Cem anos e “Além”
O ano de 2026 que estamos iniciando é rico de aniversários para os Missionários e Missionárias da Consolata. Este ano se apresenta como uma ocasião para repensar o passado e compreender melhor o presente. E talvez projetar os movimentos futuros.
“Hoje, neste fim de tarde, quero falar-vos de uma bonita prática que eu desejo que seja executada por vós... aquela dos aniversários”.
Assim exortava José Allamano, “O Senhor Reitor”, em uma de suas habituais conferências formativas aos domingos (aquela do domingo, 21 de janeiro de 1912) aos seus missionários da Casa Mãe de Turim. Ele queria assim convencê-los da importância de ter um calendário do coração, no qual se registrasse as datas significativas da vida de cada um: nascimento, batismo, crisma, primeira comunhão, ordenações.
Cada lembrança, de fato, ajuda a fazer memória e a memória nos mantém “nas partes” fazendo-nos viver da melhor maneira o presente e nos projetando para o futuro.
Allamano viveu com este espírito a celebração dos 25 anos de fundação do Instituto, o “jubileu de prata”, recopiando as últimas disposições testamentárias, com um olhar realista sobre a sua situação de saúde bastante comprometida, mas também aberto a quem o substituiria e daria continuidade à sua obra. Era o dia 29 de janeiro de 1926. Pouco mais de duas semanas mais tarde, em 16 de fevereiro, o canônico José Allamano faleceria no Santuário da Consolata, no lugar que por 46 anos tinha servido com amor e total dedicação.
O passado nos define
Hoje cabe a nós trazer à luz um passado que nos define, que continua a nos mostrar quem somos e o que devemos ser. Há pouco mais de um ano, em 20 de outubro de 2024, Roma e Turim se encheram de cores e de sons do mundo todo, graças às centenas de pessoas vindas dos quatro polos do planeta, vindas em peregrinação para vê-lo proclamado santo.
Entretanto, para além desta beleza de nos encontrarmos juntos, a canonização do nosso Fundador nos impeliu a fazer uma viagem de volta no tempo para redescobrir as razões da sua santidade. Foi uma ocasião única para repensar as nossas raízes, tentar confrontar hoje sobre o nosso modo de viver a missão e compreender como sermos autenticamente Missionários da Consolata amanhã.
Este ano de 2026 nos parece ser, do ponto de vista celebrativo, particularmente fecundo. Celebramos em 16 de fevereiro o centenário da morte ou, melhor dizendo, do “nascimento para o céu” de São José Allamano. Esta data, no entanto, é precedida por um outro momento importante: o 125º aniversário do nascimento do Instituto Missões Consolata, realizado em 29 de janeiro de 1901.
Não podemos separar a recordação do Fundador daquele da sua fundação. Foi graças aos missionários e missionárias que o espírito de José Allamano continua a viver em tantos lugares e em meio a muitíssimos povos, dando continuidade ao seu carisma, tornando conhecido o seu nome, com orgulho e gratidão. A história dos missionários e missionárias da Consolata é tecida naquela de José Allamano. A família Consolata lhe deu seguimento, a levou a cumprimento.
Em quatro continentes
Talvez as coisas nem sempre resultaram assim como Allamano teria desejado, nem sempre fomos capazes de viver de modo extraordinário o ordinário da existência de cada dia, o cotidiano da vida religiosa e missionária. Nem sempre, talvez, conseguimos “fazer o bem bem feito” e a fazê-lo sem barulho, com a discrição com tom do Piemonte com o qual o Fundador temperava as suas ações. E, sem dúvida, muitas vezes fomos missionários sem antes sermos santos, santos como ele, heroico nas suas virtudes.
Missionários, porém, isto sim temos sido. Allamano se fez presente em quatro continentes graças aos seus filhos e filhas que partiram, que falaram de Cristo, da Consolata, mas também deste homem pequeno, silencioso, que na sua vida moveu pouco os pés, mas fez correr o coração.
O 2026 trará consigo também um terceiro acontecimento, certamente não tão significativo como estes outros dois citados; todavia, o afeto e o reconhecimento de tantas comunidades que puderam conhecer os Missionários da Consolata nos tornam orgulhosos também do menor destes aniversários: os 25 anos da Fundação Missões Consolata Ets (MCets). Nascida em junho de 2001 como Missões Consolata OnLus para poder tornar mais eficaz e organizado o trabalho de cooperação desenvolvido pelos missionários, a fundação mudou o nome, mas não o espírito com o qual atua nos campos de educação, saúde, e muitos outros. MCets é também o editor da Revista Missioni, como também a estrutura organizativa que dá suporte aos programas do CAM, sigla de Cultures and Mission, o polo cultural e de promoção missionária aberto em Turim (Itália), ao lado da Casa Mãe dos Missionários da Consolata há dois anos. Se alguém quiser saber mais sobre esta fundação poderá encontrar todas as informações no site www.missioniconsolataets.it
Transformar o ambiente
MCets passou 25 anos a serviço das atividades dos missionários da Consolata no mundo, mantendo vivo o espírito herdado do Fundador que sempre entendeu a promoção humana como uma componente irrenunciável da evangelização. “Amarão uma religião que oferece as promessas da outra vida e torna mais feliz aquela sobre esta terra”, assim escreveu José Allamano aos seus missionários do Quênia, em uma carta datada de 10 de outubro de 1910, falando das pessoas às quais tinham sido enviados e às quais deviam, com o testemunho das suas vidas, demonstrar que o Reino de Deus inicia agora aqui, nesta terra. Aos mesmos missionários dissera: “tenham como foco a transformação do ambiente, não só das pessoas”, um pensamento que permaneceu na base do método de evangelização adotado pelos missionários da Consolata e de seu modo de desenvolver a cooperação.
Uma nova biografia
Para exercitar concretamente “a bonita prática” de celebrar os aniversários, Missioni Consolata Ets promoveu a publicação de uma nova biografia do Pai Fundador: “Além. Vida e Missão de São José Allamano” de autoria de Alberto Chiara, publicada pelas edições Effatà. Certamente não é a primeira biografia dedicada à sua pessoa: recordamos, entre os principais contributos, a extraordinária e completíssima obra de Padre Igino Tubaldo e os volumes muito mais acessíveis de Domenico Agasso e Padre Giovani Tebaldi. Sobretudo estes dois textos, atualmente esgotados, serviram ao autor de referência para seguir as aventuras históricas vividas deste padre, a cavalo, entre o 19º e o 20º século, sobrinho de São José Cafasso, nascido em Castelnuovo d’Asti como o tio e como uma outra figura da Igreja daqueles anos: São João Bosco.
Santo local com visão global
Algumas características tornam este último empenho literário particularmente interessante e merecedor de leitura. O título “Além”, descreve Allamano naquela que foi uma das suas peculiaridades: ter fundado dois institutos missionários sem jamais ter “partido” ele mesmo para a missão. Um santo “glocal”, assim o define Alberto Chiara repescando um termo em uso anos atrás para definir o caráter global e ao mesmo tempo local de uma determinada realidade.
Allamano viveu o seu ministério sacerdotal de modo pleno e realizado na Turim do seu tempo. O Santuário da Consolata permaneceu o centro operativo das suas atividades, das quais não se afastou jamais por bem 46 anos. Um lugar ao qual dedicou muitos esforços para o renovar e oferecer um serviço pastoral e litúrgico de primeira qualidade de modo que qualquer pessoa que ali entrasse pudesse viver uma autêntica experiência de encontro com Cristo e com Maria a Sua Mãe.
Entretanto, ao mesmo tempo, Allamano soube ir além, com a mente e com o coração, oferecendo à Igreja de Turim a possibilidade de encontrar-se com outros mundos, outras culturas.
Alberto Chiara, por muitos anos redator de “Família Cristã”, grande viajante e narrador de histórias da Igreja ao redor do mundo, com estilo jornalístico vai além da própria vida de José Allamano, colocando-a em diálogo com tudo quanto acontece no mundo, consciente de que na verdade, nesta nossa vida tudo está interconectado, ligado, em relação, como Papa Francisco escreveu claramente na sua encíclica “Laudato si”, dedicada ao cuidado da casa comum.
Alberto Chiara evidencia, porém, também um “além” temporal, trazendo a obra do Allamano até nossos dias e abrindo um espaço que a projeta para um futuro ainda desconhecido por nós. Talvez esta seja a contribuição mais original do livro, que já aparece na capa, na qual a face do santo está envolvida numa “nuvem” de palavras que deixam transparecer o seu espírito e missão. Alguns destes termos, como por exemplo, migração, minorias não pertencem ao coração da espiritualidade originária de Allamano, mas se tornaram temas e prioridade na atividade dos missionários nos vários contextos que tiveram que confrontar.
Na verdade, Alberto Chiara conheceu o espírito do Allamano nos anos 90 do século passado através dos seus missionários. Na qualidade de enviado pelo seu jornal, relatou o trabalho cansativo e de risco, na Amazônia brasileira, em uma das missões mais significativas e desafiantes, em defesa do direito à terra das populações indígenas.
Mesmo à Amazônia dedicou um dos capítulos mais tocantes do livro, com a narrativa, muitas vezes descritas também nas páginas da Revista Missioni, do milagre que levou à canonização de José Allamano: a cura do índio yanomami Sorino, atacado e quase morto por uma onça em plena floresta.
A história continua
A biografia não se conclui com a morte de José Allamano, acontecida no Santuário da Consolata em 16 de fevereiro de 1926, mas termina com a descrição da missão atual dos missionários da Consolata. Para o autor está claro que também o 16 de fevereiro de 2026, data em que festejamos o centenário do nascimento para o céu de José Allamano, não será o fim real e definitivo da história narrada.
Allamano continua a viver naqueles que, em Turim assim como no mundo, se deixam inspirar pela sua intuição, e continuam, através do seu empenho, a alargar sem medida os confins da Igreja. O seu é um convite a continuar a ter confiança e esperança em Deus para poder ser anunciadores do Seu amor no mundo, um convite que vale para todos, nós incluídos. Bem diz Alberto Chiara, nas últimas frases do volume: “Uma coisa é certa, antes duas. A primeira: graças à obra dos Missionários e das Missionárias da Consolata ativos em cerca de 30 países, São José Allamano continua a ser um modelo de confiança, não por acaso lembrado muitas vezes durante o ano de 2025, Ano Santo da Esperança. Ainda hoje a sua espiritualidade convida a todos a viver com empenho o “aqui e agora” considerando cada instante como um momento favorável para a ação de Deus, sem que cada um se omita de suas próprias responsabilidades. O segredo para unir Céu e Terra, o infinito e o complicado cruzamento da história permanece indicado por José Allamano: “o abandono confiante ao Senhor e à Virgem Maria.”
Ugo Pozzoli - Revista Missioni, dezembro de 2025. Tradução - Benildes Clara Capellotto, MC.