A bola dentro do sacrário
Na vida de um cristão, o problema nunca foi a bola. O problema começa quando o coração deixa de saber distinguir o estádio do santuário.
Há uma febre que a cada quatro anos percorre o mundo. Não distingue línguas, fronteiras nem classes sociais. Veste camisetas, pinta rostos, altera agendas, suspende reuniões e, por vezes, até modifica os horários das missas.
Chama-se paixão pelo futebol. E não há mal nisso. Deus também se alegra com tudo aquilo que é autenticamente humano: a festa, a beleza do jogo, a emoção partilhada, o abraço depois de um gol, a capacidade de um povo esquecer por alguns instantes as suas divisões.
Na vida de um cristão o problema nunca foi a bola. O problema começa quando o coração deixa de saber distinguir o estádio do santuário. Há um detalhe curioso no Evangelho: Jesus nunca condenou os afetos. O que Ele continuamente interrogava era a ordem dos afetos. “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). Porque o coração não suporta dois centros. Aquilo que ocupa o lugar central acaba sempre por organizar todo o resto das nossas escolhas na vida.
Talvez por isso seja oportuno perguntar, sem moralismos e sem acusações: que força tem uma partida de futebol sobre mim? O que ela é capaz de deslocar? O que ela consegue adiar? O que ela consegue silenciar? Acredito que não é pouco significativo que, para noventa minutos de jogo, muita gente é movida a reorganizar horários, compromissos e prioridades sem quase nenhuma resistência. Enquanto isso, para encontrar Deus durante uma hora de Eucaristia, tantas vezes sentimos cansaço, pressa ou falta de tempo. Não será que, por breves instantes, colocamos discretamente uma bola de futebol dentro do sacrário?
Obvio, eu sei que esse tipo de comportamento não leva a substituir Deus de maneira consciente, mas talvez seja um modo camuflado para lhe pedir licença: “Espera um pouco… agora há algo mais urgente.” No campo do mundo simbólico, os ídolos raramente entram pela porta principal. Têm a arte de se instalar com delicadeza. Não pedem que deixemos de acreditar em Deus, eles apenas pedem que Deus espere. E talvez seja essa a idolatria mais subtil do nosso tempo.
A questão não é assistir ao Mundial. A questão é verificar se, terminado o apito final, Deus continua a ser o primeiro amor ou apenas um compromisso que retomamos quando sobra tempo. A fé cristã não teme a alegria humana. Pelo contrário, a purifica. Quem encontra Deus aprende também a vibrar com um jogo, uma música, um encontro de amigos. Mas já não precisa transformar nenhuma dessas realidades em absoluto, porque somente Deus merece ocupar o centro do coração.
Talvez o Mundial não nos roube a fé. Mas pode revelar quem realmente governa o nosso tempo, a nossa atenção e os nossos afetos. O Mundial passará. Os estádios voltarão ao silêncio. As bandeiras serão dobradas. Os campeões mudarão. A Copa do Mundo encontrará outra vitrine. Mas permanece uma pergunta, simples e decisiva: Quando tudo termina, quem continua sentado no trono do meu coração?
Acho que o tempo vivido durante o Mundial pode tornar-se um excelente exame de consciência. Não porque o futebol seja um inimigo da fé, mas porque ele revela com admirável sinceridade aquilo que realmente nos mobiliza. As paixões não mentem. Elas mostram, sem discursos, aquilo que ocupa o altar escondido da alma. O Evangelho não nos pede para deixar de vibrar por uma seleção. Pede algo infinitamente mais exigente: que nenhuma vitória desperte em nós mais entusiasmo do que a certeza discreta de sermos amados por Deus. Porque, quando Cristo deixa de ser o centro, até uma simples bola pode transformar-se, silenciosamente, no nosso pequeno deus, um ídolo cultuado.
Mauricio Guevara, imc, é reitor do Seminário Teológico João Batista Bisio, dos Missionários da Consolata, São Paulo, SP.