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Allamano

Há 100 anos gerando vida

Em 2026, completam-se 100 anos da morte de José Allamano, fundador dos missionários e das missionárias da Consolata. Canonizado em 2024, sempre foi santo.

Por Luiz Mauricio Guevara

O centenário da morte de São José Allamano não é um olhar para trás; é um lugar de passagem. Não celebramos o fim de uma vida, mas a sua permanência. Há vidas que, ao morrer, começam a falar mais alto.

Celebrar no dia 16 de fevereiro próximo, os 100 anos da partida ao céu do fundador José Allamano, não é um aniversário da ausência, mas uma celebração da permanência. Cem anos depois, ele continua aqui, não como lembrança museológica, mas como presença discreta, semelhante ao fermento que trabalha a massa sem se impor.

A Igreja, quando celebra os seus santos, não os contempla como quem olha para o passado, mas como quem aprende a ler o presente. Allamano não nos visita a partir da nostalgia, mas a partir de uma pergunta: como viver o Evangelho hoje com fidelidade humilde, paciente e fecunda?

Allamano não foi um homem do extraordinário visível. Foi um homem do extraordinário discreto. Ele acreditou que a santidade nasce da constância, que a Missão cresce no silêncio, que o bem verdadeiro não precisa de aplausos. Por isso, o seu centenário não pede fogos de artifício, mas olhos atentos às coisas pequenas. Não pede pressa, mas discernimento. Não pede barulho, mas profundidade.

Para a Igreja, este centenário é um modo de exame de consciência. São José Allamano nos recorda que a Missão não começa fora, mas dentro; que não há evangelização sem santidade; que não se anuncia Cristo sem antes aprender a pertencer-Lhe. Num tempo tentado pela pressa e pela eficácia, ele nos devolve à paciência de Deus, que sabe esperar, amadurecer, confiar no tempo como aliado do Espírito. Allamano nos recorda que a Missão não começa nas estratégias, mas no coração; não se sustenta no ativismo, mas na oração; não se mede pelos resultados, mas pela fidelidade.

Para a Família Consolata, este centenário é um espelho e uma promessa. Espelho, porque nos obriga a perguntar se continuamos fiéis ao essencial: primeiro santos, depois missionários.

Promessa, porque confirma que aquilo que nasce de Deus resiste ao tempo. Cem anos depois da sua morte, a sua obra continua a gerar vocações, a atravessar fronteiras, a falar línguas diferentes, a tocar periferias humanas e existenciais. Não porque seja perfeita, mas porque é enraizada.

Allamano ensinou que a Consolata não é apenas um título mariano, mas um estilo de presença: estar perto, sustentar, consolar, sem ocupar o lugar do outro. Num mundo ferido, cansado e fragmentado, esta espiritualidade é mais atual do que nunca. A Consolata continua a ser uma pedagogia do cuidado, uma forma evangélica de habitar a dor do mundo sem perder a esperança.

Celebrar este centenário é aceitar um desafio: não trair o pequeno. Não abandonar a simplicidade. Não substituir a profundidade pela pressa. Não trocar a santidade pelo sucesso.

Allamano não nos pede que façamos mais, mas que sejamos mais verdadeiros. Não nos pede que corramos, mas que caminhemos bem.

Talvez este seja o maior dom destes cem anos: recordar-nos que Deus continua a passar pelas coisas pequenas, pelos gestos escondidos, pelas vidas que se oferecem sem ruído. E que, quando isso acontece, o Reino cresce, silenciosamente, como sempre.

Cem anos depois, São José Allamano continua a ensinar-nos isto: que a santidade é possível, que a Missão é fecunda, e que Deus nunca se cansa de confiar em quem caminha com humildade.

Luiz Mauricio Guevara, imc, é reitor do Seminário Teológico Internacional João Batista Bísio, São Paulo, SP.

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