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As Bem-aventuranças: o caminho da Santidade

As Bem-aventuranças não são simplesmente promessas para um futuro distante. Elas revelam o futuro que Deus prepara para os seus amigos, mas, ao mesmo tempo, mostram como devemos viver já no presente.

Por Geoffrey Boriga

No dia 1º de novembro a Igreja celebra com alegria a Solenidade de Todos os Santos. É uma das festas mais belas do calendário litúrgico, porque nos coloca diante da grande multidão daqueles que já contemplam Deus face a face. Alguns são conhecidos e venerados pelo nome em toda a Igreja; muitos outros permaneceram escondidos aos olhos do mundo. Foram pais e mães de família, sacerdotes, religiosos, crianças, jovens, idosos, missionários, trabalhadores e pessoas simples que procuraram viver fielmente o Evangelho.

A liturgia deste dia nos apresenta o Evangelho de Mateus 5,1-12, o início do grande Sermão da Montanha. Jesus sobe à montanha, senta-se e começa a ensinar os seus discípulos. O que Ele proclama são as Bem-aventuranças. À primeira vista, algumas das palavras de Jesus parecem desconcertantes. Ele chama felizes os pobres, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e até os perseguidos. O mundo frequentemente considera felizes os fortes, os ricos, os poderosos, os bem-sucedidos e aqueles que possuem tudo.

Jesus, porém, revela uma lógica diferente: a lógica do Reino de Deus. As Bem-aventuranças não são simplesmente promessas para um futuro distante. Elas revelam o futuro que Deus prepara para os seus amigos, mas, ao mesmo tempo, mostram como devemos viver já no presente. A santidade começa aqui. O Reino de Deus começa a nascer em nós quando permitimos que o coração de Cristo se torne o nosso próprio coração. 

Bem-aventurados

“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” Jesus não está dizendo que a pobreza, por si mesma, é uma virtude. Ele está falando daqueles que reconhecem que precisam de Deus. O pobre em espírito não coloca a sua segurança última no dinheiro, no prestígio, no conhecimento ou no poder. Sabe que tudo é dom. Na nossa vida cotidiana, esta bem-aventurança nos convida à humildade. Ser santo é reconhecer: “Eu não sou suficiente. Preciso de Deus e preciso dos outros.” O santo não é aquele que pensa possuir tudo, mas aquele que sabe receber tudo com gratidão. 

“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Jesus não glorifica o sofrimento. Ele conhece as lágrimas humanas e promete a sua consolação àqueles que sofrem. Há lágrimas causadas pela perda, pela doença, pela solidão, pela injustiça e também pelo sofrimento dos outros.O cristão não precisa esconder as suas lágrimas diante de Deus. Podemos chorar e continuar acreditando. Podemos sofrer sem perder a esperança. Muitas vezes, o próprio Deus se aproxima de nós através da presença silenciosa de alguém que nos consola. Esta bem-aventurança também nos pergunta: somos capazes de chorar com aqueles que choram? A santidade não torna o coração indiferente. Pelo contrário, torna-o mais humano e mais compassivo. 

“Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.” Num mundo onde muitas vezes vence quem fala mais alto, quem impõe a sua vontade ou quem consegue dominar os outros, Jesus apresenta a mansidão como um caminho de felicidade. Ser manso não significa ser fraco. A mansidão é uma força interior que não precisa de violência para se afirmar. É saber responder sem destruir, corrigir sem humilhar, defender a verdade sem odiar. Na família, na comunidade, no trabalho e na Igreja, quantos conflitos poderiam ser evitados se aprendêssemos a viver esta bem-aventurança! O santo não precisa vencer os outros; procura vencer o mal dentro de si mesmo.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.” A fome e a sede são necessidades profundas. Jesus usa essas imagens para falar de um desejo igualmente profundo: o desejo de justiça, de verdade e de santidade. O cristão não pode permanecer indiferente diante da injustiça. Ter fome e sede de justiça significa desejar um mundo mais conforme ao coração de Deus. Significa também desejar ser uma pessoa justa, verdadeira e íntegra. A santidade não consiste em fugir do mundo, mas em permitir que o Evangelho transforme a maneira como vivemos dentro dele.

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” Talvez esta seja uma das bem-aventuranças mais necessárias para o nosso tempo. Todos queremos receber misericórdia, mas nem sempre somos capazes de oferecê-la. Ser misericordioso significa olhar para a fraqueza do outro sem esquecer que também somos frágeis. Significa saber perdoar, dar uma segunda oportunidade, ajudar quem caiu e não reduzir uma pessoa ao seu erro. É significativo que Jesus diga: “alcançarão misericórdia”. Aquele que aprende a ter misericórdia torna-se capaz de experimentar mais profundamente a própria misericórdia de Deus.

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.” A pureza de coração é muito mais do que pureza moral. É ter um coração sem duplicidade, capaz de procurar Deus com sinceridade. É não viver dividido entre aquilo que dizemos acreditar e aquilo que realmente fazemos. O coração puro consegue ver Deus porque aprende a olhar para a realidade com olhos diferentes. Vê a dignidade de cada pessoa, reconhece a presença de Deus nas pequenas coisas e não permite que o egoísmo obscureça a sua visão. A santidade começa muitas vezes no lugar que ninguém vê: dentro do coração. 

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.” Jesus não diz simplesmente “bem-aventurados os pacíficos”, mas aqueles que promovem a paz. A paz cristã não é apenas ausência de conflito. É uma missão. O verdadeiro discípulo procura reconciliar, aproximar, construir pontes e evitar palavras que destruam. Em nossas famílias, comunidades e sociedades, somos chamados a ser instrumentos de reconciliação. São Francisco de Assis compreendeu profundamente esta vocação quando rezou: “Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz.” O santo é alguém através de quem a paz de Deus pode chegar aos outros.

“Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.” Finalmente, Jesus fala daqueles que sofrem por permanecer fiéis ao Evangelho. A vida cristã nem sempre será compreendida ou aplaudida. Às vezes, defender a verdade, a dignidade humana, a justiça ou a fé pode trazer incompreensão, rejeição ou até perseguição. Esta bem-aventurança recorda-nos que a fidelidade vale mais do que a aprovação dos outros. O cristão não procura o sofrimento, mas, quando o sofrimento chega por causa da fidelidade a Cristo, não precisa enfrentá-lo sozinho. Os santos conheceram esta realidade. Alguns deram a vida pelo Evangelho; outros viveram perseguições silenciosas, incompreensões, doenças, perdas e dificuldades. Todos, porém, descobriram que Cristo era maior do que aquilo que estavam a sofrer. 

“Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus.” Jesus termina com uma palavra de alegria. Esta é a chave para compreender todas as Bem-aventuranças. O cristianismo não é uma espiritualidade de tristeza. O destino daqueles que pertencem a Cristo é a alegria.

A Solenidade de Todos os Santos aponta precisamente para esta realidade. Os santos são aqueles que chegaram à plenitude daquilo que Jesus promete. Eles contemplam agora aquilo que nós ainda esperamos. A sua alegria não é uma fuga da realidade, mas o cumprimento da promessa de Deus. Por isso, quando celebramos Todos os Santos, não estamos simplesmente recordando pessoas extraordinárias do passado. Estamos contemplando o nosso próprio futuro. A Igreja nos recorda que a santidade não é reservada a alguns poucos escolhidos. Todos somos chamados à santidade.

As Bem-aventuranças mostram-nos o caminho. Ser pobre em espírito, saber chorar com os que sofrem, cultivar a mansidão, buscar a justiça, praticar a misericórdia, conservar um coração puro, construir a paz e permanecer fiel nas dificuldades: tudo isso é possível no cotidiano.

Talvez nunca tenhamos os nossos nomes inscritos nos calendários litúrgicos. Talvez ninguém escreva a nossa biografia. Talvez a nossa santidade permaneça escondida dentro de uma família, numa comunidade, numa enfermaria, numa sala de aula, num escritório ou numa pequena paróquia. Mas é precisamente aí que Deus nos chama.

A Solenidade de Todos os Santos diz-nos, portanto: o céu começa a ser preparado na terra. Cada pequeno ato de amor, cada perdão oferecido, cada sofrimento vivido com fé, cada gesto de misericórdia, cada escolha pela verdade e cada esforço para promover a paz nos aproxima do Reino.

Os santos já chegaram ao destino. Nós ainda estamos a caminho. E as Bem-aventuranças são como um mapa colocado nas nossas mãos por Jesus. No final, a pergunta não é simplesmente: “Quero ser santo?” A pergunta é mais concreta: “Qual dessas Bem-aventuranças Jesus me convida a viver hoje?” Talvez seja aprender a perdoar. Talvez seja abandonar o orgulho. Talvez seja procurar a justiça. Talvez seja consolar alguém que sofre. Talvez seja simplesmente fazer a paz. É assim que começa a santidade: um coração que, hoje, escolhe viver como Jesus.

Geoffrey Boriga, imc, é missionário na Coreia.

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