Revista Missões Logo
Destaque

Campanha da Fraternidade 2026: a moradia como missão de fé e justiça

O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia e o lema Ele veio morar entre nós (Jo 1,14) discutem temas importantes relativos à dignidade da pessoa humana.

Por Maria Emerenciana Raia

Quando a Igreja no Brasil convoca fiéis, comunidades e sociedade para refletirem sobre um tema social, ela não o faz apenas como um apelo à solidariedade, mas como convite a uma conversão profunda da fé em ação concreta. É esse o propósito da Campanha da Fraternidade 2026, lançada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cuja proposta é colocar a moradia digna no centro da reflexão durante o tempo quaresmal — período tradicional de conversão e compromisso com o Reino de Deus.

O tema escolhido, “Fraternidade e Moradia”, e o lema bíblico que o ilumina, “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), articulam uma leitura teológica e social da realidade brasileira. Essa escolha não é casual: ao evocar o mistério da Encarnação de Jesus, a Campanha nos lembra que o próprio Verbo de Deus assumiu a fragilidade humana e escolheu habitar a nossa história - vindo ao encontro dos pobres, excluídos e sem-abrigo.

A moradia na vida das pessoas: um drama cotidiano

No Brasil contemporâneo, a moradia digna ainda é um desafio urgente e recorrente. Mesmo com avanços pontuais, milhões de famílias vivem em condições precárias, em áreas de risco, periferias urbanas ou em situação de rua. A falta de um lar que garanta segurança, saneamento básico, acesso a serviços públicos e inclusão social não é apenas um índice estatístico: é uma realidade que reverbera na vida de crianças, adolescentes, adultos e idosos, afetando sua saúde, educação, trabalho e dignidade humana.

A CNBB destaca que o déficit habitacional no país atinge milhões de domicílios inadequados ou inexistentes, um problema que se agrava com a especulação imobiliária e as desigualdades socioespaciais. Esse cenário demanda não apenas políticas públicas eficientes, mas uma sensibilidade ética e cristã que reconheça no direito à moradia um elemento fundamental da justiça social e da fraternidade.

Do texto-base à ação pastoral

O texto-base da Campanha da Fraternidade 2026 propõe um itinerário formativo dividido em três movimentos: ver, iluminar e agir. O primeiro exige um olhar atento sobre a realidade - acolher, sem filtros, as histórias de quem sofre com a falta de um lar digno. O segundo ilumina essas situações à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja, que sempre defendeu a centralidade da pessoa humana e seus direitos fundamentais. O terceiro - agir - desafia comunidades, paróquias, pastorais sociais e agentes de transformação a se comprometerem com iniciativas que avancem na garantia da moradia.

Organizações como a Pastoral da Moradia e Favela, por exemplo, têm intensificado encontros, debates e articulações em torno desse tema, mobilizando agentes e lideranças para efetivar uma presença eclesial profética nos territórios mais vulneráveis. Essas ações incluem desde campanhas de sensibilização até parcerias com movimentos sociais e iniciativas de inclusão urbana e de acesso ao direito à cidade.

O significado do lema: fraternidade encarnada

O lema “Ele veio morar entre nós” é um dos pontos mais fortes e simbólicos da Campanha. Ao destacar a encarnação de Cristo como princípio orientador, a CNBB propõe que a fé cristã não seja reduzida a um conjunto de ritos e dogmas, mas que se traduza em presença efetiva e solidária ao lado de quem mais sofre. Assim como Jesus, que não teve um lugar digno ao nascer e foi acolhido por corações que o reconheceram, somos chamados a olhar para aqueles que carecem de um lar com o mesmo sentido de compaixão e compromisso.

Essa perspectiva moral e espiritual ressoa também na própria vida comunitária das paróquias, que são convidadas a transformar seus espaços de acolhida, solidariedade e partilha em sinais visíveis do Reino de Deus. A moradia digna, então, torna-se não apenas um direito social, mas uma expressão concreta da fraternidade cristã - uma maneira de tornar visível, no coração das cidades e comunidades, o amor que vem de Deus e se manifesta entre os irmãos.

Uma Campanha que interpela toda a sociedade

Embora lançada no contexto eclesial, a CF 2026 ultrapassa os muros da Igreja. Ao colocar a moradia digna como tema central, a Campanha provoca debates relevantes sobre políticas públicas, economia urbana, inclusão social e direitos humanos. Convida, assim, não só os fiéis, mas toda a sociedade a repensar caminhos para reduzir desigualdades e fortalecer iniciativas que garantam o direito à moradia enquanto elemento essencial à realização plena da pessoa humana.

Em um país marcado por contrastes tão profundos, a Campanha da Fraternidade 2026 surge como um chamado profético: reconhecer na dignidade de cada lar um reflexo da dignidade dada por Deus a cada filho e filha, e caminhar juntos — fiéis, instituições, movimentos sociais e poder público — rumo a uma sociedade mais justa e fraterna.

Da reflexão à prática: ações concretas para comunidades e paróquias na CF 2026

A Campanha da Fraternidade 2026 convida a Igreja no Brasil a transformar a reflexão sobre a moradia digna em gestos concretos de fraternidade. Inspiradas pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), comunidades e paróquias são chamadas a assumir um compromisso efetivo com a realidade habitacional de seus territórios, especialmente junto às populações mais vulneráveis. A seguir, algumas iniciativas possíveis:

1. Mapeamento da realidade local

Antes de qualquer ação, é fundamental conhecer a realidade do bairro ou cidade. Paróquias podem promover levantamentos simples — com apoio de pastorais sociais, agentes de saúde ou lideranças comunitárias — para identificar famílias em situação de moradia precária, áreas de risco, ocupações irregulares ou pessoas em situação de rua. Esse olhar atento ajuda a direcionar ações mais eficazes e contextualizadas.

2. Fortalecimento da Pastoral da Moradia e da Pastoral Social

Onde houver Pastoral da Moradia, da Criança, da Pessoa em Situação de Rua ou da Ação Social, a Campanha da Fraternidade pode ser um tempo privilegiado para fortalecê-las. Onde ainda não existem, a CF pode impulsionar sua criação, incentivando a formação de equipes comprometidas com o acompanhamento das famílias, a orientação sobre direitos sociais e o apoio comunitário.

3. Espaços de escuta e acolhimento

Inspiradas no Cristo que “veio morar entre nós”, comunidades podem organizar rodas de conversa, encontros ou assembleias comunitárias para ouvir as histórias de quem sofre com a falta de moradia digna. Esses momentos de escuta favorecem a empatia, combatem preconceitos e ajudam a comunidade a compreender que a moradia não é apenas uma questão material, mas profundamente humana e espiritual.

4. Parcerias com movimentos sociais e instituições locais

A Campanha estimula a articulação com movimentos populares, associações de moradores, universidades, defensorias públicas e organizações da sociedade civil que atuam na área da habitação. Essas parcerias podem ampliar o alcance das ações da Igreja, promovendo mutirões de informação, orientação jurídica sobre regularização fundiária e defesa do direito à moradia.

5. Gestos concretos de solidariedade

Durante a Quaresma, paróquias podem promover ações solidárias direcionadas à melhoria das condições de moradia, como campanhas para arrecadação de materiais de construção, apoio a pequenas reformas emergenciais ou mutirões comunitários em casas de famílias vulneráveis. A tradicional Coleta da Solidariedade pode ser orientada para projetos ligados à habitação e à dignidade do lar.

6. Ação evangelizadora e litúrgica

A temática da moradia pode ser integrada à liturgia, catequese e formação bíblica, com celebrações, vias-sacras, encontros catequéticos e momentos de oração que relacionem a Palavra de Deus com a realidade concreta das famílias sem casa ou em moradias indignas. Esses momentos ajudam a comunidade a perceber que a fé cristã se vive também na defesa da dignidade humana.

7. Incidência pública e compromisso cidadão

Sem perder sua identidade pastoral, a Igreja é chamada a exercer sua missão profética. Paróquias podem promover debates públicos, audiências comunitárias ou cartas abertas incentivando políticas públicas de habitação, saneamento e urbanização. O objetivo não é partidarizar, mas colaborar para que o direito à moradia seja respeitado e garantido.

Um chamado à fraternidade encarnada

A Campanha da Fraternidade 2026 recorda que não há evangelização sem compromisso com a vida concreta das pessoas. Quando comunidades se mobilizam para que ninguém fique sem teto, a Igreja torna visível o mistério celebrado no lema: Deus que escolheu morar entre nós continua a se fazer presente onde a fraternidade se transforma em ação.

Maria Emerenciana Raia é jornalista e editora da revista Missões.

Capa da Edição

Compartilhe: