Tomé: crer na Ressurreição mesmo na dúvida
A fé de Tomé nasce não da evidência, mas da honestidade. Ele não aceita uma fé coletiva e nem por empréstimo. Não se contenta com o testemunho dos outros.
Há uma ausência que pesa mais do que qualquer presença: a ausência no momento certo. É nessa fenda silenciosa que aparece Tomé. A narrativa do Evangelho de João diz apenas que ele “não estava com os outros” quando Jesus veio. Não explica. E talvez seja melhor assim. Porque essa ausência não precisa de justificativa: ela faz parte do relato de qualquer vida cotidiana. Também nós, tantas vezes, não estamos quando a vida acontece no seu ponto mais decisivo. Estamos ocupados, feridos, decepcionados… ou simplesmente cansados de esperar.
Tomé não estava. E não estar, às vezes, é já uma forma de dor. Talvez ele tenha se afastado porque a crucifixão de Jesus tinha sido demais. Talvez tenha precisado de solidão para digerir o fracasso. Talvez não suportasse ver nos olhos dos outros uma esperança que nele já tinha se apagado. A ausência de Tomé não é negligência: é crise. E é justamente ali que começa a sua fé.
A fé de Tomé nasce não da evidência, mas da honestidade. Ele não aceita uma fé coletiva e nem por empréstimo. Não se contenta com o testemunho dos outros. Ele quer tocar, quer ver, quer atravessar o mistério com o próprio corpo. “Se eu não vir… se eu não tocar… não acreditarei.” Essas palavras não são uma recusa, mas talvez, seja um pedido inconsciente: “Não me deixem de fora da ressurreição.” Há dúvidas que não são fechamento, mas uma porta entreaberta.
A dúvida não é o contrário da fé; é muitas vezes a sua forma mais humana de procurar. E então passam-se oito dias, narra o evangelista João. Oito dias é o tempo da travessia interior. Oito dias é o tempo em que a dúvida amadurece ou se endurece. Oito dias é o tempo em que Deus respeita o nosso ritmo. E Jesus volta. Mas agora não vem para um grupo: vem para uma pessoa. Não vem com discursos: vem com feridas abertas. “Põe aqui o teu dedo… vê as minhas mãos…”
A ressurreição não elimina as chagas. Ela as transfigura. Jesus não corrige Tomé. Não o repreende. Ele entra exatamente naquilo que Tomé precisava.
Deus não nos encontra onde deveríamos estar. Ele nos encontra onde realmente estamos. E é aí, onde acontece algo surpreendente. Tomé não toca. Ele não precisa mais. Aquele que exigia provas, agora se rende à presença. Aquele que queria ver, agora vê mais do que os olhos permitem. “Meu Senhor e meu Deus.” Eis a mais alta profissão de fé do Evangelho. A dúvida, atravessada até o fim, tornou-se fé madura.
Olhando para este quadro bíblico após ressurreição, talvez a pergunta certa não seja apenas: onde estava Tomé? Mas: onde estamos nós quando Deus passa? E mais ainda: temos coragem de voltar depois da ausência? Temos humildade de reconhecer a nossa dúvida como caminho? Temos paciência de esperar os nossos “oito dias”? A fé de Tomé nos ensina que a ressurreição não é um evento para perfeitos. É um encontro para os ausentes, os feridos, os que chegaram atrasados. A história de Tomé nos esclarece de forma categórica, que talvez, a nossa dúvida, seja justamente o motivo principal pelo qual Jesus volta. Porque ninguém pode ficar de fora da VIDA NOVA. Nem mesmo aqueles que, por um tempo, não estavam.
Mauricio Guevara, imc, é reitor do Seminário Teológico Internacional João Batista Bisio, São Paulo, SP.