O Futuro da Inteligência Artificial / IA E O Nosso
Há pouco mais de um ano a Inteligência Artificial (IA) tornou-se um tema cotidiano. Podemos nos perguntar: Quais são as consequências desta revolução? E como enfrentaremos os custos ambientais altíssimos, que a IA produz?
Quando em 1987, Joseph Thompson descobriu o elétron, ele não podia imaginar que a sua descoberta teria aberto a estrada para uma avalanche de pesquisas científicas que teriam revolucionado o nosso modo de viver e de trabalhar. O tema de fundo é a eletrônica. Esta encontrou um tão grande espaço de aplicação a ponto de dar vida a muitíssimos setores, entre os quais o das telecomunicações, os aeroespaciais, as conexões à distância, a elaboração de dados e, por último, a Inteligência Artificial (IA). Cada um destes setores, com as suas próprias características, a própria tecnologia, os próprios materiais de base, os próprios suportes técnicos, mas também os próprios tempos de evolução. E, enquanto alguns setores já atingiram um certo grau de maturidade, outros ainda estão em plena evolução. Por isso tornam-se terreno de conflito e de contestação não só entre as empresas, mas também entre países. Isso porque controlar estas tecnologias significa, de fato, dominar toda a economia em um sistema que não vive só do que alcançou, mas do que ainda deve vir. Não é por acaso que o motor do capitalismo é a inovação, fundamental não somente para aumentar os espaços produtivos, mas também diminuir os custos da produção e, portanto, vencer a eterna batalha da concorrência.
Do militar ao civil
Não podemos esquecer que, quando a inovação não basta para garantir o predomínio, a arma de reserva é a supremacia militar, dependente também ela da superioridade tecnológica. De fato, os limites entre civil e militar estão cada vez mais sutis. Não só porque a esfera econômica pede ajuda àquela militar quando não consegue dominar a situação com as estratégias clássicas de tipo econômico, mas também porque as invenções nascidas em âmbito militar estendem-se em seguida àquelas civis. Uma prova disso é a história do GPS ou da Internet, mas também de muitas outras tecnologias. Assim, existem hoje muitíssimas empresas informáticas inseridas contemporaneamente num campo e no outro.
Dados e Data Center
Entre as novidades tecnológicas em vias de definição, que darão fórum ao futuro, está, sem dúvida, a gestão centralizada dos dados e da Inteligência Artificial (IA). A gestão dos dados refere-se às técnicas para recolher, arquivar, organizar, proteger e elaborar todas as informações úteis ao desenvolvimento da própria atividade. Nos primeiros anos de utilização de massa do computador, a solução mais natural para a gestão dos dados consistia em apropriar-se, estrutura por estrutura, de mecanismos próprios, suficientemente eficientes para as próprias exigências. Com a evolução da tecnologia, a solução mais utilizada tornou-se o armazenamento centralizado, ou seja, o depósito dos próprios dados em megaestrutura, os Data Center. Estes são gerenciados por terceiros que, como trabalho, alugam espaços informáticos capazes de armazenar dados e elaborá-los segundo as exigências dos próprios clientes. Um exemplo simples poderia ser a guarda relativa a clientes e fornecedores com serviço anexo de administração para o arquivo de contas, gestão de pagamentos e cópia das faturas. E, para conceder um toque de simpatia para esta nova política de gestão, a transferência à distância dos dados e trabalho relativo foram batizados de cloud computing que poderia ser traduzido por “elaboração entre as nuvens”.
A conveniência das empresas, ou de qualquer outro que deve gerir um número importante de dados e transferir a própria atividade informática para os Data Center, ao invés de os gerir individualmente, é uma questão de ganho econômico e eficiência. Como na área informática, a tecnologia evolui rapidamente, é necessário investir continuamente para acompanhar as últimas novidades. Por fim, resulta mais conveniente terceirizar o serviço do que, em troca de um aluguel anual, garantir espaços adequados e tecnologia atualizada.
A revolução da IA
A tecnologia informática que hoje está de novo revolucionando a nossa existência chama-se Inteligência Artificial, que pode ser definida como a capacidade das máquinas de desenvolver tarefas que, normalmente, requerem a capacidade de raciocínio, de aprender e criatividade típicas do ser humano. As suas aplicações estão avançando em cada setor: desde os veículos sem condutores aos robôs que desenvolvem funções de enfermagem, até aos call Center disponíveis nas relações com o público ou aos escritórios de assistência legal. No âmbito cotidiano muitos estão conhecendo a Inteligência Artificial através do uso de plataformas como o Chat GPT capazes de conversar com quem o interpela, de responder à perguntas, de criar textos, de fornecer imagens, de traduzir idiomas e muito mais. Nem é preciso dizer que a Inteligência Artificial está se tornando uma ferramenta indispensável também no âmbito militar, com todos os riscos que podem existir ao confiar às máquinas as decisões de morte, que não deveriam ser confiadas nem mesmo aos seres humanos. De fato, a Inteligência Artificial é tão extraordinária naquilo que pode fazer como por problemas sobre o plano moral e político, sendo que pode tornar-se um atentado à própria democracia. Esta, de fato, é capaz de gerar e transmitir informações, fotos e vídeos falsos ou de censurar, ou seja, bloquear a circulação de opiniões desagradáveis ao poder ou não compartilhadas pelos gestores das plataformas sociais. O certo é que milhares de informações – referentes às estruturas públicas, empresas e indivíduos – estejam centradas em poucas estruturas controladas por grupos de empresas informáticas que podem usar os nossos dados como mercadoria a ser vendida às mais diversas pessoas: empresas de publicidade e comerciais, partidos políticos, serviços secretos. A nossa intimidade e os nossos valores violados por um vil dinheiro.
Tudo em Mãos Privadas
Os investimentos mundiais nos Data Center foram quase duplicados depois de 2022, alcançando os 500 milhões de dólares em 2024. O resultado é que, hoje, se calcula em cerca de 12 mil Data Center a nível global, sendo que 45% estão localizados nos Estados Unidos (EUA). Edifícios inteiros repletos de milhões de componentes informáticos (computadores, hard disk e memórias) que, porém não são nunca suficientes para as necessidades da Inteligência Artificial em contínua evolução. Por isso, estão sendo estruturados centros de elaboração de dados sempre maiores chamados Data Center Hyperscale, que induzem um número crescente de sujeitos econômicos de todo o mundo a transferir os próprios dados a estes centros Data Center com o objetivo de obter melhores serviços e em um tempo mais rápido. O outro lado da medalha de tudo isto é a concentração de poder: poucos gestores privados: Amazon, Google, Microsoft, Meta, TickTok, Alibaba, Apple – de fato, têm o controle de economias inteiras, com possibilidade de decidir se fazê-las funcionar ou sabotá-las. Um tema que, infelizmente, não parece interessar os governos sendo que em nenhuma parte do mundo se abriu a discussão sobre a necessidade de considerar os serviços informáticos como serviços estratégicos a serem usados na gestão de órgãos públicos atuantes sob o controle democrático. A maior preocupação expressa pelos governos é a nacionalidade dos gestores partindo da premissa de que não oferecem riscos se residem em Estados amigos ou, melhor ainda, se pertencem ao próprio país. Uma posição alinhada com o patriotismo produtivo hoje muito em voga. E isso não com a finalidade ambiental ou social, mas como estratégia de defesa das empresas do próprio país num mundo cada vez mais dominado pela falta de recursos e inequívoca distribuição das riquezas que, de fato, impede a expansão do mercado.
Para o Domínio Digital
A batalha para o domínio digital acontece essencialmente no confronto entre EUA, China e União Européia (mas Taiwan desempenha um papel fundamental) e não se refere somente aos Data Center, mas também à produção dos semicondutores (os componentes básicos dos aparelhos de informática) e o controle das matérias primas úteis para a sua fabricação. Cada um procura garantir a primazia nos três âmbitos através de subvenção à produção, impostos, proteção das patentes, acordos de abastecimento comercial, limites de exportação. Nesta chave são lidos os fundos estabelecidos nos últimos anos pelos EUA, China e União Européia em favor da própria indústria eletrônica, ou as taxas impostas pelos EUA e União Européia para os semicondutores chineses ou as restrições introduzidas pela China sobre a exportação dos minerais necessários à produção de material informático do qual tem grande disponibilidade. O sistema segue a tecnologia porque é funcional à lógica de concorrência das empresas, mas para que esta seja aceita, nos dizem que serve para nos garantir uma vida melhor. Sobre esta informação se deveria discutir, mas embora a achemos positiva, sabemos por experiência que as inovações tecnológicas abrem sempre novas problemáticas de caráter social e ambiental, senão também moral.
A maior razão da tecnologia digital à qual as Nações Unidas instituíram um organismo independente de especialistas para assinalar riscos e oportunidades da Inteligência Artificial (Um Office For Digital and Emerging Technologies, ODET). A estrutura instituída em 2025, ainda não produziu resultados, mas algumas problemáticas já foram acertadas.
Consumos Fora do Controle
Entre estes, existe um elevado impacto ambiental em vista das necessidades exorbitantes de energia elétrica exigida para o funcionamento da Inteligência Artificial e, portanto, dos Data Center. Na verdade, toda a rede de informática é altamente energiva, desde a extração dos minerais úteis para a construção dos circuitos eletrônicos até ao funcionamento dos computadores, em qualquer lugar onde estejam espalhados. Mas a Inteligência Artificial imprimiu uma aceleração porque utiliza componentes sempre mais complexos e interconexões sempre mais numerosas.
A Agência Internacional para a Energia (Internacional Energy Agency) informa que, hoje, a produção de semicondutores absorve 1% da energia elétrica mundial, enquanto o conjunto dos Data Center absorve 1,5% do total. Considerados individualmente os maiores Data Center consomem a mesma quantidade de energia elétrica utilizada por 100.000 famílias, enquanto estão sendo construídas estruturas que consumirão energia elétrica correspondente ao consumo de dois milhões de famílias que corresponde à uma cidade como Los Angeles.
Desde 2017 até hoje a eletricidade consumida pelos Data Center a nível global cresceu de 12% ao ano até alcançar 415 terawat/hora em 2024, consumidos pelos 45% nos EUA, os 25% na China e 15% na Europa. Até 2030 o consumo complexivo por parte dos Data Center duplicará alterando profundamente o atual relacionamento entre os setores produtivos . Nos EUA, por exemplo, se prevê que os Data Center irão consumir um montante de energia elétrica superior àquela pelas indústrias de aço, cimento e de alumínio colocadas juntas.
Por questões ambientais, seria útil que a maior quantidade de demanda de energia elétrica fosse fornecida somente daquelas renováveis, mas considerações de caráter técnico e financeiro se voltam também para soluções de tipo antigo como as centrais que funcionam com os tradicionais combustíveis fósseis e centrais nucleares, com um aumento certo de gás carbônico e, no caso das centrais nucleares, do risco radioativo. Não por acaso, a Agência Internacional de Energia prevê que o CO2 mundial ligada aos Data Center passará dos 175 milhões de toneladas de hoje para os 320 milhões de toneladas em 2030. E não é tudo.
A Questão Hídrica
Quando se fala de eletricidade, a água é um elemento importantíssimo pois desenvolve um papel fundamental não só nas estações hidroelétricas, mas também nas centrais térmicas e nucleares (para o resfriamento). Portanto, se aumentar a produção de energia elétrica a partir das fontes tradicionais, aumenta também o consumo de água. A Agência Internacional para a Energia calcula que, na situação atual, o consumo mundial de água ligado à energia elétrica utilizada pelos Data Center corresponde aos 373 milhões de litros ao ano. À estes são acrescentados outros 140 milhões de litros para a implantação de resfriamento indispensável ao seu bom funcionamento e uns outros 50 milhões para a produção de semicondutores. O total resulta em 560 milhões de litros ao ano, que poderão se tornar 1.200 milhões de litros em 2030.
O balanço dos dados certamente pesa para um planeta, que se demonstra sempre mais sedento e que vê crescer os Data Center mesmo nos lugares com maior índice de seca, como é por exemplo, o estado da Virgínia, nos Estados Unidos. Em uma entrevista publicada pelo Financial Times em 14 de agosto de 2024 a própria Microsoft admitiu que os 48% da água que utiliza globalmente provém de “áreas com stress hídrico”, enquanto o Google declarou que os 5% dos seus recursos hídricos provém de “áreas com falta de água”.
Inteligência
Concluindo, a Inteligência Artificial (IA) é uma outra demonstração que toda inovação tecnológica traz consequências. Devemos considerar se talvez não seria melhor nos organizarmos para valorizar plenamente a inteligência humana de todos os seres humanos antes de nos confiarmos à inteligência das máquinas que, por mais desenvolvida que seja, é sempre controlada e, portanto, estúpida.
Francesco Gesualdi, Revista Missioni, novembro de 2025. Tradução de Benildes Clara Capellotto, MC.