Caminhando nas pegadas dos mártires coreanos
Peregrinação da Paróquia de Gyesang-dong ao Santuário Internacional de Haemi.
Há histórias que se contam. Há histórias que se contemplam. E há histórias que precisam ser percorridas com os próprios pés. A história da Igreja Católica na Coreia pertence a esta última categoria. Para compreendê-la verdadeiramente, não basta conhecer os nomes dos mártires ou as datas das perseguições. É preciso caminhar pelos lugares onde homens e mulheres comuns rezaram, sofreram e deram a própria vida por aquilo em que acreditavam.
A história do catolicismo na Coreia é, de fato, singular. Diferentemente de muitos países onde o cristianismo chegou por meio de missionários estrangeiros, a fé católica começou a criar raízes na Coreia graças, em grande parte, à busca intelectual e à iniciativa de leigos coreanos.
No século XVIII, alguns estudiosos coreanos tiveram contato com livros ocidentais e com os ensinamentos cristãos que chegavam à Coreia por meio da China. Entre eles estava Yi Seung- hun, que viajou a Pequim entre 1783 e 1784. Ali entrou em contato com a fé católica e recebeu o Batismo. Ao retornar à Coreia, começou a transmitir aquilo que havia aprendido, batizando e instruindo outras pessoas. Assim, começou a surgir uma comunidade cristã extraordinária, inicialmente sem a presença permanente de sacerdotes.
Outro personagem fundamental desses primeiros anos foi Yi Byeok, um estudioso que se dedicou profundamente ao conhecimento da doutrina cristã e contribuiu para a organização da comunidade nascente. Durante vários anos, os católicos coreanos viveram a sua fé praticamente por conta própria: reuniam-se para rezar, estudavam os ensinamentos recebidos e transmitiam o Evangelho uns aos outros.
Finalmente, em 1794, chegou clandestinamente à Coreia o sacerdote chinês Zhou Wen-mo, enviado para acompanhar pastoralmente a jovem comunidade. Quando encontrou os católicos coreanos, descobriu uma Igreja que já possuía uma vida comunitária relativamente organizada e uma fé profundamente enraizada.
Entretanto, a nova fé logo encontrou forte oposição das autoridades. A recusa dos católicos em participar de determinados ritos ancestrais tradicionais foi interpretada não apenas como uma divergência religiosa, mas como uma ameaça à ordem social e familiar estabelecida.
Seguiram-se, então, vários períodos de perseguição ao longo dos séculos XVIII e XIX. Milhares de católicos coreanos foram presos, torturados e mortos por causa da fé. Muitos preferiram entregar a própria vida a renunciar a Cristo.
Entre os mais conhecidos está Santo André Kim Taegon, nascido em 1821. Ele foi o primeiro sacerdote católico nascido na Coreia. Depois de receber sua formação no exterior, retornou clandestinamente ao seu país para exercer o ministério sacerdotal, consciente de que poderia pagar com a própria vida o desejo de servir à Igreja. Em 1846, foi preso e executado. Tinha apenas 25 anos. A brevidade de sua vida não diminui a grandeza de seu testemunho. Pelo contrário, Santo André tornou-se símbolo de uma Igreja que desejava não depender somente de missionários estrangeiros, mas também formar seus próprios sacerdotes, capazes de anunciar o Evangelho ao seu próprio povo.
No dia 20 de setembro, a Igreja celebra a memória de Santo André, São Paulo Chong Hasang e seus companheiros mártires da Coreia. Na Coreia, esta celebração possui um significado particularmente profundo. Todo o mês de setembro é tradicionalmente vivido como o Mês dos Santos Mártires Coreanos. Durante esse período, muitos fiéis visitam os numerosos santuários e lugares de martírio espalhados pelo país.
Essas peregrinações não são simplesmente visitas a lugares históricos. São momentos de oração, memória e renovação da fé. Os fiéis vão aos lugares onde seus antepassados na fé sofreram e morreram para recordar que a Igreja que existe hoje foi construída também sobre o testemunho e o sangue daqueles que permaneceram fiéis a Cristo.
Esse patrimônio espiritual da Igreja coreana recebeu reconhecimento universal em 1984, quando o Papa São João Paulo II canonizou 103 mártires coreanos durante sua visita pastoral à Coreia. A canonização aconteceu em Seul, e não em Roma, o que tornou aquele acontecimento particularmente significativo. Entre os canonizados estavam Santo André Kim Taegon, São Paulo Chong Hasang e muitos outros homens e mulheres que deram testemunho de Cristo com a própria vida.
A Peregrinação da Paróquia de Gyesang-dong a Haemi
Foi nesse espírito de fé, memória e gratidão que, no dia 6 de setembro de 2026, a comunidade paroquial de Gyesang-dong, na Diocese de Incheon, realizou uma peregrinação ao Santuário Internacional de Haemi, durante o Mês dos Santos Mártires Coreanos.
Atualmente, tenho a graça de exercer meu ministério pastoral nesta comunidade como vigário paroquial, e por isso foi uma alegria e, ao mesmo tempo, uma experiência profundamente significativa acompanhar os fiéis nesta peregrinação.
Haemi é um dos lugares mais importantes da memória dos mártires coreanos. Situado em Seosan, na província de Chungcheongnam-do, o santuário está ligado à história de numerosos católicos que foram presos, torturados e mortos durante os períodos de perseguição.
Mais de mil católicos são associados ao martírio na região de Haemi, embora os nomes de muitos deles tenham se perdido ao longo da história. Por isso, Haemi possui uma importância particular: não recorda apenas alguns santos conhecidos, mas também uma multidão de cristãos anônimos que permaneceram fiéis até a morte.
É justamente essa dimensão que torna Haemi tão comovente. Diante do santuário, percebemos que a história da Igreja não é construída somente por grandes personagens cujos nomes chegaram até nós. Ela também é construída por homens e mulheres simples, conhecidos apenas por Deus, que viveram a sua fé com coragem e perseverança.
A importância de Haemi foi ainda mais reconhecida quando o local foi oficialmente declarado Santuário Internacional em 2021. Desde então, o santuário continua acolhendo peregrinos da Coreia e de outros países, oferecendo um espaço de oração, reflexão, formação e encontro com a história da Igreja coreana.
Para a comunidade de Gyesang-dong, portanto, a peregrinação não foi simplesmente uma excursão a um importante lugar histórico. Foi uma oportunidade de entrar mais profundamente na história da Igreja da Coreia e de recordar que a fé que professamos hoje foi recebida de homens e mulheres que, em muitos casos, pagaram um preço altíssimo por permanecerem fiéis ao Evangelho.
Caminhando com Cristo e com os mártires
Ao chegarmos a Haemi, iniciamos nossa peregrinação com a Via-Sacra. Estação após estação, caminhamos em oração, contemplando a Paixão e a morte de Cristo.
Ao mesmo tempo, recordávamos os mártires coreanos que seguiram o Senhor pelo caminho da cruz. Caminhar fisicamente pelas estações tornou a oração ainda mais significativa. A cruz de Cristo, centro de nossa contemplação, ajudou-nos a compreender melhor a coragem daqueles que, séculos atrás, não abandonaram sua fé mesmo diante da prisão, da tortura e da morte.
Depois da Via-Sacra, reunimo-nos para a celebração da Santa Missa, coração e ponto culminante de nossa peregrinação.
Durante a celebração, Pe. Han, responsável pelo santuário, apresentou-nos a história de Haemi, sua importância para a Igreja coreana e também as atividades que atualmente são desenvolvidas no local. Sua explicação ajudou-nos a compreender que Haemi não é simplesmente um memorial de um passado doloroso. É um lugar vivo de fé.
Ali, a memória dos mártires continua inspirando oração, evangelização e compromisso cristão.Eles não pertencem apenas ao passado. Seu testemunho continua falando à Igreja de hoje.Uma Igreja construída pelo testemunho
Para mim, acompanhar os paroquianos de Gyesang-dong até Haemi foi também uma experiência muito significativa dentro do meu ministério pastoral na Coreia. A vida paroquial normalmente acontece no ritmo cotidiano das Missas, reuniões, catequeses, visitas pastorais e tantas outras responsabilidades. Uma peregrinação oferece algo diferente.
Ela nos permite sair, por um momento, da rotina e caminhar juntos como uma verdadeira comunidade de fé.
Em Haemi, fomos lembrados de que fazemos parte de uma história muito maior do que nós mesmos. A fé que professamos hoje não começou conosco. Nós a recebemos daqueles que vieram antes de nós, muitos dos quais pagaram um preço altíssimo para permanecer fiéis a Cristo.
Os mártires coreanos, portanto, não nos convidam simplesmente a admirar sua coragem. Eles nos fazem uma pergunta: como estamos vivendo a nossa própria fé hoje?
Santo André Kim Taegon, Santo Paulo Chong Hasang e seus companheiros nos recordam que a fé não pode ser considerada algo garantido. A Igreja que recebemos hoje foi construída com sacrifício, coragem, oração e perseverança. Seu testemunho nos desafia a valorizar a fé que
recebemos e a transmiti-la às próximas gerações. Todos os anos, durante o mês de setembro, a Igreja coreana volta seu olhar para os seus mártires.
Os fiéis visitam os santuários, rezam nos lugares onde eles sofreram e celebram a Eucaristia em ação de graças. Ao fazer isso, não estão simplesmente olhando para o passado. Estão renovando o compromisso de viver o Evangelho no presente.
Nossa peregrinação a Haemi foi, assim, uma viagem ao passado e, ao mesmo tempo, um caminho para o futuro. Fomos ao encontro da história daqueles que deram tudo pelo Evangelho e voltamos com o desejo renovado de viver esse mesmo Evangelho em nosso próprio tempo.
O sangue dos mártires tornou-se semente da Igreja na Coreia. Que o testemunho deles continue produzindo frutos na vida dos fiéis de hoje. E que Santo André Kim Taegon, Santo Paulo Chong Hasang e todos os mártires coreanos nos inspirem a permanecer fiéis a Cristo e a caminhar, com coragem e esperança, em seus passos.
Geoffrey Boriga, imc, é missionário na Coreia.