Revista Missões Logo
Destaque

Falando sobre Maria

 

Mês de maio, mês dedicado pela Igreja Católica à Nossa Senhora. Reflitamos sobre os Dogmas Marianos e a importância de Maria na vida litúrgica e pastoral das comunidades.

Por Mauro Negro

Dogma é uma palavra que tem múltiplos significados. Há uma visão negativa e restritiva para ela, que considera o dogma como uma imposição cruel, intransigente, até meio obtusa. Isso entrou na língua comum e é usado de muitos modos, especialmente para indicar uma imposição, uma restrição, uma lei de natureza opressiva. 

Se assim acontece, talvez seja porque no passado ou alguém entendeu errado o conceito ou algo de equivocado foi feito com ele. Na realidade, esta palavra é também usada em sistemas políticos, em percepções culturais e até em ambientes científicos. É comum que os não declarados “dogmas científicos” sejam impostos pelos seus organizadores e defensores, e que não se aceitem outras possíveis percepções. 

A ciência, a política, a história, as ideologias e outros âmbitos do pensamento e da atividade humana têm uma notável e expressiva reação negativa ao conceito do “dogma”, embora, como dissemos, todas estas áreas possuem os “seus dogmas”. 

Algumas propostas religiosas, que chamamos de religiões, deixam de lado o conceito de dogma e se apresentam com um perfil de aceitação ampla e irrestrita. Mas não é assim, pelo simples fato que o dogma tem a ver com a identidade, junto a outros elementos, com a sobrevivência da religião ou de outros sistemas humanos. 

O dogma é um caminho seguro, embora não de todo conhecido. Vamos fazer uma comparação. O dogma é como uma estrada que está ali, sabemos que existe, e que conduz a um local. Mas é preciso que seja usada para levar até lá, do contrário, ficará ali, sem uso. Quando a estrada é usada, por exemplo por um automóvel, ela impõe um ritmo de caminhada, uma direção, um modo de ser tomado como caminho. Ela tem limites, facilidades, dificuldades, restrições. Mas conduz, leva a um local. 

Então, um dogma tem algumas características básicas: é ESSENCIAL, é FUNDAMENTAL, é DINÂMICO. Estes conceitos parecem que estão um pouco em contradição, pois o que é essencial não costuma ser dinâmico. O dinâmico tem o traço da mudança, da transformação. O essencial é fixo, não pode ser mudado pois se o for, não será o mesmo, deixando de ser essencial. Outra comparação: se o dogma é fundamental, é como uma coluna, um alicerce de um edifício. Pode-se mudar paredes, tetos, pisos e outras coisas, mas não se pode mudar um alicerce. Pode-se destruir o que existe e fazer um outro, e já não seria o mesmo, claro. 

As Características do dogma

ESSENCIAL: Porque diz respeito a um ponto muito preciso, bem determinado. Não é um longo discurso, um raciocínio complexo ou uma fórmula extensa. É um dado, uma palavra, uma frase ou uma afirmação que determina o que vem depois. É a identidade que determina o que se diz ou se faz. 

FUNDAMENTAL: Está ligado aos elementos mais básicos da Fé. Alimenta a oração, a ação, a esperança, o martírio (testemunho). 

DINÂMICO: Pode ser aprofundado, melhorado na sua expressão e até ser redescoberto. Exige uma constante revisão de sua formulação, pois as interfaces culturais, históricas e científicas mudam com o ser humano. A formulação de um dogma pode mudar, portanto. Permanece, contudo, o essencial.

Ocorre que, embora façamos estas comparações, o dogma é sempre uma realidade única, não física como as comparações que usamos. É um ponto, um dado, expresso em uma palavra ou um conjunto de palavras, que determina algo sobre o qual outros elementos se estabelecem. Um dogma é como uma semente lançada em um solo. Ela cresce, se transforma em algo maior. O fato da semente não pode ser negado, mas ela, a semente, já se transformou. 

Na Fé Cristã e Católica existem dogmas que são as verdades de Fé propostas pela Igreja. Aliás, estas verdades constituem, em grande parte, a própria identidade da Igreja. Não se trata de algo muito grande, mas sim de algo, como dissemos atrás, essencial, fundamental e dinâmico. 

Exemplos de dogmas

Exemplos de dogmas que já foram muito discutidos e propostos ao longo da história. Cada um tem um tempo e contexto, tem uma fórmula, que é a maneira de ser expresso, e tem consequências, que compõem as suas funções.

  • As duas Naturezas de Jesus Cristo: Divina e Humana;
  • A Trindade;
  • A inspiração bíblica;
  • A natureza da Igreja;
  • A presença real de Cristo na Eucaristia.

Existem mais dogmas, ou verdades de Fé. Mas não são, realmente, muitos. Embora não sejam muitos, são determinantes. Por exemplo: [1] Se não se crê na inspiração bíblica, então a Bíblia é apenas um livro interessante, curioso e múltiplo. [2] Se Jesus não tem duas naturezas, então ele ou não é o Filho de Deus e, portanto, não revela o Pai, sendo sua Palavra; ou não é real na história, sendo apenas uma fantasia, uma imaginação. [3] Se a Eucaristia não é a presença real de Cristo, então é apenas uma ceia de natureza religiosa, ritual. E por aí vai…

As fontes dos dogmas

Os dogmas não são simplesmente declarados, pronunciados conforme a vontade ou impressão de alguém. Um dogma, ao ser declarado ou definido, é o produto, ainda não concluído, de uma longa caminhada teológica, filosófica, histórica e espiritual. Em geral, uma autoridade declara o dogma, buscando deixar claro o que ele expressa. Esta autoridade pode ser um Papa ou um Concílio Ecumênico. 

As fontes dos dogmas são a ESCRITURA, Antigo e Novo Testamentos, a TRADIÇÃO da Igreja, em geral escrita e documentada, mas que pode ser também oral, e a FÉ DO POVO DE DEUS, que é parte da própria Tradição. 

Estes elementos entram em comunhão e um dogma é apresentado ou, como se diz, DEFINIDO. Algo “definido” é algo que tem limites. A definição indica onde começa e onde termina algo. No caso de um dogma, a definição indica, por assim dizer, o seu “tamanho”. Indica também que é aquilo, e não mais nem menos. O notável desconhecimento deste argumento em âmbito popular e mesmo cultural leva a considerações desnecessárias e equivocadas. 

Um dogma é, retomando a (limitada) comparação anterior, é a expressão do alicerce que sustentará toda a construção de fé que será apresentada. Ele é o essencial daquilo que ele deseja definir; ele é o fundamental do que declara; ele exige uma constante explicitação, explicação e esclarecimento, de acordo com as mudanças culturais e históricas. 

É importante notar que um dogma determina, de múltiplos modos, a Fé. E isso acontece, sobretudo, na expressão formal da Igreja, que é a LITURGIA. Próspero de Aquitânia (390–465), escritor cristão leigo, discípulo de Santo Agostinho e depois secretário do Papa Leão I, tem uma célebre frase que, embora não ligada ao tema dos dogmas, tem algo a dizer sobre eles. A frase é “Lex orandi, lex credendi”, que pode ser traduzida como “a maneira correta de orar é a maneira correta de crer”. Significa que a oração expressa o que se crê, e certamente o contrário também: o que se crê é expresso no conteúdo e na maneira como se ora. Por orar aqui entendamos não apenas oração pessoal. É sobretudo a oração da Igreja, chamada de Liturgia. 

Os dogmas são constantemente expressos na Liturgia da Igreja. Note-se que também existem expressões devocionais, que nem sempre são fundamentadas em dogmas. 

Os dogmas marianos

Os dogmas marianos são quatro, como veremos. Os dois primeiros estão diretamente ligados a Jesus Cristo, às suas Naturezas e Pessoa. Os outros dois são deduzidos do conjunto maior da Revelação. 

Maternidade divina

Isto quer dizer que Maria é mãe de Deus. Jesus, seu filho, é o Filho de Deus, mas é também filho humano. Ele tem duas naturezas. Isso é raciocínio filosófico e exige muita reflexão. Ainda assim, parece ser fácil de entender. Aliás, talvez este seja o dogma mariano mais fácil de ser compreendido! 

Todos nós temos uma natureza: a humana. Sabemos, temos noção de como uma pessoa pode sentir-se em alguma circunstância. Temos necessidades semelhantes e reações em forma de padrões. Nossa natureza comporta a imagem e semelhança com Deus, como lemos na afirmação bíblica de Gênesis 1,27: Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou. A realidade de imagem e semelhança de Deus pode ser definida de muitas maneiras. Escolhemos a definição de imagem e semelhança como liberdade, inteligência e vontade. As palavras podem mudar, mas essencialmente não mudam os conceitos. 

Ora, pela inteligência semelhante à de Deus, o ser humano pode compreender a natureza de outros seres. Os outros seres não compreendem nossa natureza, mas nós compreendemos, um pouco, a natureza vegetal e a natureza animal, especialmente dos mamíferos, pois somos mamíferos. No entanto, embora compreendamos estas naturezas, nós nunca a compreenderemos totalmente, pois não somos vegetais nem somos de outra espécie ou gênero ou família de animais. Eles não têm esta possibilidade, pois não são imagem e semelhança de Deus. Isto que temos nos permite compreendê-los. 

O que nós compreendemos mais é a natureza humana. Então, podemos compreender a o Ser Humano Jesus, filho de José, de Nazaré (João 1,45). Temos acesso, não direto, claro, à sua natureza humana, ao seu modo de ser, sentir, sonhar. Sofremos com seu sofrimento na paixão e morte; nos encantamos com o seu nascimento; nos impressionamos com sua personalidade arrebatadora. Entendemos que Jesus é o homem que se pode dizer “perfeito”, pois cumpriu totalmente sua natureza humana. 

Mas… Não somos Deus, claramente! Não podemos pensar como Deus, sentir como Ele, sonhar, reagir, interagir. Isso é coisa que somente Ele pode viver e ser, pois somente Ele é Deus. O que nós fazemos é, no máximo, comparar, com algum esforço, pois nossa natureza humana tem a inteligência semelhante, não igual, àquela de Deus. Isso nos permite compreender algo, e já é muito, mas não o todo. 

Não é a nossa experiência ter duas naturezas, a humana e a divina. Não é possível entender isso, pois nos falta a compreensão plena da natureza divina. Quando dizemos que Jesus é Deus e Homem, declaramos suas duas naturezas. E sendo humano, Ele não é uma fantasia, uma sobra da divindade, um homem adotado por Deus em algum momento de sua vida. Não! Ele tem duas naturezas que convivem em um único Ser. E aqui entra a maternidade divina!

Jesus não nasceu humano e foi adotado por Deus, como dissemos. Ele não era Deus e se “disfarçou” de homem. Ele de fato NASCEU como todo ser humano nasce. Mas sua Pessoa tinha DUAS NATUREZAS, o que somente Ele teve. E Maria é a MÃE desta SER HUMANO ÚNICO que é Jesus. Sendo que a natureza humana nasce pela natureza humana, então Maria gerou em si o ser humano Jesus. Mas nele estava também a natureza divina, que deveria estar sempre nele. Assim é que MARIA é a MÃE DE DEUS. 

Esta afirmação é muito importante, pois define a IDENTIDADE de Jesus: sua PESSOA DIVINA E HUMANA. 

É claro que este modo de raciocinar pode ter limites, mas expressa de alguma forma lógica, a partir da antropologia e da Revelação bíblica, a verdade ou dogma da Maternidade Divina. Note-se também que este dogma, embora sendo relacionado a Maria, tem a ver com Jesus.

Virgindade perpétua

A virgindade perpétua de Maria indica, a princípio, que ela não teve relacionamento íntimo para a geração física de Jesus. Dissemos que “a princípio”, pois o conceito “virgindade” tem muitas possibilidades de compreensão. 

Encontramos em Mateus 1,18, início da anunciação a José, a menção implícita da virgindade de Maria: A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. 

Em Lucas 1,26-27 lemos a anunciação a Maria: No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. Este texto se completa com o versículo 34: Maria, porém, disse ao Anjo: “Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum?” 

É certo que a primeira ideia que surge quando se ouve o termo virgindade, no contexto de um matrimônio e de uma gravidez, é de natureza física. Mas é possível ampliar este conceito, embora aqui não o faremos pois fugiria de nossa visão introdutória. 

Não é possível “provar” esta situação: a gravidez sem a cópula. Mas aqui entramos em um campo que faz fronteira com outros da Natureza, que certamente vão muito além de nossa atual compreensão. Na realidade, a física nos indica que nem tudo o que existe é possível de ser provado, embora exista e seja por nós sentido, mas não pode ser provado. A Natureza é paradoxal em incontáveis pontos, como a identidade da luz. Os físicos sabem que, observada como formada de partículas, ela se comporta como se fosse uma onda; e se for observada como onda, ela se comporta como sendo partícula. O que podemos ver e compreender do mundo que nos cerca, do incomensuravelmente grande universo, com seus quase quatorze bilhões de anos de existência e mais de noventa bilhões de anos-luz de tamanho, é uma janela minúscula, infinitesimal de minúscula. E quanto mais estudamos, investigamos e aprofundamos, mais descobrimos, mais vemos que a complexidade é humanamente infinita. E nós estamos aqui no meio disso tudo. 

Bento XVI Ratzinger considerava estes termos de física, química, matemática, e outros, e perguntava se seria tão impossível que uma virgem pudesse dar à luz em a participação de um homem. Se consideramos que Deus pode agir na Natureza de modo a tornar o que, a princípio não poderia acontecer, por que não aceitar esta situação? Em todas as culturas, de todos os tempos, encontram-se relatos de curas fantásticas, sem a intervenção médica. Isso, aliás, desperta a argumentação religiosa e a adesão de fé. 

Para o ser humano pós-moderno pode ser difícil crer na concepção virginal de Jesus, e aqui ela não pode ser provada diretamente, senão referendada com a afirmação bíblica e a tradição duas vezes milenar do Cristianismo. Mas o mesmo ser humano pós-moderno crê com facilidade em horóscopo, em soluções ideológicas para os problemas que sempre encontraram desejo de solução pelos anteriores ideólogos. Este mesmo ser humano pós-moderno crê que a medicina, em menos de cem anos, fará a morte física desaparecer. Apenas que não pensou o que isso pode causar na psicologia de alguém que chega a uma idade centenária. 

É mais fácil crer no impossível que não tem rosto de Fé cristã. Claro que as coisas não são assim tão fáceis ou simples, pelo contrário. Mas a virgindade de Maria indica três aspectos que devem ser considerados. 

[1] A ausência do coito. É este o primeiro ponto que deve ser observado. A Tradição cristã sempre considerou e acreditou no nascimento virginal de Jesus. Não há em nenhum texto antigo, incluindo os chamados evangelhos apócrifos, uma menção a outros “filhos de Maria”. Encontra-se “irmãos de Jesus”, o que não precisa ser, a princípio, uma indicação de irmãos físicos ou família humana de Jesus. 

Os textos do Novo Testamento não propõem uma relação humana física entre José e Maria. Mas, atenção: não era intenção dos Evangelhos defender a virgindade de Maria! Mateus 1,25 não pode causar desconforto ao leitor ou ao fiel: Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. (…) Ora, isso não significa que “depois deste dia que ela deu à luz” houve intimidade entre eles. A afirmação é no sentido de negar a intimidade antes do nascimento. Depois, não interessava ao Evangelho. Somos nós que muito nos preocupamos com isso, fazendo da virgindade física de Maria um caso por demais sério. E talvez seja isso que deve ser superado. Não negado, mas superado, desdobrado. É o que se segue. 

[2] A decisão da vida. A virgindade de Maria, antes de ser um ponto na anunciação, é uma decisão de vida. Não se trata, claramente, de uma virgindade física, pois se assim fosse, por que ela estaria indo para o matrimônio? A decisão de Maria talvez fosse a dedicação da inteligência e da vontade no seguimento do Deus de seu povo, Israel. E subitamente algo extraordinário acontece: a teofania da vida de Maria, quando ela passa a conhecer a vontade de Deus a seu respeito. Parece certo que o desejo do jovem casal seria de formar uma grande família, com muitos filhos. A intervenção de Deus nesta possível história redimensiona, redireciona as decisões. A decisão de vida de Maria, parece que em um primeiro momento, mudou: ela agora deverá guardar sua intimidade para condicionar tudo para Jesus, Homem e Deus. No segundo momento, ela deverá aprofundar o que antes já devia ter decidido: O coração da fé.

[3] O coração da fé. E assim chegamos ao desdobramento de novas compreensões a respeito da virgindade. Ela não decidiu seguir a vontade de Deus naquele momento: ela já havia decidido, antes! E isso abre o caminho para o outro dogma mariano: a Imaculada Conceição. Ela está predisposta, pela sua inteligência e vontade, a estar na total vontade de Deus. Notemos, porém, que Maria não é fora deste mundo!

Consideremos que, se Jesus, Deus e Homem, passou pela tentação, como lemos nos Evangelhos sinóticos, então Maria, ser humano sem natureza divina como Jesus, deve também ter passado pela tentação! O coração da Fé é a decisão original e sempre renovada de estar em comunhão com seu Deus. Isso exige também o dom, que chamamos de graça. Por isso o mensageiro celeste afirma, no encontro com Maria: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lucas 1,28). Ela está “cheia de graça” pois aceitou de modo esplêndido a graça que lhe foi concedida. Isso pode ser a expressão da virgindade. 

A perpétua virgindade de Maria tem o reforço do texto de Isaías 7,14, reproduzido no Evangelho segundo Mateus, no contexto do anúncio a José: Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel, o que traduzido significa: “Deus está conosco” (Mateus 1,22-23). Aqui existem questões um pouco complexas de índole gramatical, redacional e textual. Deixemos para outro momento. 

A virgindade perpétua de Maria não pode ser provada por nós, mas pode ser aceita como expressão real da decisão de seguir a Deus. É um ato de Fé, não apenas emocional, mas intelectual e social. O que propomos é que na anunciação esta virgindade mudou de significado, passando de uma mente e coração voltados em direção a Deus para a decisão de seguir em uma situação física e de convivência específica. 

Neste ponto é oportuno considerar que a virgindade perpétua de Maria implica na presença e aceitação de José, que torna isso possível e significativo. 

Imaculada Conceição 

Até aqui vimos os dogmas marianos comuns entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Estes dogmas compõem o patrimônio que pertence a estes dois modos de ser Cristão: o “ocidental” e o “oriental”. Eles são realidades do primeiro milênio, quando estas Igrejas, embora distintas, ainda estavam unidas. Agora veremos os dogmas que são, em ambas as Igrejas, tradições muito antigas, mas que se tornaram dogmas na Igreja do Ocidente, com todo os seus ritos.

“Imaculada Conceição” significa a formação de sua pessoa sem pecado. Aqui o problema de fundo é o que Santo Agostinho e toda a teologia posterior chamará de “pecado original”. E a questão começa com este conceito de “pecado original”. Uma interpretação equivocada relaciona esta situação com a reprodução, com o uso do sexo. Aqui está um duplo problema: a suposta fonte do pecado original e sua aplicação. Além disso, há a dificuldade de explicar, de modo claro e atual, este conceito de pecado original. 

Vamos tentar entender assim: o pecado original não é uma escolha, mas uma tendência que todo ser humano partilha com a humanidade. É parte de sua constituição, é uma possibilidade de sua vida, é uma consequência de algo profundo em sua natureza. Antes de ser um fato que a pessoa carrega desde que nasce, é uma tendência que todo ser humano possui, e com a qual deve lutar sempre. Sozinha, sem a presença da Graça, que é a amizade com Deus, a salvação oferecida por Deus e aceita pelo ser humano, sem isso seria difícil, senão impossível alcançar a salvação. Mas não é o ser humano que “se salva”, e sim Deus que o salva. Deste modo, o ser humano não é o sujeito de sua salvação, mas o objeto, tomado por Deus, para encontrar o sentido de sua vida em toda a eternidade. 

O pecado original é, assim, O PECADO QUE ORIGINA OS DEMAIS PECADOS. É o pecado “de origem” dos demais. É algo que se possui como uma possibilidade constante, um perigo de vida que precisa ser sempre superado.  

Na essência, o pecado original é o DESEJO DE SER DEUS, de tomar o lugar de Deus. É o mal uso da imagem e semelhança de Deus, que é a liberdade, a inteligência e a vontade. Para que isso seja diferente, é preciso um dom extraordinário, que ilumine de modo particular este triplo traço que se possui, que vem com a nossa natureza e nos leva a superar o desejo de “ser Deus”. Esta superação vem com o dom da presença de Deus, a GRAÇA. O mensageiro celeste, ao encontrar Maria, se revelando de modo teofânico a ela, no relato de Lucas 1,28, afirma que ela é “cheia de graça”. 

Note-se que o pecado original não é uma invenção ou mito, é uma realidade que todos partilhamos, e que está aí, sempre. Note-se também que isso não é o mais forte na natureza humana, mas é expressão de sua própria fragilidade. Não é algo desejado por Deus, mas um traço da limitação humana. É a consequência da nossa humanidade. Nós temos a nossa natureza física que tem qualidades enormes, mas que carrega consigo as contradições. Quanto mais somos complexos, mais temos a possibilidade de errar.

O dogma da Imaculada Conceição destaca a extraordinária situação em que Maria se encontra: a ausência do desejo de ser Deus. Talvez isso possa ser expresso de outro modo: ela é “simples”, objetiva na sua escolha de vida, focada no desejo de estar com Deus e em Deus. 

Esta interpretação busca ser uma abordagem que se diz antropológica, e não mítica. É a constatação de que somos presas frágeis, vítimas de uma situação que nos pega desde nosso nascimento, o fato que, ao nascermos, já começamos a morrer, embora o ritmo da decadência se intensificará muitas décadas depois de nossa natividade. 

A Imaculada Conceição de Maria não suprime a sua decadência física e intelectual. Em outras palavras, Maria envelhece, se desgasta, irá morrer como qualquer ser humano. Mas ela tem, por graça única de Deus, a possibilidade de não se permitir querer ser Deus.

Embora isso pareça bem confortável, pois torna Maria possível de estar unida a Deus desde o início, não é, como tudo na vida humana, um “produto final”, acabado, já concluído. É algo que predispõe a um modo único de ser humano, mas que precisa ser colocado em prática. A Imaculada Conceição de Maria garante sua natureza predisposta à Graça, mas não garante que isso seja constante e automático. Deste modo, é preciso que a inteligência, a liberdade e a vontade de Maria sejam direcionadas para Deus. Isso se faz com a Fé. 

O melhor modo de compreender, ainda que de modo não óbvio, é o final da anunciação feita a Maria, em Lucas 1,38. Ali encontramos: Disse, então, Maria: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o Anjo a deixou.

O que chama a atenção aqui é “E o anjo a deixou”. Quer dizer que o momento da luz, da clareza dos sentidos, da segurança, foi interrompido. Agora começou o TEMPO DA FÉ. Tudo estava claro ali, naquela revelação que Maria recebeu. Mas agora é preciso viver na história, nas contradições. É preciso decidir sempre por Deus, pela Verdade, pelo Bem. E nem sempre isso é claro. 

Maria estava cheia de graça e era a serva do Senhor. Isso é o início de sua história, de seu papel na Salvação, mas não está concluído no momento que ela tem Jesus em si e o conduz, não sozinha, mas com José, seu esposo. É preciso renovar sempre, todos os dias, o desejo de, como se disse acima, estar com Deus. 

Isso é interessante de ser considerado nos relatos evangélicos. Depois das primeiras páginas de Lucas, não se ouve mais a voz de Maria. Ela aparece, de modo discreto, no episódio das bodas de Caná, em João 2,1-12. Depois aparecerá somente aos pés da Cruz. E ainda em silêncio. Este é o traço de sua Imaculada Conceição: a aceitação da vontade de Deus, sem a revolta ou inconformismo que nos acompanham. A Graça, nela, não foi em vão, mas a acompanhou por toda a vida, e nela cresceu. Isso nos leva ao quarto dogma mariano, a Assunção de Maria. 

A assunção de Maria

No primeiro milênio, as Igrejas do Oriente e do Ocidente estavam juntas no modo de crer e em muitas expressões de Fé. Uma das imagens que as igrejas partilhavam era a “dormição de Maria”. O ícone era valorizado de modo difundido. 

Maria aparecia deitada, posta de modo sereno, com fiéis que a acompanham e veneram. E Jesus aparece ao seu lado, de forma esguia, com uma menina em suas mãos. Esta menina é Maria ressuscitada. 

A imagem é um pouco ambígua, mas deve ser compreendida, como tudo, no seu contexto histórico e cultural. A expressão é que Maria, pelo fato único de sua maternidade divina, e de sua Imaculada Conceição vivida todos os dias da vida, pode já entrar na glória do paraíso. O essencial disso é SUA RESSURREIÇÃO. Ela é o que todo fiel deve ser na eternidade: completa, definitiva, resplandecendo a luz de Deus. Isso se expressa, na linguagem iconográfica, com a dupla imagem de seu repouso, chamado “dormição”, mas que é sua morte, e sua nova figura, nos braços de seu filho, onde ela está como uma menina, vestida de branco. 

O problema é que a imagem dada pela expressão “dormição” desvia a compreensão, levando à percepção de que ela teria não expirado ou morrido, e sim adormecido, sem a realidade da morte. E depois tem o caso da sua “subia ao céu”, que se diz ASSUNÇÃO, que supõe uma imitação da ascensão de Jesus. Subir ao céu indica retorno à realidade anterior. É um modo de dizer algo que foge ao nosso conhecimento e compreensão imediato. O que nos leva a desejar uma nova linguagem para expressar o que é essencial e fundamental no dogma. 

Todo ser humano morre! Jesus morreu na cruz. Por que Maria não iria morrer também? A essência do dogma da assunção está não no “sono” de Maria, nem no fato de “subir”, mas na RESSURREIÇÃO da Mãe de Deus. É a “Páscoa de Maria”. 

Este dogma completa a compreensão do Mistério em Maria, o que leva a um outro assunto. A nossa compreensão do “Mistério de Deus na História”, que é a Salvação. 

Na base de tudo está o que a pós-modernidade elevou a uma qualidade absoluta, idolátrica. A LIBERDADE humana. Vemos aqui o pecado original: considerar que o ser humano tem uma liberdade total e absoluta. É a ditatura da liberdade, que legitima toda ação humana a partir de um princípio absoluto: a própria pessoa. O ser humano se basta a si mesmo, não precisando de um Deus que o conduza, oriente e corrija. Isso é limitar a liberdade, pois o ser humano é “totalmente livre”. Isso é o que se pensa e propõe. 

Os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção de Maria (este último deveria ser reformulado para ser mais bem compreendido), colocam o centro de tudo não na pessoa, mas em Deus. Ele salva propondo ao ser humano um caminho possível. Na aceitação ou rejeição disso está a diferença da Fé. É preciso acreditar em si mesmo, claro, mas não fazer disso a idolatria de si mesmo, de seus sonhos e decisões. O desespero perante a morte e a aniquilação é expressão da falta de Esperança, da não aceitação de um Mistério que vai além de nossa compreensão imediata, mas que pode ser acolhido, compreendido e até aceito à luz da Fé. E lembremos que a Virtude Teologal da Esperança ultrapassa em muito o sentimento humano da coragem. Sim: a coragem é a “versão humana” da Esperança, que vem da grandeza da Fé!

A Assunção de Maria é um olhar para o Paraíso, alimentando a esperança de que a humidade já está lá, em Jesus, verdadeiro ser humano e verdadeiro Deus, e em Maria. Isso não pode ser “provado”, mas é acreditado. A carta aos Hebreus afirma que… A fé é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se veem (11,1). Depois desta afirmação, a carta propõe os modelos de Fé do que chamamos de Antigo Testamento. Note-se que a Fé não é uma realidade linear, sem conflitos, complicações, superações, perdas e ganhos. É preciso crer com a inteligência e o afeto, como sugere o texto dos discípulos de Emaús, em Lucas 24,13-35. A posição confortável de reproduzir o que se vê, sem compreender e viver de modo positivo, não apenas em uma aceitação passiva, esta posição não leva à maturidade da Fé. Na realidade, CRER é DIFÍCIL, implica decisão renovada, resistência e perseverança. Crer implica buscar, superar, recriar. Não é uma atitude passiva, mas ativa. Os dogmas marianos, como os outros dogmas, exigem este caminho interior. 

Breve cronologia

O dogma da MATERNIDADE DIVINA de Maria foi definido no Concílio de Nicéia, em 325, e reforçado no Concílio de Constantinopla, em 380. 

O dogma da VIRGINDADE PERPÉTUA de Maria não teve uma definição conciliar, mas foi se formando ao longo dos séculos. 

O dogma da IMACULADA CONCEIÇÃO foi declarado pelo Papa Pio IX em oito de dezembro de 1854. 

O dogma da ASSUNÇÃO DE MARIA foi declarado pelo Papa Pio XII em primeiro de novembro de 1950. 

Liturgia e Pastoral

 

O desafio é bem celebrar os dogmas marianos e torná-los compreensíveis para que sejam aceitos como elementos da Fé comum. Aqui vale o princípio da teologia da Liturgia: A Liturgia não é um painel de criatividade e adaptação nem um teatro narrativo. Liturgia é expressão do Mistério, continuação da ação de Deus que transforma, eleva, direciona. Liturgia não é a celebração apenas da “nossa vida”, mas da vida de Deus em nós. A Liturgia é para exaltar a ação de Deus em nós e tornar isso uma pedagogia de crescimento, de mais imagem e semelhança com Deus. 

Muito além de se perguntar se “pode ou não pode” na Liturgia é preciso se perguntar: “Isso que está sendo proposto é teológico?” Note-se que uma ideia que pode ser criativa e agradável pode também não ter qualquer sentido teológico. Outra pergunta a ser feita: “Isso tem referência ao que a Igreja crê e celebra, ou é uma proposta motivada pelo impulso do momento?” E mais: “Isso está de acordo com o rito, que é linguagem comum?” É bem comum que se criem ritos pessoais, que não condizem com a essencial do Mistério celebrado.

  Um notável desafio é tornar os dogmas possíveis de serem compreendidos na Liturgia que se celebra. 

Um dogma tem muitas expressões. Quanto menos emotivo ele puder ser exposto, mais ele deve estar perto da Verdade. Isso porque a emoção é subjetiva, de cada pessoa em momentos determinados, que dependem da vida, de suas surpresas, alegrias e tristezas. 

A Verdade de um dogma está além da emoção subjetiva. Mas necessita de muito visual, muita audição, muitas expressões simbólicas. A redescoberta do rito, das suas expressões originais e de sua linguagem auxilia na compreensão e aceitação dos dogmas. 

É importante não teatralizar, mas sempre dar significado, propor uma compreensão, intelectual e afetiva. No caso dos dogmas marianos a compreensão afetiva é fácil: o desafio está na compreensão intelectual, racional. 

Considere-se que Maria é o humano que foi mais tocado pela divindade. Mas não de modo automático, sem a decisão humana. É o humano que se permite elevar-se, transcender. No meio deste caminho tem a decisão da Fé, que dura a vida toda. É este o NOSSO TEMPO, que devemos viver. Entre luzes e sombras, cabe a nós viver a AVENTURA DA FÉ, como viveram os que nos precederam. 

Mauro Negro, OSJ, é biblista. mauronegro@uol.com.br

Capa da Edição

Compartilhe: