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O cisma da Igreja católica a partir da Suíça

Na verdade, o cisma já estava em curso desde 1988, quando dom Lefebvre ordenou bispos sem a autorização do papa São João Paulo II.

Por Edson Luiz Sampel

Com a ordenação de quatro bispos, sem a chancela do pontífice romano, tanto os novos bispos sagrados quanto os clérigos que atuaram na celebração eucarística ocorrida em 1º de julho de 2026 em Écône, na Suíça estão excomungados latae sententiae, isto é, automaticamente. É o que preceitua o direito penal canônico, no cânon 1387.  

Na verdade, o cisma já estava em curso desde 1988, quando dom Lefebvre, também na Suíça, ordenou bispos sem a autorização do papa são João Paulo II. Os membros da chamada Fraternidade São Pio X, responsáveis por essas sagrações ilícitas (em 1988 e agora, em 2026), dizem aceitar a legitimidade dos papas eleitos depois de Pio XII (contestada pelos chamados sedevacantistas), mas, na prática, desobedecem ao supremo chefe da Igreja católica. 

O problema não é a reivindicação da missa em latim (missa tridentina), com o padre de costas para o povo, como tem acentuado parcela da imprensa. O buraco está mais embaixo! Os reacionários, promotores dessa ordenação terminantemente proibida pelo papa Leão XIV, contestam o caráter vinculante do Concílio Vaticano II. Em suma, não aceitam que a Igreja possa haurir do mundo moderno alguma coisa boa, como expressa a constituição pastoral Gaudium et Spes. Por isso, os fascistas de todos os vieses ofendiam avassaladoramente o pranteado papa Francisco.   

O conceito de Igreja sinodal, que frisa sobremaneira a maior participação do leigo, inclusive no governo da Igreja, é simplesmente abominado pelos ultraconservadores, que veem o padre como um fiel superior ao leigo. Aliás, esta visão, fruto do clericalismo veementemente objurgado pelo papa Francisco, ainda permeia muitos setores da vida eclesial. Muitos, ainda, não engoliram uma mulher, irmã Simone Brambilla, como prefeita de um dicastério da cúria romana. Verdadeira revolução em dois mil anos de história da Igreja. Esta senhora está acima de cardeais, bispos etc. 

Os agora cismáticos integrantes da Fraternidade São Pio X e outros tantos ditos católicos  protagonizam um mal enorme para o povo de Deus, para os membros da Igreja, leigos e clérigos, pois, entorpecidos por uma soberba luciferina, fechados no subjetivismo, “onde apenas interessa determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam” (Papa Francisco, Gaudete et Exsultate, n. 36), distanciam infinitamente a comunidade católica do evangelho, do DNA de Jesus Cristo. 

Mas, como prometeu o próprio divino fundador, as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja (Mt 16, 18). Desta feita, malgrado a presunção e prepotência de alguns, a opção preferencial pelos pobres continuará a ser o norte do apostolado de bispos e leigos engajados na evangelização.  

Edson Luiz Sampel é professor do Instituto Superior de Direito Canônico de Londrina. Pós-doutorando pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

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