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Formação Missionária

A prioridade tem que ser a vocação

Padre Mauro Negro, OSJ, participou da Assembleia Regional dos Missionários da Consolata, realizada entre os dias 19 e 22 de maio de 2026, e deu destaque à vocação. Para ele, não há futuro em nenhuma congregação, se ã prioridade não for a vocação

Por Redação

No terceiro dia da Assembleia Regional dos Missionários da Consolata, 21 de maio, o padre Mauro Negro, OSJ, refletiu sobre o tema da vocação sacerdotal. com os presentes. Padre Mauro é professor das Sagradas Escrituras na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e no ITESP. Foi superior provincial dos Oblatos de São José, congregação a que pertence. 

Os missionários que trabalham na Amazônia (incluindo Manaus e Roraima) participaram on-line.

O Superior Geral, padre James Bhola Lengarin e o Vice Superior, padre Michelangelo Piovano, participaram da Assembleia, encerrando a visita canônica que fizeram à Região Brasil, desde o início de abril de 2026. O Superior Geral e seu Vice visitaram todas as comunidades missionárias do país, acompanhados do Superior Regional, padre Paulo Mzé.

Veja a íntegra da formação de padre Mauro

Um semeador saiu para semear…

Uma parábola que leva a muito conhecer e viver.
Buscas de visão e interpretação do Evento da Vocação
em um mundo pós-moderno de perfis indefinidos e desafiadores.

Analisar algo quanto aos seus possíveis futuros é uma tarefa interessante, realmente curiosa mas, com toda a certeza, de resultados cômicos ou mesmo desastrosos… A única certeza que podemos ter do futuro é que ele será diferente do que temos dele certeza! As previsões que a História nos oferece de futuros que depois já viraram passados, e sobretudo as previsões antropológicas, sociológicas e mesmo eclesiológicas que lemos em vários autores erraram não apenas nas grandes linhas, mas na própria essência. O Homem não é melhor agora do que era na antiguidade. A guerra não deixou de existir e homens belicosos proliferaram assustadoramente, ocupando novamente cargos políticos de Estado e fazendo propostas de guerras, de opressões e invasões. A tão sonhada chegada do mundo de igualdades, especialmente nas ficções científicas (agora) ingênuas e nas propostas ideológicas de exclusão de opressões, oprimidos e opressores não aconteceu. A velocidade de luz não foi ultrapassada nem poderá ser — e isso é certo! Ou será que não?! Os clones de órgãos, a cura do câncer, da AIDS, da “corrupção convulsiva” dos partidos antigos, substituídos pelos novos partidos, que colocariam a Política no caminho certo… Isso iria acontecer, não é? Tínhamos certeza disso! E aconteceu? É possível recordar de uma Campanha da Fraternidade, em 1989, que argumentava em relação à Comunicação, propondo uma “comunicação verdadeira”, que levava à liberdade, e que será a “regra”… Isso hoje soa, de muitos modos, ridícula. Muitas propostas, muitos sonhos, muitas promessas, poucas, quase nenhuma realização. Algumas novidades não previstas e surpreendentes: nada de carros voadores, mas sim de carros flex e híbridos. Nada de robôs que lavam louças, levam crianças às escolas, fazem compras, mas presença de inteligências virtuais de nomes curiosos, como Alexas, que estão sempre, constantemente intrometidas no cotidiano, esperando apenas para serem chamadas e usadas — ou zombadas. Quem diria, há pouco menos de vinte anos, que haveria os smartfones com o mundo nas suas telas? A certeza sobre o futuro é que ele é incerto. 

Na Igreja também, a esperança de um mundo melhor, mais justo e com sorrisos de justiça e dignidade humana foi uma promessa a ser realizada antes do final da década de 60 do século passado, mas infelizmente o mundo não ajudou, e veio a Baía dos Porcos, as revoluções militares latino-americanas, as guerras do Vietnã, da Indochina, a fria, a quente, a morna e por aí vai. A Igreja não conseguiu acalmar os ânimos do futuro, que agora já é passado distante. A Igreja nem conseguiu manter a unidade, esperada, projetada, dada como praticamente certa no final do Concílio Ecumênico. A Igreja rachou por conta do desejo de unir não ser consenso.

A Congregação religiosa deste que aqui escreve construiu uma grande casa em Roma, nos anos  60, e o então Ecônomo Geral, depois Superior Geral, argumentava que aquilo seria necessário, pois haveria uma expansão, com um fluxo enorme de vocacionados que viriam das Américas, da Ásia, da África, de muitos cantos da Europa e até da Oceania… Sim, é real que muitos vieram, e que hoje diversos postos de lideranças estão ocupados por alguns e outros que vieram depois. Mas, a esperada enxurrada de vocacionados, infelizmente, não chegou. A certeza sobre o futuro é que ele é totalmente incerto, inclusive na Filosofia, na Teologia e nas expressões pastorais. 

Mas, o futuro, que hoje é nosso passado recente, nos ofereceu surpresas que não imaginávamos. Se a entrada do Papa Bento XVI Ratzinger nos surpreendeu, de muitas maneiras, inclusive com sua palavra sobre o Amor, a Esperança e a Fé, a escolha de Mário Jorge Bergoglio nos causou admiração atrás de admiração. Isso embora a admiração não foi generalizada, sejamos sinceros. Muitos expressavam desejo de retorno a algum tipo de “grande disciplina”, de normatização geral das expressões eclesiais com base no pré Concílio. Aliás, o próprio Concílio Ecumênico Vaticano II foi uma surpresa, em muitos uma surpresa assustadora, e causa ainda surpresa em propostas que ainda não foram estabelecidas. E já se vão mais de sessenta anos! 

Então, falar de Vocação e de perspectivas não é uma tarefa fácil, senão que é interessante. Sim, pois oferece uma certa liberdade, não exigindo muito esforço científico, consistindo mais em um exercício de análise e uma proposta de sonhos. O problema do “sonho”, como metáfora de imaginação e desejo, é que o sonho, como fenômeno humano, pode ser assustador, encantador, confortador, perturbador e, quando termina e o sonhador acorda, pode até levá-lo a cair da cama ou encontrar-se em uma situação constrangedora ou mesmo dolorosa. Um sonho pode tornar-se um pesadelo! Então, evite-se aqui de usar a expressão “sonho”, quando relativo ao futuro, e evite-se mais ainda de se esperar um “julgamento” do passado. Se Santo Agostinho diz que não existe um passado, um presente e um futuro, mas um presente do passado, um presente do futuro e um presente do presente, então, olhemos para o que foi, o que é e tentemos plantar o que poderá ser. 

Talvez a melhor metáfora para o ambiente e o argumento vocacional seja a da plantação. Se houver um bom terreno, ainda que pequeno, se as sementes foram bem escolhidas, se houve uma adequada e calculada semeadura, se a irrigação foi satisfatória e a terra corretamente adubada, é bem provável que a colheita será favorável. Claro, se não houver pragas e ervas daninhas, excesso de sol ou de chuvas, surpresas desagradáveis e, enfim, tantas e tantas coisas. Mas é previsível que, se plantado feijão, haverá feijões; se plantado milho, haverá espigas de milho, e por aí se vai. O que se deseja aqui dizer é que como não é possível controlar o “entorno” da Vocação, que é a sociedade, a tecnologia, as políticas públicas, as incidências das ideologias, as novidades no Magistério da Igreja e nas escolhas das lideranças eclesiais, é possível, parece — assim se espera! — que os rumos das seleções vocacionais, da Formação, das opções pastorais, orientadas pelas constante atualizações do Carisma, sejam realidades factíveis, exequíveis. E aqui está, ao que parece, o caminho a ser feito: “opções”, o que supõe exclusões. Para optar é preciso excluir, o que é difícil, até doloroso, mas necessário. 

A parábola da semeadura é interessante como horizonte. Aqui o texto encontrado no Evangelho segundo Mateus 13,4-9.18-23, com suas duas partes: 

4"Eis que o semeador saiu para semear. E ao semear, uma parte da semente caiu à beira do caminho e as aves vieram e a comeram. 5Outra parte caiu em lugares pedregosos, onde não havia muita terra. Logo brotou, porque a terra era pouco profunda. 6Mas, ao surgir o sol, queimou-se e, por não ter raiz, secou. 7Outra ainda caiu entre os espinhos. Os espinhos cresceram e a abafaram. 8Outra parte, finalmente, caiu em terra boa e produziu fruto, uma cem, outra sessenta e outra trinta, 9Quem tem ouvidos, ouça!" 

18Ouvi, portanto, a parábola do semeador. 19Todo aquele que ouve a Palavra do Reino e não a entende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração. Esse é o que foi semeado à beira do caminho. 20O que foi semeado em lugares pedregosos é aquele que ouve a Palavra e a recebe imediatamente com alegria, 21mas não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando surge uma tribulação ou uma perseguição por causa da Palavra, logo sucumbe. 22O que foi semeado entre os espinhos é aquele que ouve a Palavra, mas os cuidados do mundo e a sedução da riqueza sufocam a Palavra e ela se torna infrutífera. 23O que foi semeado em terra boa é aquele que ouve a Palavra e a entende. Esse dá fruto, produzindo à razão de cem, de sessenta e de trinta".

Um semeador saiu para semear, o que parece ser bem óbvio! Mas, nem sempre é assim nas realidades pastorais e nos ambientes eclesiais. Ainda se espera uma resposta da Teodiceia: Deus irá agir, pois já se faz a oração; a oração define a ação de Deus, e todos oramos… Então, é certo que Deus agirá! Isso parece ser muito bem argumentado, é claro! Mas, se assim fosse, todo o argumento missionário cairia por terra! Sem clareza na Missão não pode haver evangelização. Sem organização nas ações, aparecem os que interpretam, de modo parcial, a mensagem. Há quase trinta anos abriram-se possibilidades de comunicação de massa de índole religiosa, e com as facilidades da imagem, do som e das transmissões, as propostas das mídias religiosas abundaram, os pregadores, as mensagens, as músicas, as propostas eclesiais, os adereços, os modelos de Igreja se tornaram tão variados que, naqueles tempos (antes da virada do século) parecia que um mundo religioso novo estava surgindo, com anjos voando para todos os lados, shows religiosos se difundido, pregadores televisivos formando fãs, imitadores e seguidores. Se o semeador não semeia na terra que possui, no ambiente no qual vive e pelo qual é responsável, outros virão, literalmente (nestes casos citados) pelo ar (as ondas eletromagnéticas da televisão e do rádio). Bem, isso resultou que alguns entraram na Vida Religiosa, outros na Vida Secular (diocesana), em alguns movimentos, assumiram algumas funções… Mas, toda a resposta vocacional que parecia ser intempestivamente iminente, não veio… Hoje, qual a ação dos semeadores, que são os que devem plantar? Onde se olha para a semeadura? Como se prepara o terreno? Qual os tipos de sementes, a regra das águas, o modo e a marca dos fertilizantes, a maneira de tratar o solo, as pequenas plantinhas e as flores que se abrem, as espigas ou frutos que surgem? A pergunta pode também ser esta: Houve um aprendizado com a história da Igreja recente, nestas terras tupiniquins e alhures? Ou ainda se espera — somente — a resposta da Teodiceia? 

… as aves vieram e a comeram… O que pode ser, aqui, as “aves”? As fórmulas dispostas pelas mídias, pelas modas, pelas massas humanas, sedentas de novidades rápidas, não compromissadas, passionais, transbordando adrenalina e outros hormônios. “Aves” podem ser também os que aparecem como os “gurus”, os modelos magníficos, que propõem caminhos vocacionais, estilos de vida, propostas de ação “proféticas”, supostamente independentes de ideologias, sem compromissos partidários… Ou, diversamente, os que estão parcial ou totalmente comprometidos com as ideologias, que se misturam com as Teologias e produzem ações, no mínimo, duvidosas. A geração de agentes de Pastoral dos anos ’70 a ’90 conhecem bem estes argumentos. As fórmulas inspiradas em uma quase única proposta teológica pareciam que iriam gerar uma Igreja nova, uma sociedade nova, um mundo novo! O que geraram? Muita coisa boa, é certo! Mas, muita gente que saiu, decepcionada, desencontrada, confusa, sem um rumo certo, sem saber se vivam como Religiosos, como agentes sociais, como Presbíteros, como organizadores de movimentos… E o espaço para os integralismos ficou aberto. E o que era para ser passado superado do Concílio, retornou como segurança para o futuro. As “aves” que vêm e comem as pequenas plantinhas estão aí, fazem sucesso midiático, reúnem muita gente para os playgrounds religiosos, com emoções, gritos, movimentos rítmicos e repetitivos. E tem as “aves” conservadoras, seguras da tradição que supostamente possuem, e que mais se parecem com cartas de baralho andantes. São muitas as “aves”.

…caiu em lugares pedregosos… E estes “lugares pedregosos”, o que poderiam ser? Como as “aves”, eles também podem ser muitas coisas. O adjetivo plural “pedregosos” sugere espaço ocupado por material estranho à semeadura. Talvez a confiança nos recursos “modernos”, que vão se sucedendo na progressão do tempo, não deva ser tão sem limites como hoje se apresentam e são reconhecidos. As Redes Sociais abriram a possibilidade de que hoje qualquer um, que nada entende, possa falar de algo que não tem ideia do que seja e tenha um batalhão de seguidores. O grotesco passou a ser comum, normal, a ponto de a opinião limitada, calculada, discernida passou a ser a exceção. E todos podem falar de tudo sobre tudo, sem dizer absolutamente nada de qualquer coisa. Claro, nem sempre é assim. Mas, o que parece é que, na maioria das vezes, assim é! 

Os “lugares pedregosos” podem ser também as ciladas que a sociedade, a cultura, a política oferecem, quando propõem segurança, facilidade, imediatez e, que conduzem à incertezas, edições feitas com interesses parciais, quando não de orientação ideológica. É interessante que as propostas vocacionais integralistas e reacionárias, surgiram ou foram conhecidas nos últimos vinte, trinta anos, tempos que coincidem com a estonteante e avassaladora difusão dos meios digitais e, nos últimos quinze anos, com as Redes Sociais. Hoje é possível ser um fiel que vive em uma Comunidade que partilha a vida com simplicidade, na alegria de uma experiência humilde e nas inseguranças das limitações salariais, sanitárias, e profissionais, ou ser um fiel que se cerca de seguranças inspiradas em fórmulas caricatas de exércitos evangelizadores, que combatem o mundo como uma praga a ser extirpada — quando o desejo do Senhor Jesus não era eliminar o mundo, mas de o salvar! Os “lugares pedregosos” se apresentaram para os que estavam distraídos, e tomaram conta das sementes, que nascem lá, e são muito bem-preparadas. O que sugere outro desafio no “plantio” vocacional, os tais “espinhos”.

…caiu entre os espinhos… “Espinhos”, no seu conjunto, são situações múltiplas, que vivem naquela terra, que estão ali, esperando também algum tipo de fertilizante, de umidade, de sol para gerar suas pontas que irão ferir, deixar marcas negativas, até dolorosas. Talvez uma certa ingenuidade na “semeadura”, e sobretudo na “colheita” dos frutos, ou antes na florada das plantas, tenha deixado passar o “joio”, que é muito semelhante ao “trigo”, e que engana. Aqui está um dado que une a parábola do semeador àquela parábola do joio e do trigo, também em Mateus 13,24-30. A acolhida de possíveis vocacionados, e também as práticas formativas, as abordagens orientativas, as opções metodológicas, as fórmulas de ação, de condução, de orientação, de correção, de indicação, de seleção… Uma quantia enorme de elementos que todo Formador ou responsável pela Formação ou Promotor Vocacional deve observar, destacar, investigar, avaliar, ponderar, dialogar, discernir e decidir… É uma tarefa, é um conjunto de tarefas praticamente insano de controlar, mas que exige um preparo enorme, uma espiritualidade maturada com desafios, acertos, erros, avanços, tropeços, avaliações, diálogos, decisões. O mundo vocacional é… um mundo! Tem desafios impensáveis e até assustadores. Não é somente o problema da maturidade sexual, do equilíbrio emocional, da qualidade moral, mas é também a capacidade intelectual, a disposição pastoral, a expressão propositiva, a abertura dialogal, as certezas cultivadas na espiritualidade e na vivência do Carisma e da Missão. Os espinhos estão sempre aí, cutucando e cobrando uma atenção, uma cura, uma ação de superação. 

…em terra boa… A terra é boa, o Carisma é bom. A Missão é boa. A vida é boa, a Igreja é boa, o Magistério, a Tradição são coisas boas. O que falta para atrair, para chamar a atenção? Talvez mais testemunho! Atos dos Apóstolos insiste na necessidade do testemunho: 

6Estando, pois, reunidos, eles assim o interrogaram: "Senhor, é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel?" 7E ele respondeu-lhes: "Não compete a vós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade. 8 Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra". (Atos dos Apóstolos 1,6-8) 

Ser “testemunha” é envolver-se em pessoa, é arriscar a própria pele, é não ter limites na entrega pessoal. Ser “testemunha” é assumir a Vocação e propor a Vocação. Não é ter um discurso, apenas, ou usar um traje, um distintivo, uma marca. Tais marcas, distintivos ou trajes não fazem o monge, como afirma o ditado. Podem indicar algo, inclusive indicar que alguém é monge, mas não definem suas ações e a extensão que elas propõem. Testemunha é algo mais sério, mais visceral. É viver uma experiência interior que vai além das aparências, das modernidades ou das tradicionalidades. 

Hoje se vê muita coisa, mas poucos enxergam o que deve ser enxergado. Também se ouve muitos sons, mas poucos escutam, inclusive por ser pouco para, realmente, escutar. E muito se diz, sobre muitas coisas, mas pouco, pouco se fala, se transmite de algo que valha, que tenha sentido e seja verdade. A pós-modernidade não trouxe o progresso prometido. A atualidade não trouxe o mundo evangelizado que era desejado e esperado. As seguranças das “renovações” não causaram uma Igreja nova, mas indicaram caminhos. As reações não tornaram o mundo mais seguro, e sim, mais confuso. O que, agora, pode ser esperado?  

É a semeadura que se deve fazer! O que será semeado? Onde será semeado? Isso será uma tarefa “a mais” ou será “a” prioridade? É comum que, quando se faz alguma programação em ambientes eclesiais, encontrem-se e proponham-se “prioridades”. Ora, quem tem “prioridades” não tem “prioridade”, pois, por definição, “prioridade” é “uma”, não uma lista. “Prioridade” tem a ver com “primeiro”, que deve ser também o “único” na sua posição, pois do contrário não será “prioridade”, mas partilhará com outros o mesmo e igual grau de importância. A Vocação é prioridade ou não é? A semeadura é prioridade ou não é? E o cultivo das sementes, a adubação, as regras, os cuidados e zelos, com as proteções das flores e dos frutos, como são vistos: como “prioridade” ou mais uma atividade a ser conduzida e enfrentada? 

O ambiente está aí, de muitos modos está aberto, mais aberto do que se esperaria. Algo, alguém o abriu, evidenciou os perfis religiosos, as devoções, os modos de se vestir, de falar, de pastorear. É preciso responder aos desafios, ao mundo que cerca e envolve. 

Falar algo, não apenas dizer. Escutar o que é dito, não apenas ouvir. Enxergar o que está à mostra, não apenas ver. A Vocação tem seus desafios e os que a reconhecem como Evento de Fé devem ser especialistas no seu “fato”. 

Para concluir estas provocações meio desencontradas é oportuno entender um princípio que pode ser orientador de compreensão e ação. A Vocação é uma expressão de Fé. E a Fé é uma Vocação. É como uma equação matemática essencial, que propõe, de modo referencial: Fé (F) é igual a Vocação (V); e Vocação (V) é igual a Fé (F) - algo assim: F=V, ou V=F. Isso parece meio caricato ou simplificado demais, porém tem uma realidade implícita. Sem o cultivo da Fé como Virtude, como resposta de Inteligência e de Afeto, não pode haver direção, caminho aceito e vivenciado. E sem um caminho aceito e vivenciado na Fé, com o Afeto e a Inteligência, não pode haver um futuro. Isso pode querer dizer que é necessário voltar à Educação da Fé, que é a Catequese. Educação é um processo de agregar, de criar conexões, de interpretar a vida de modo Cristão. Educa-se em todas as circunstâncias, e isso faz a diferença na Fé e na Vocação. Menos emoção e mais educação. Menos fórmulas preconcebidas e processos complicados de natureza psicológica (supostamente) e mais experiências religiosas, nos quais o Senhor, o Cristo Jesus como o indica Paulo seja o centro, não adorno. 

É um desafio que se renova sempre, no “presente do presente” dos que se reconhecem chamados, vocacionados, despertados pela Fé. Graça e Paz a todos.

Mauro Negro, OSJ, é professor das Sagradas Escrituras na PUC-SP.

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