Revista Missões Logo
Cidadania

Ellen Johnson Sirleaf, Leymah Gbowee e Tawakkul Karman.

As capacidades das mulheres para conquistar a Paz

Em 2011 o Prêmio Nobel da Paz foi conferido a três mulheres: à presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf, à liberiana Leymah Gbowee e a Tawakkul Karman, ativista do Yemen, pela sua luta não violenta em favor da segurança das mulheres e pelos direitos destas mesmas à plena participação no processo de construção da paz. 

Por Francesca Allasia

Um prêmio Nobel foi conquistado por Leymah Gbowee, liberiana, mas não sozinha. Ela foi premiada juntamente com outras duas mulheres igualmente empenhadas, nos seus países, para construírem ações e fatos de paz. Mas sobretudo destacamos o empenho dessas mulheres desde a juventude, que se voltou para fazer crescer nas mulheres a consciência do seu papel, sempre através de ações não violentas mas às vezes clamorosas (como a greve do sexo). Eis aqui o seu retrato. 

Como se põe fim a uma guerra? Neste tempo nos perguntamos frequentemente e olhamos ao nosso redor procurando inspiração, resposta, coragem e... aliados do bem. Certamente a violência não é o remédio para o nosso mundo fraturado e ferido. Violência produz violência criando um círculo de morte do qual não nos livraremos nunca. O Papa Bento XVI, há alguns anos, afirmou que a não violência “é realista, porque considera que no mundo existe muita violência, muita injustiça, e portanto não é possível superar esta situação a não ser contrapondo um a mais de amor, um a mais de bondade.Este a mais vem de Deus” (Angelus de 18 de fevereiro de 2007). Há alguém que sonhou a paz desde jovem e que conseguiu parar uma  guerra mas ... não sozinha! 

Em 2011 o Prêmio Nobel da Paz foi conferido a três mulheres: à presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf, à liberiana Leymah Gbowee e a Tawakkul Karman, ativista do Yemen, pela sua luta não violenta em favor da segurança das mulheres e pelos direitos destas mesmas à plena participação no processo de construção da paz. 

Leymah Gbowee tinha apenas 39 anos quando recebeu o Nobel e o mundo conheceu esta pessoa excepcional e o grupo de mulheres que, junto com ela, obtiveram o fim da guerra civil na Libéria. Todas, ainda hoje, empenham a própria vida para promover a paz. Em uma entrevista publicada no jornal Avvenire, Leymah afirma: “A mobilização de nós mulheres deixou uma herança ainda forte. São muitos os países em guerra no mundo, muitas pessoas que sofrem. Sinto alegria em pensar que, de Israel à Palestina e em outras partes do mundo, alguém possa dizer: se os liberianos conseguiram podemos conseguir também nós. 

Desde menina Leymah Gbowee não suporta as injustiças, é vivaz e sonha vir a ser médica, mas aos 17 anos tudo muda; explode a guerra civil. Uma guerra pelo poder e pelas reservas naturais que durará 14 anos (1989-2003) causando mais de 250.000 vítimas. Aquela que era uma comunidade unida sem olhar para as diferenças étnicas, muda radicalmente. Pouco após o estouro da guerra, Leymah foge para um campo de refugiados em Ghana juntamente com a mãe e as irmãs e, após dois anos, retorna para a Libéria, para a capital Monróvia. Não consegue dar-se por vencida, não pode olhar o seu país destruindo-se sem tentar fazer alguma coisa.

Desenvolve-se nela uma profunda sensibilidade marcada pela guerra e assim estuda Ciências Sociais e começa um trabalho de recuperação das vítimas do conflito. Mas a urgência de restabelecer a paz, também como responsabilidade frente às novas gerações, se faz sempre mais urgente somada à intuição da força que poderia ter um grupo de mulheres reunidas para construir a paz através da não violência, a oração e a caridade. Decide assim envolver outras mulheres cristãs e muçulmanas neste projeto. Um movimento que logo revela toda a sua riqueza e força e que será fundamental para a resolução do conflito. Nasce assim a Women of Liberia Mass Action for Peace  (Liga das Mulheres da Libéria pela Paz).

Leymah tornou-se um de seus membros fundadores e coordenadora na Libéria para a Women in Peacebuilding Network (Rede das Mulheres na Construção da Paz). Ela guia os protestos semanais das mulheres e o número das participantes aumenta sempre mais chegando a muitos milhares. Durante os protestos, as mulheres, vestidas de branco, rezam juntas, jejuam e cantam em público. Organizam também a greve do sexo que ecoa por todo o mundo. Elas queriam ser ouvidas pelo então presidente Charles Taylor e serem inseridas nas negociações de paz que teriam lugar em Acra, Ghana. Leymah lidera uma delegação de mulheres até lá para assegurar-se do sucesso das tratativas. Quando estas pareciam atravessar uma fase de fracasso, juntamente com quase duzentas mulheres, cercam o lugar onde o presidente e os rivais estão reunidos, impedindo assim os participantes da causa de deixar a sala por qualquer motivo, até quando não tiverem firmado um acordo. Quando as forças de segurança tentam prender Leymah, ela ameaça ficar nua, um gesto que segundo as crenças tradicionais teria causado uma terrível maldição sobre os homens. A ameaça de Leymah funciona e marca uma mudança decisiva no processo de paz. Poucas semanas depois, o presidente Taylor assina a sua demissão e parte em exílio, e é assinado um tratado de paz que institui um governo de transição. 

À pergunta de um jornalista sobre o que os políticos lhe diziam, Leymah lembra algumas frases que lhe diziam: “Deves voltar para a sua casa e ocupar-se dos teus filhos”, e ainda “Nós apreciamos aquilo que vocês mulheres fizeram, mas agora chega”. Ela e o seu grupo não se intimidaram jamais e alguns políticos mudaram de opinião e voltaram a dizer-lhe: “Tínhamos mesmo necessidade disto”.

O Empenho de Leymah Gbowee, porém, não parou em 2003... aquele foi só o início de tantos outros passos de paz. Em 2006  é co-fundadora do Women Peace and Security Network Africa (Rede das Mulheres para Paz e Segurança de África), da qual é diretora executiva há seis anos. Esta rede tem como objetivo fornecer programas de desenvolvimento de lideranças femininas, promovendo a participação estratégica e a liderança de mulheres no governo da paz e da segurança no continente. Em fevereiro de 2012 Leymah Gbowee cria uma nova organização sem perspectivas de lucro, a Gbowee Peace Foundation Africa (Fundação para a Paz Gbowee Africa) em Monróvia (capital da Libéria) que oferece oportunidades de instrução e desenvolvimento em liderança para mulheres e jovens.

Ela, Leymah, consegue o mestrado em Transformação dos Conflitos na Eastern Mennonite University (Virginia/USA). Recebe ainda a láurea honoris causa em Jurisprudência pela Rodhes University na África do Sul e da Universidade Alberta no Canadá, e uma láurea honoris causa em Gestão especialista e resolução de conflitos pela Universidade Politécnica de Moçambique. 

Ao ser perguntada sobre como a sua vida mudou ao ter recebido o Prêmio Nobel para a Paz, Leymah responde assim: “Vencer um Nobel para a Paz além de incrementar a minha Fé, me tornou determinada na luta pela justiça social, sobretudo a nível das comunidades de base. Sempre que posso retorno à minha comunidade de origem. Vencer foi uma benção enorme, mas de toda benção chegam desafios e a necessidade de fazer mais, como ir a países envolvidos em guerra, da Ucrânia ao Congo, ao Sudão do Sul. 

Em 17 de janeiro de 2026 ela foi convidada a fazer uma palestra na inauguração do ano acadêmico da Universidade Católica de Milão. Nesta ocasião deu a definição de Paz que orienta todo o seu empenho: “Creio que a Paz não seja só ausência de guerra, mas a presença de condições que oferecem dignidade a cada ser humano. Não se pode pensar de ter paz sem um verdadeiro sistema educativo e oportunidade de trabalho. Neste sentido, desenvolvimento, economia e paz estão ligados. Todos nós devemos poder ser aquilo que desejamos ser, sem olhar a religião, etnia ou raça. Se um país oferece dignidade a todos, este é um país no qual existe verdadeira paz.” Mãe orgulhosa de seis filhos, mulher corajosa, determinada, de Fé; inesgotável testemunha da possibilidade da unidade entre crenças diversas para construir a paz e do papel fundamental das mulheres no mundo, tornou-se um ponto de referência global e também inspiração para todos nós. Existem histórias que devem ser contadas e esta é uma delas.

Texto publicado na revista Andare Alle Genti, edição de março de 2026. Tradução de Benildes Capelotto, MC.

Capa da Edição

Compartilhe: