o Evangelho. São lugares afirmativos pela promoção do crescimento da vida espiritual, política e social. Organizadas culturalmente em vista do desenvolvimento humano e cristão, as igrejas locais são capazes de oferecer novos trabalhos pastorais. Por isso, a abertura para acolher dignamente os indivíduos, as famílias e as lideranças é fundamental em paróquias voltadas à renovação estrutural.
Ainda convém lembrar que as paróquias renovadas possuem o compromisso com a formação humana e comunitária (DAp 305). Tendo em vista que os novos desafios aumentam na sociedade, os cristãos são chamados a responder a esses entraves com criatividade, amparados pela proposta formativa cristã em sintonia com outras dimensões da vida. De acordo com a Conferência de Aparecida (n. 306), as paróquias "[...] devem ser também lugares de formação permanente. Isso exige que se organizem nelas várias instâncias formativas que assegurem o acompanhamento e o amadurecimento de todos os agentes pastorais e dos leigos inseridos no mundo”.
Como lugares destinados a cultivar o desenvolvimento dos cristãos na totalidade, sugere-se que as paróquias sejam educativas na vida dos leigos, das leigas e dos demais interessados em fortalecer a presença da Igreja no âmbito democrático. Fundamentado no Documento de Aparecida (n. 307), a criação de comunidades eclesiais é "[...] um meio privilegiado para a Nova Evangelização e para fazer com que os batizados vivam como autênticos discípulos e missionários de Cristo". Isso não quer dizer que as paróquias não sejam importantes; pelo contrário, essas igrejas locais são capazes de unir forças com as "[...] pequenas comunidades eclesiais [...]" (DAp 307).
Em consonância com a Conferência de Aparecida (n. 308), as comunidades eclesiais são "[...] um ambiente propício para escutar a Palavra de Deus, para viver a fraternidade, para animar na oração, para aprofundar processos de formação na fé e para fortalecer o exigente compromisso de ser apóstolos na sociedade de hoje”. Um fator importante a observar é que as comunidades eclesiais de base, de maneira alguma, têm a finalidade de excluir a dimensão paroquial, mas trazem a ideia de comunhão. A unidade diz respeito à proposta do Evangelho, a uma Igreja fortalecida, prevalecendo o sentido comunitário de partilha, de acolhida e de fraternidade.
A partir dessa perspectiva evangélica, para a criação de "[...] pequenas comunidades vivas e dinâmicas, é necessário despertar nelas uma espiritualidade sólida, baseada na Palavra de Deus, que as mantenha em plena comunhão de vida e ideais com a Igreja local e, em particular, com a comunidade paroquial" (DAp 309). Refletindo sobre essa constatação da Conferência de Aparecida, infere-se que o trabalho pastoral dos leigos e das leigas é, antes de tudo, uma defesa por mais vida, principalmente por unidade entre os cristãos, tendo em vista a melhoria do bem comum. O Documento de Aparecida propõe a recriação dessas comunidades eclesiais na conjuntura nacional ou local, dado que elas são fontes expressivas do Espírito Santo (DAp 311).
Embora a renovação paroquial seja relevante na conjuntura comunitária, há de se considerar que a conversão individual é importante para o avanço pastoral na Igreja. A conversão é entendida como uma prática de comportamento humano mais compreensiva, justa e digna, basicamente uma maneira de agir civilizada. Conforme a Conferência de Aparecida (n. 366), a “[...] conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo ao serviço da instauração do Reino da vida”. É notório que a ausência de conduta humana também provoca o afastamento dos cristãos do trabalho pastoral e, consequentemente, da Igreja.
Também o Documento de Aparecida ressalta que a conversão de todos os membros que estão na Igreja tem relevância para o avanço pastoral. Os religiosos e as religiosas, os leigos e as leigas, os bispos, os padres e os diáconos permanentes, conforme a Conferência (366), "[...] são chamados a assumir atitude de permanente conversão pastoral [...] A conversão dos pastores leva-nos também a viver e promover uma espiritualidade de comunhão e participação [...]. As paróquias e as comunidades eclesiais são, portanto, espaços que partilham valores comuns, indispensáveis para a elevação das atitudes humanas.
Integrada de forma profunda na proposta evangélica, a renovação pastoral "[...] requer que as comunidades eclesiais sejam comunidades de discípulos missionários ao redor de Jesus Cristo, Mestre e Pastor" (DAp 368). Apesar de ser uma tarefa complexa, é importante realizar mudanças efetivas nas paróquias ou nas comunidades, porque daí surgem novas relações sociais amparadas pela vivência cristã. Mesmo que se observe o quanto é relevante criar ambientes pastorais abertos e dialógicos, tornando-se casas acolhedoras e espaços formativos (DAp 370), a Conferência de Aparecida (n. 370) enfatiza que a "[...] conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária".
Paróquias ou comunidades eclesiais limitadas pastoralmente, que acabam deixando os membros ressentidos com a vida, sobretudo com a Igreja, reforçam as práticas excludentes e, assim, não promovem o sentido evangélico na sociedade e nos indivíduos. Por esse motivo, outras formas comunitárias de ser Igreja, à luz da renovação, são fundamentais para responder às questões sociais emergentes. Entretanto, o Documento de Aparecida (372) nos lembra de algo a ser vivenciado no cotidiano paroquial ou comunitário, uma vez que “[...] não se trata só de estratégias para procurar êxitos pastorais, mas de fidelidade na imitação do Mestre, sempre próximo, acessível, disponível a todos, desejoso de comunicar vida [...]”.
Não restam dúvidas de que os documentos da Igreja Católica (Puebla, Medellín, Santo Domingo, Concílio Vaticano II, Doutrina Social da Igreja, entre outros) são instigantes para a construção de novas relações sociais baseadas no princípio evangélico "por mais vida". Levando em consideração o texto de Aparecida, destaca-se que, mesmo sendo importante a renovação paroquial, principalmente o trabalho pastoral comunitário autêntico, os cristãos empenhados no avanço da Igreja necessitam seguir os passos de Jesus Cristo.
Por isso, é o momento de repensar a identidade cristã no cotidiano paroquial, porque a vida pastoral cristã é movida pelos valores evangélicos (serviço, entrega, ética, compromisso, dentre outros). Eles são relevantes para serem cultivados no cotidiano paroquial, até mesmo nas relações sociais; em suma, visto que os lugares religiosos também podem contribuir para o desenvolvimento de comportamentos mais acolhedores.
Além disso, no trabalho pastoral, a dimensão de cuidado é fundamental na vivência comunitária dos leigos, das leigas e dos religiosos(as), especificamente no sentido da orientação, zelando pela comunidade fraterna (cf. 1 Pd 5,2) e servindo à Igreja e àqueles que sofrem. A dimensão pastoral, amparada em Cristo, no cotidiano da Igreja, não é de dominação, mas de uma postura de vida cristã (cf. 1 Pd 5,2-3), que possibilita o crescimento do outro. A finalidade essencial do trabalho pastoral dos cristãos é servir profundamente a Cristo, sem esperar algo em troca, uma vez que a vida cristã é um entregar-se à causa comum, colaborando com o bem-estar social.
Outro aspecto a ser abordado é que o Documento de Aparecida (n. 376) recomenda que os cristãos necessitam ultrapassar a paróquia, testemunhando o projeto evangélico em locais onde a Igreja não possui presença significativa. Por isso, “[...] ser discípulos e missionários de Jesus Cristo [...] leva-nos a assumir evangelicamente, e a partir da perspectiva do Reino, as tarefas prioritárias que contribuem para a dignificação do ser humano e a trabalhar com os demais cidadãos e instituições para o bem do ser humano”(DAp n. 384).
É notório que uma paróquia organizada, competente e preocupada com a humanização dos indivíduos faz diferença na Igreja, particularmente quando dialoga com as pessoas que estão no ambiente político municipal, por exemplo. Pressupõe-se que o trabalho pastoral, em sintonia com o poder público, carrega a possibilidade de transformação do coletivo, conferindo-lhe um serviço libertador à luz do reinado de Deus. Dessa maneira, as comunidades eclesiais e as paróquias têm uma afirmação pelo desenvolvimento da vida democrática — algo já ressaltado. Em harmonia com as metas evangélicas, elas são fundamentais na elevação da Igreja e, ao mesmo tempo, proveitosas para enriquecer a vida cristã no universo urbano.
Em face dos obstáculos na cidade, a Conferência de Aparecida incentiva todos a continuar a evangelização nas áreas urbanas, fundamentada tanto na alegria quanto na coragem (DAp, n. 513). Sobre a relevância da presença cristã na cidade, o Documento de Aparecida (n. 514) sublinha que a "[...] fé nos ensina que Deus vive na cidade, em meio a suas alegrias, desejos e esperanças, como também em meio a suas dores e sofrimentos". Logo, a atividade pastoral, mesmo que seja desafiante lidar com as novas demandas sociais, é crucial estar no cotidiano periférico porque este necessita da presença efetiva dos cristãos.
A Conferência de Aparecida (n. 514) reforça que, diante das sombras que existem na vida humana social, a saber: desigualdade política, fome, falta de moradia, entre outros problemas, não há motivos para as paróquias ficarem estáticas, sem uma proposta de intervenção. Tais fatos "[...] não nos podem impedir que busquemos e contemplemos o Deus da vida também nos ambientes urbanos. Nas cidades é possível experimentar vínculos de fraternidade, solidariedade e universalidade" (DAp, n. 514). Desse modo, fica explicitado o sentido da renovação paroquial à luz do trabalho pastoral mais encarnado com os desafios urbanos, "[...] capaz de atender às variadas e complexas categorias sociais, econômicas, políticas e culturais: pobres, classe média e elites" (DAp, n. 516 b).
A fim de contribuir para o esforço de melhoria democrática, a Conferência de Aparecida (n. 541) sugere a participação da Igreja no desenvolvimento de instituições sociais voltadas a assegurar os direitos humanos. Com base no texto, é possível identificar a relação do Evangelho com os desafios do ambiente social. Por isso, os cristãos são convidados a assumir uma tarefa pastoral que consiste em lutar por mais democracia, ultrapassando o contexto paroquial.
Outro ponto primordial que a Conferência de Aparecida (n. 541) evidencia, seguindo a ideia de elevar a democracia e as relações sociais, é a respeito da cultura de paz na sociedade. Infere-se que formar os indivíduos também para a paz, buscando transformar o mais íntimo do ser humano para o contato civilizado e compreensivo, compete a todos os espaços educativos e pastorais. Apoiando-se no Documento de Aparecida (n. 541), a Igreja é chamada a ser "escola permanente de verdade e justiça, de perdão e reconciliação para construir uma paz autêntica". Assim, as paróquias e as comunidades eclesiais de base são meios de educar os cristãos para a promoção da paz no cotidiano da vida.
Inspirado nesta perspectiva democrática e na educação para a paz, as paróquias ou as comunidades existem para servir a cidade (DAp, n. 516), as periferias ou os bairros com problemas sociais por intermédio do trabalho pastoral. A Conferência de Aparecida (n. 517a) sugere que, em meio ao aumento da urbanização, as paróquias renovadas sejam compromissadas com esses desafios. Supõe-se que as atividades pastorais, à luz da organização evangélica e preocupadas com o desenvolvimento da Igreja, são maneiras de transformar "as paróquias cada vez mais em comunidades de comunidades" (DAp, n. 517e).
Todavia, mais do que simplesmente expressar a defesa dessa opção pelos pobres, a Conferência de Aparecida (n. 397) sugere que os cristãos e a Igreja tenham atitudes concretas, evitando quaisquer decisões autoritárias. Eis a relevância de recuperar a dignidade humana por intermédio de ações pastorais amplas e significativas que alterem a desigualdade social. Ademais, o Documento de Aparecida (n. 397) propõe um compromisso ético para os leigos e para as leigas, os religiosos e as religiosas, que diz respeito à dedicação do tempo aos pobres, bem como "[...] prestar a eles amável atenção, escutá‑los com interesse, acompanhá‑los nos momentos difíceis, escolhê‑los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossa vida [...]".
A perspectiva de renovação paroquial é desafiadora porque envolve sair da rotina comum cristã, especificamente da programação interna paroquial, que de nenhuma maneira projeta o cuidado pela vida coletiva. Renovar o trabalho pastoral é abrir as portas da Igreja, acolhendo a todos à luz da solidariedade, da escuta e da fraternidade. Em função disso, a paróquia é propriamente uma comunidade eclesial, entendida como espaço fraterno entre os irmãos (cf. At 2,42-45), em estreita relação com os pobres. Assim, a Conferência de Aparecida (n. 398) observa que “[...] a proximidade que nos faz amigos nos permite apreciar profundamente os valores dos pobres de hoje, seus legítimos desejos e seu modo próprio de viver a fé. A opção pelos pobres deve conduzir-nos à amizade com os pobres”.
Mesmo que contradições estejam presentes nas comunidades cristãs, as paróquias renovadas são lugares de serviço aos pobres e de acolhida fraterna, superando o assistencialismo e os preconceitos contra os pobres. Em suma, essas paróquias não têm afinidade com um projeto que exclui indivíduos. Considerando a reflexão da Conferência de Aparecida acerca dos pobres, infere-se que as paróquias devem estar próximas da vivência cotidiana dos excluídos culturalmente do acesso à educação, à saúde e dos direitos humanos. Dessa forma, as paróquias possuem uma tarefa educativa: formar leigos e leigas integralmente no compromisso social para que todos possam intervir na sociedade (DAp 400).
Ao sugerir a Pastoral Social, por exemplo, o Documento de Aparecida (403) recomenda que se leve em conta a criatividade, bem como planos concretos que possam iluminar a criação de políticas públicas, uma vez que essas políticas são responsáveis pela promoção humana e, consequentemente, por contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos. Deste modo, o trabalho pastoral na Igreja não está separado da vida urbana, social e política. Como lideranças atuantes, os leigos e as leigas, apoiados pelos padres e por religiosos(as), são protagonistas no fortalecimento da Igreja-comunidade em vista da melhoria democrática.
Por outro lado, é fundamental que as paróquias comecem a dialogar com os outros movimentos e associações sociais (DAp 403), a fim de projetar ações para a elevação da democracia numa relação de respeito, de solidariedade e, em suma, de unidade para a erradicação da pobreza. Apropriando-se das recomendações da Conferência de Aparecida, é possível inferir que as paróquias merecem ser cuidadas com base no espírito de fraternidade entre todos os cristãos. Os leigos e as leigas, portanto, podem orientar, sugerir e propor sugestões para que o ambiente paroquial não seja marcado pela rotina, sem presença significativa na vida de quem precisa de apoio humano.
É oportuno lembrar que as tarefas administrativas nas paróquias não sustentam os trabalhos pastorais. São importantes em certo sentido; todavia, de outra perspectiva, colaboram para a fragmentação paroquial que paralisa as atividades pastorais. A fim de superar essa situação, sugere-se uma harmonia entre a burocracia e o trabalho pastoral, visto que também é importante cuidar humanamente dos leigos e das leigas para que eles sejam atuantes na sociedade.
Frente a sérios problemas sociais que se expandem cotidianamente próximos às paróquias, principalmente nas cidades metropolitanas, os moradores de rua, por exemplo, merecem uma atenção humana e cristã por parte da Igreja (DAp 407), assim como do poder público. O Documento de Aparecida observa que essas pessoas necessitam "[...] da Igreja cuidado especial, atenção e trabalho de promoção humana, de tal modo que, enquanto se lhes proporciona ajuda no necessário para a vida, também sejam incluídas em projetos de participação e promoção nos quais elas próprias sejam sujeitos de sua reinserção social". Nesse sentido, as paróquias são ambientes acolhedores que assumem integralmente a proposta libertadora do Evangelho, agindo em vista da transformação social.
O Documento de Aparecida (409) observa que a opção pelos pobres "[...] nos impulsiona, como discípulos e missionários de Jesus, a procurar caminhos novos e criativos a fim de responder a outros efeitos da pobreza". Mais uma razão para as paróquias e as comunidades eclesiais não ficarem paradas diante dos entraves sociais, pois essas igrejas locais — como já foi abordado — têm força para resgatar a dignidade humana. Como cristãos empenhados na luta pela promoção dos direitos humanos, leigos e leigas organizados possuem a capacidade de reivindicar políticas públicas mais efetivas.
Tendo em vista a proposta do Documento de Aparecida sobre a relevância das paróquias, compreende-se que os trabalhos pastorais são significativos quando ultrapassam a estrutura interna paroquial. Paróquias ou comunidades eclesiais renovadas também cuidam da juventude, dos idosos, da questão da moradia, da erradicação da fome, entre outras dimensões da existência humana. Eis a importância de organizar as comunidades paroquiais na sociedade contemporânea: elas não existem para atrair as massas por meio de eventos; têm, porém, o propósito de colaborar com o progresso humano e social. Nesta nova estrutura de paróquias renovadas, a hospitalidade, a acolhida, a civilidade, o compromisso e a proposta do Evangelho são componentes fundamentais para o fortalecimento da Igreja na sociedade.
Rene Barbosa é graduado em Ciências da Religião, mestre e doutor em Educação (UMESP) e pós-doutor em Educação (PUC-SP). Referência: CELAM. Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe. São Paulo: Paulinas, Paulus, 2007.