A fé que resiste
Em um contexto de crueldade, a Igreja na Nigéria assume um papel importante. Acolhe os feridos, ajuda as famílias das vítimas e dos sequestrados. Mas, também faz a denúncia de um sistema que não se opõe a tanta violência e de uma guerra não só contra os cristãos, mas “contra a Nigéria”.
Na Nigéria de hoje, a Igreja Católica transcende a sua função de Instituição espiritual para tornar-se um baluarte contra o caos, um refúgio para os desesperados e uma voz profética que desafia a injustiça.
Enquanto o Nordeste do país resiste ao jihadismo do Boko Haram e Iswap, e o centro do país, o Middle belt, sangra pelos conflitos entre pastores e agricultores, os bispos e sacerdotes encontram-se no pico entre a fé e uma realidade brutal. Estes não se limitam a pregar do púlpito, mas vivem a cruz de cada dia. São eles que, após um massacre, contam os corpos entre as ruínas, comunicam aos mídias locais os nomes das vítimas, e procuram lugares de refúgio para os desabrigados, agindo muitas vezes com mínimos recursos.
Enfrentam sequestros, ameaças e a destruição de inteiras comunidades. A sua visão não é abstrata: está enraizada no sofrimento de um povo para o qual a fé cristã é muitas vezes sinônimo de vulnerabilidade. No entanto, desse mesmo sofrimento, surge uma chamada ineludível à verdade, à justiça e a um futuro possível, também quando a obscuridade parece levar a melhor.
Makurdi, a denúncia
Makurdi, capital do estado de Benue, é mais do que um simples epicentro de desabrigados e fome. É a sede da diocese dirigida pelo Bispo Wilfred Chikpa Anagbe, filho nativo desta terra martirizada. A sua residência episcopal, um edifício modesto, circundado de jardins que se tornaram empoeirados devido à seca, é um farol para milhares de fiéis. Ao interno de suas paredes, adornadas de cruzes de madeira e fotos desbotadas de missionários, monsenhor Anagbe escuta, confessa e coordena os auxílios. A sua missão, todavia, vai além: é uma acusação incessante contra um sistema que, conforme ele diz, alimenta a violência.
“Eu não procurei jamais me tornar Bispo” diz com voz calma mas firme, atrás de uma escrivaninha cheia de revelações sobre o último ataque.
“Nasci aqui, conheço esta terra e o seu povo. Quando fui nomeado bispo, aceitei por crer ser esta a Vontade de Deus. E é mesmo por ser nascido aqui que não posso calar.”
As suas palavras ressoam as tragédias como aquela de Yelwata, que nos descreve com precisão dolorosa: casas cobertas de combustível e entregues às chamas, corpos queimados vivos, um massacre que durou horas sem nenhuma intervenção das forças de segurança.
“Aquilo que está acontecendo não é um simples conflito entre pastores e agricultores. Não é uma questão de mudança climática. Esta é uma narração falsa”, afirma. “Aqui acontece um projeto preciso, ideológico, que tem por objetivo a conquista do território e o cancelamento das comunidades locais”.
Monsenhor Anagbe vai às raízes históricas da situação atual, citando a “Declaração de Abuja” de 1989, quando grupos islâmicos anunciaram a intenção de islamizar a Nigéria. O Boko Haram, nascido naquele húmus, não foi derrotado, afirma, só mudou, infiltrando-se em outras formas de violência. No Benue, de maioria cristã, os ataques seguem um esquema preciso: ocupação dos povoados, mudança de nomes, expulsão da população. “De 2018 a 2025, na minha diocese perdi dezenove (19) paróquias. Territórios inteiros foram esvaziados. Os sacerdotes não podem mais encontrar os fiéis. As pessoas vivem em campos de refugiados, sem segurança e sem futuro.”
Cada noite, o telefone traz notícias de novas vítimas e mortos. A sua crítica ao governo é sem meios termos: “O Governo não está somente despreparado. Está ajudando e favorecendo estas pessoas. Esta pode parecer uma palavra dura, mas é a verdade. Se o estado quisesse parar essa violência, poderia fazê-lo. Em uma semana esta situação poderia acabar.”
As ameaças não o dobram. “Muitos me aconselham de calar, de ir embora. Mas eu creio que calar significa morrer duas vezes. Eu escolhi falar. Se isso significa ser ameaçado, eu aceito. A púrpura da minha veste é também um sinal de aceitação do martírio.” A sua visão é clara: o terrorismo pode terminar, mas falta vontade política. Nesse meio tempo a Igreja oferece aquilo que pode: alimento, escolas improvisadas dentro dos campos de refugiados, auxílio para os traumas.
Sokoto, entre os muçulmanos
A centenas de quilômetros de distância, no Noroeste do país, uma outra pessoa encarna uma resistência diversa mas complementar: Dom Mathew Hassan Kukah, Bispo de Sokoto, antiga sede do Califado. Em um ambiente com forte maioria muçulmana, a sua voz é minoritária mas influente. É nesta região que, ao final de 2025, os ataques aéreos norte-americanos teriam atingido possíveis bases jihadistas, em uma intervenção polêmica que acentuou as tensões.
Nós o encontramos em Roma, após um evento da Associação Ajuda à Igreja que Sofre, ao qual ele participou e trouxe o seu testemunho. Um sacerdote da sua Diocese, também presente ao evento, faz o seguinte comentário sobre a sua pessoa: “Dom Kukah não teme dizer a verdade, também quando incomoda o poder. Para nós ele é uma rocha. Ele sabe que a situação é complexa e que as intervenções militares estrangeiras arriscam ao querer simplificá-la de modo perigoso.”
Dom Kukah não apoia as explicações simplistas. A propósito dos Fulani, frequentemente descritos como invasores, esclarece: “Quando falamos dos Fulani, muitos dizem que não são originários da Nigéria. Mas, na realidade, ninguém é verdadeiramente nativo da Nigéria assim como é constituída hoje. Os atuais limites do país foram estabelecidos pela administração colonial britânica.” Ele descreve os Fulani como um povo de pastores que buscam pastos, não conquistas. Ele sustenta que a causa dos conflitos é a negligência do Estatal: “Hoje não devemos mais ter o gado que pasta livremente em toda a Nigéria. Com um sério projeto agro pastoral, com a criação de ranchos, teria sido possível transformar esta riqueza em algo que teria melhorado a vida dos Fulani e do País inteiro.” Ao invés, após a descoberta do petróleo, a agricultura foi abandonada, e deixamos espaço para crises que poderiam ter sido resolvidas há quarenta anos.
A violência, para o Bispo, não é sectária: “as mortes acontecem por toda a parte: em Sokoto, Katsina, Kaduna, Plateau, Benue. Não é uma violência limitada aos cristãos. Cristãos e muçulmanos são mortos da mesma maneira. Por isso não falarei de genocídio contra os cristãos, mas de uma guerra contra a Nigéria.” Ele indica a falência do Estado nas ações mais essenciais e básicas de proteção. As forças de segurança, segundo ele infiltradas por grupos armados, permanecem no cargo apesar da falência.
Sobre o Boko Haram ele nos oferece uma análise histórica: “Não nasceu como um grupo que queria atacar os cristãos. A violência cresceu ao longo do tempo, também devido ao contato com grupos jihadistas internacionais como AL-Qaeda e Isis. Hoje estes grupos são uma ameaça até mesmo para o Islam.” Fala a seguir do flagelo dos sequestros, que atingiu seriamente o clero: “Nos últimos 7 ou 8 anos os sacerdotes convivem com a ameaça de serem sequestrados e depois mortos. Este é um fenômeno que se difunde em toda a Nigéria, de Norte a Sul .”Muitas vezes motivados pelo valor do resgate, estes crimes geram um fluxo enorme de dinheiro. A Igreja Nigeriana tem uma posição oficial: não pagar resgates, também se acontecer negociações. “Pouquíssimos dos que foram sequestrados tiveram a sorte de serem libertados, mas acredito que pode haver um certo nível de negociação,”admite. “Os sequestradores provocam uma dor intencional, para que o Governo perceba a sua presença.” Enfim, nos alerta sobre as informações unilaterais: “É preciso ficar atentos ao perigo de uma informação unilateral. É possível ter só uma parte de razão quando se fala de conflito religioso, porque tanto os cristãos como os muçulmanos são vítimas.”
Insegurança, fome e a narrativa oficial
Dom Kukah traça um quadro com cores escuras no qual a insegurança, pobreza e fome se fortalecem reciprocamente. “A economia está de joelhos, e a pobreza está em toda a parte. Mas a ameaça mais grave continua a ser a insegurança”, explica. “Não se trata somente do Boko Haram: existem bandidos armados, os raptos, os ataques na estrada. As pessoas não podem mais afastar-se de um quilômetro das aldeias para cultivar os campos. Se o faz, arrisca de ser morto ou sequestrado.” O resultado é a falência na produtividade agrícola, colheitas abandonadas, fome que se difunde como uma epidemia silenciosa.
Ele não esconde o seu ceticismo para com as afirmações governativas: “O Governo tem repetido ao mundo que a crise está sob controle, que acabou. Mas quem tem a possibilidade de chegar ao epicentro da violência sabe que não é assim. Nos últimos meses aconteceram ataques até mesmo contra as bases militares.”
A sofisticação dos grupos armados tem aumentado: “usam drones para espionar e atacar. Às vezes não sabemos mais se podemos confiar àquilo que o Governo comunica à comunidade internacional”.
Acerca dos campos de refugiados é categórico: “Não podem se tornar permanentes. As pessoas querem voltar para as suas terras, suas casas, seus campos. Ninguém pode viver de verdade sem a sua própria terra. Mas sem a segurança o retorno não é possível”. A sua frustração é palpável:“Estou com raiva da Nigéria. Não deveríamos estar nesta situação. Este é um País riquíssimo de recursos, e no entanto obstáculo para uma governança falível.
A resposta da Igreja
Neste cenário, a Igreja não oferece soluções militares. “O Papa não tem um exército”, recorda D. Kukah. “Oferece ao invés oração, solidariedade concreta e uma presença constante. Nas vilas atacadas e nos campos, celebra-se a Missa sob tendas de plástico, os batismos entre barracos de zinco, as homilias tornam-se denúncia. Não é passividade, mas uma resistência ativa que mantém viva a dignidade humana e rejeita a resignação”.
No plano internacional, a resposta é controversa. Em novembro de 2025, a administração norte-americana designou a Nigéria como “País de particular preocupação” por causa da perseguição aos cristãos. Algumas semanas depois, em 25 de dezembro, os EUA conduziram os bombardeamentos aéreos na região de Sokoto contra presumíveis militantes do Isis. O presidente Trump os descreveu como um golpe contra a “flecha terrorista” que “tinha como foco e matado brutalmente, principalmente, cristãos inocentes”.
O ataque aéreo gerou reações opostas: aprovados por alguns líderes cristãos como sinal de força, suscitaram perplexidade em quem observa que naquelas zonas as vítimas são em geral mais muçulmanos e a dinâmica não é principalmente anticristã. O Governo nigeriano falou de uma operação conjunta de antiterrorismo, mas a ênfase americana sobre a “perseguição cristã” arriscou exacerbar (aumentar) as tensões sectárias, demonstrando como uma intervenção militar externa não pode ser a solução.
Uma Luz na Escuridão
“Como sacerdote posso somente encorajar o meu povo”, conclui D. Kukah, “mas creio firmemente que esta escuridão terá fim”.
Em uma Nigéria fragmentada e ferida, o testemunho de bispos como Anagbe e Kukah, e a ação cotidiana, às vezes heróica, do clero e dos fiéis, representa a tenacidade de uma luz. É uma luz feita de coragem, de palavras que incomodam, de uma presença que não abandona e de uma Fé que, embora no sofrimento, continua a indicar o caminho da justiça e de uma paz possível. A sua voz é um apelo ao mundo para escute a complexidade desta tragédia, e às autoridades nigerianas para que assumam finalmente a sua responsabilidade de proteger a todos os cidadãos, sem distinção. O futuro do País passa através do reconhecimento desta obstinada esperança.
Francesco Maviglia Revista Missioni / Março de 2026 - Tradução Ir. Benildes Clara Capellotto