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Espiritualidade

O Tempo, este nosso companheiro

Difícil argumentar sobre a Espiritualidade do Tempo, que é o interesse deste artigo. O Tempo é sagrado, pois pertence a Deus, que o cria de algum modo. Mas o Tempo é também um enigma, um mistério, pois ele brinca conosco. 

Por Mauro Negro

A Carta aos Hebreus inicia-se com uma célebre frase que causa impacto em quem conhece um pouco o que se chama de “História da Salvação”. A frase é esta: 

1Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; 2agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos. (Hebreus 1,1-2)

A frase aqui foi estendida, com dois focos de atenção: primeiro, Deus que falou, no passado, pelos Profetas, de muitos modos; depois, a intervenção de Deus agora, em Jesus Cristo. Pode-se até acrescentar dois outros argumentos: a herança que Jesus oferece, identificado como Filho, e a sua própria realidade acima do Tempo, na expressão “os séculos”. 

Este texto, usado no Natal e em outros momentos do Ano da Liturgia, é uma expressão forte e interessante de abordar vários assuntos. A Carta aos Hebreus, aliás, é um escrito que foge dos padrões comuns do Novo Testamento. Há muitos modos de expor as ideias, os princípios teológicos e as verdades de Fé no Novo Testamento, mas a Carta aos Hebreus vai para outros lados, surpreende e causa grande admiração. Os argumentos sobre Jesus como Sumo Sacerdote são únicos em relação aos outros textos da segunda parte das Sagradas Escrituras. Mas também o argumento que está por debaixo da afirmação de Hebreus 1,1-2, que é o Tempo!

Muito se fala sobre o Tempo, de modos diferentes e contraditórios. É um argumento complexo tanto na Filosofia, como na Teologia, na Física e na História. É um verdadeiro problema para todos que hoje vivem, pois eles podem constatar que outros já viveram e que mais outros, nascidos depois, viverão. Alguns já tiveram seu Tempo, outros terão algum Tempo, que não se sabe quanto será nem como será. E os que agora vivem, sentem e pensam sobre o Tempo, têm o Tempo de agora, com algum passado e, supostamente, algum futuro. Mas o que temos, no fundo, é o agora, que… Já passou! 

O Tempo passa! Tempus fugit, se diz em latim. Parece que está muitas vezes nos cobrando, quando devemos cumprir compromissos, e está sempre nos fugindo, quando vemos os anos e as décadas se escoando como a correnteza de um rio: a água, aquela água, não volta mais. É curioso que uma experiência que praticamente todos partilham tem a ver com a percepção do Tempo. Quando se é pequeno, criança, o Tempo parece que não passa… Quando se é adulto, o Tempo passou, e passou rápido demais! Um minuto, trinta segundos pode parecer pouco, mas para quem corre o risco de perder o trem ou o ônibus, é bastante. Para quem está se afogando, pode ser quase uma eternidade. A relatividade do Tempo e a nossa percepção de sua realidade é complexa, nos surpreende e, quando nela pensamos, até pode assustar. 

E nós trabalhamos com isso tudo em nosso cotidiano, meio que sem pensar. Aliás, quase nunca pensamos nisso. Uma atitude comum entre certas pessoas é, justamente, negar-se de pensar nisso, como se fosse um erro, um hábito deseducado. Nega-se o Tempo e suas marcas. A cultura da beleza superficial, da aparência, valoriza de modo às vezes paranoico a juventude, e milhões, bilhões de dinheiros de toda espécie são investidos em mudanças de aparência, em preservação de uma juventude que já se foi. Não se trata de uma abordagem terapêutica, de reconstruções físicas, faciais, mas de ultrapassagem, driblagem da realidade da natureza que se desgastou, testemunho de anos vividos e tempos passados. 

Estes argumentos podem nos deprimir e, é certo, causam uma certa preocupação em quem, como este que escreve, já passou das seis décadas de vida. O Tempo passado é maior do que o possível Tempo futuro, certamente. E o que passou, passou rápido, quase que sem uma oportunidade para mudanças, novos padrões, experiências cultivadas no tempo da infância e da juventude. Agora o Tempo, que não se tem ainda, pois virá, é escasso, e deve ser bem usado. E espera-se que venha, e que não seja breve! 

Difícil argumentar sobre a Espiritualidade do Tempo, que é o interesse deste artigo. O Tempo é sagrado, pois pertence a Deus, que o cria de algum modo. Mas o Tempo é também um enigma, um mistério, pois ele brinca conosco. À parte aquelas sensações complicadas e ambíguas que, como se afirmou atrás, são de todas as pessoas em relação ao Tempo de vida, ele, o Tempo, é uma grandeza física complicada. Albert Einstein, do qual todos já ouviram falar, trouxe uma explicação que parece que mais complica. Pelo menos a pessoa comum, que não foi introduzida na Física teórica, na Filosofia ou em outras áreas culturais e científicas. Einstein afirma algo mais ou menos assim: Tempo, espaço e energia é tudo a mesma coisa, mas de modos diferentes eles se dão a conhecer! Ideia complicada, meio “maluca” para alguns e que mudou a compreensão do Universo nos séculos XX e XXI. Os que assistiram o filme “Interestelar” viram o argumento sobre a passagem diferente do Tempo para uns e para outros. Os que foram ao planeta de Mann viveram uma hora e pouco a aventura; o que ficou na nave estelar, orbitando o buraco negro, viveu quase trinta anos! Isso não é ficção científica barata, mas física concreta. O Tempo não é igual em todos os lugares nem para todas as pessoas e menos ainda para todos os seres. Então, quando se fala do Tempo, o assunto é sério, cheio de responsabilidades. É uma parte do Mistério da Criação.

Em Gênesis, no primeiro e parte do segundo capítulos, o Tempo é constitutivo do argumento. Deus cria usando o Tempo. Aliás, o próprio Tempo é criado quando Deus faz a obra inicial: o céu e a terra, em uma tarde e uma manhã, que é o primeiro dia. É a criação do Tempo, implícita. E no Tempo o Criador faz o mundo, gerando as relações entre os seres e as possibilidades de história, de vida, de algo!

Toda esta realidade sobre o Tempo, sua percepção e sua quantificação, as ambiguidades que ele causa em nossas percepções, pode nos levar à conclusão de que ele é um Mistério — algo que está além de nossa compreensão imediata e plena, mas que pode ser em parte compreendido; e quanto mais compreendido, mais pode ser compreendido, em sempre maiores partes. 

O Tempo que Deus usou para criar, considerando que os leitores destas páginas creem em Deus e na obra de sua criação, foi muito maior do que o Tempo que vivemos sob a Luz do Ressuscitado. Milhões, bilhões de anos nos precedem. Uma história de três a quatro mil anos, desde os antepassados de Abraão, nos leva a crer em uma Salvação que acontece no Tempo, seja ele quanto e como for. 

O Tempo em que os Profetas anunciaram a Salvação, como diz a Carta aos Hebreus, citada no início destas linhas, é longo, mas pleno de sentido: Deus fala pelos Profetas. Nem todos podem ouvir, pois nem todos têm a chance de ouvir; e quem ouve nem sempre tem a inteligência de compreender; e quem compreende nem sempre tem ânimo para cumprir, fazer acontecer. Mas a afirmação de Hebreus é que Deus falou no Templo. É o que se pode compreender do “faça-se”, repetido várias vezes no poema da criação, também chamado de Credo Monoteísta de Gênesis 1,1–2,3. “Faça-se” pressupõe o Tempo para a realização do que é feito. É a história. E Deus age na História, que todos sabem, nem sempre é clara para quem a vivência, mas que vai criando o mundo, a vida, a admiração, o assombro, e mesmo o escândalo, a dor, as inseguranças. 

O Tempo foi usado pelos Profetas para anunciar o Salvador, ou o “Servo”, como afirmou Isaías. Encontra-se no Livro de Isaías os quatro cantos do Servo: o primeiro no capítulo 42; o segundo no capítulo 49; o terceiro no capítulo 50 e o quarto nos capítulos 52 e 53. O Servo anunciado é acreditado pela Fé Cristã, sendo o Messias-Servo, que fala com autoridade e cria mais um Tempo de Salvação. É o mesmo Tempo, desde a Criação até a Cruz e a Ressurreição. É o mesmo Tempo, com fatos, eventos únicos, transformadores, geradores da História.

Tudo isso aqui escrito é para lembrar que o início do ano civil apresenta os seus sentimentos e os costumeiros mitos: a expectativa de melhoras, vindas dos mesmos lugares que antes geravam crises! Transformações, mesmo com a repetição de velhas fórmulas, mas com a ilusão de que coisas novas podem surgir a partir de métodos velhos e viciados. Mudanças que dependem das decisões de outros, que não vêm; e mudanças que dependem de decisões pessoais que, rapidamente, antes que termine janeiro, já se tornaram fantasias. Nós vamos nos autoenganando com as promessas de estudos, de viagens, de dietas… E todos os anos fazemos assim. Até que se percebe que o Tempo é Mistério, e é sagrado, pois é sinal da divindade em cada Ser Humano. 

O Tempo tem uma espiritualidade anexa. Já se escreveu muito sobre isso. Um dos primeiros e mais famosos a fazer isso foi o grande Santo Agostinho. Outros livros, até recentes, falam do Tempo, do Mistério, de sua sacralidade. O que se busca aqui é um caminho para uma espiritualidade do Tempo. 

Ela pode ser marcada pela atitude de saber olhar para enxergar. É certo que nem sempre se enxerga aquilo que se olha. Olhar pode ser um ato superficial, que não se atém ou detém nos detalhes, nas nuances. Olhar com atenção, com respeito, com desejo de compreender, para deslumbrar-se, para poder amar. Respeitar a diferença do que se enxerga, pois uma pessoa é diferente da outra, e ambas são diferentes das demais. Enxergar as diferenças não apenas para criticar de modo negativo, mas para perceber as diferenças e suas motivações, quando isso é possível, pois muitas vezes não é. Acolher, pois é assim que o mundo funciona, é assim que o Tempo faz as coisas acontecerem, é assim que ocupamos o espaço que nos é dado e que gera e suporta as nossas ações. Transcender, isso é, ir além das aparências, das limitações, das opiniões. Nunca, pelo menos nos últimos séculos, as diferenças foram tão acentuadas em tão pouco espaço e tão pouco Tempo. Alguns são intolerantes com as diferenças. Realmente, algumas são erros, mentiras e ilusões… Mas foram aceitas por muitos, e deve-se aplicar todos estes passos acima indicados: Olhar, enxergar, acolher, transcender. 

O Tempo passa e nele Deus fala: falou na Criação, e tudo foi feito. Falou pelos Profetas. Falou pelo Messias Servo. Fala agora na vida, na História de cada dia, nas contradições e nas coerências que se vai encontrando. Em poucos meses o Tempo será, socialmente, renovado, com mais um ano novo. E o que aqui se escreveu já estará velho. Já está, quando cada caractere aqui é digitalizado. E é assim que a História vai acontecendo. Para que isso tudo não passe rápido como os segundos e minutos ligeiros de um encontro agradável ou um filme empolgante, nem lentamente, como a espera da progressão de uma fila em um posto de saúde, é preciso dar aqueles passos anotados acima. São sugestões, frutos da prática, voltados para o Mistério do Tempo que é sagrado, pois é o chão da Salvação. 

Mauro Negro, OSJ, é professor de Teologia Bíblica e pároco da Nossa Senhora do Loreto, Vila Medeiros, São Paulo, SP.

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