Da euforia ao deserto
Talvez a grande pergunta não seja o que deixamos no Carnaval, mas o que escolhemos levar conosco para a Quaresma.
O fenômeno cultural do Carnaval no Brasil passa nestes dias pelas ruas como um rio de cores. Há um excesso de sons, corpos em movimento e desejos à flor da pele. O Brasil sabe celebrar com o corpo inteiro: dança, riso, suor, abraço. Nada disso é desprezível. Tudo isto revela algo profundamente humano: o desejo de sair de si, de esquecer os pesos, de celebrar o instante. Há nisso uma verdade importante: as pessoas precisam de festa, de catarse, de dança para se lembrar que estão vivas. Mas toda festa verdadeira conhece o seu fim. Quando todo esse perfume de carnaval, impregnado do glamour de penas coloridas, trajes brilhantes e ritmos de tamborins se calam, fica a pergunta: o que permanece quando o barulho termina?
A Quaresma começa exatamente aí, nesse instante de transição em que o coração precisa aprender um novo ritmo. Se o Carnaval é expansão, a Quaresma é concentração. Se uma proposta nos leva como uma explosão para fora, a outra nos reconduz como uma implosão para dentro. Não se trata de negar a alegria, mas de depurá-la; não é apagar o corpo, mas escutá-lo em profundidade.
A espiritualidade que nos convida a viver o tempo quaresmal não é uma fuga do mundo, mas sim, uma arte e desafio de habitar o real com maior profundidade e verdade. As cinzas que recebemos na fronte no início da Quaresma não são um sinal de castigo: são um gesto de lucidez. Elas nos recordam que somos frágeis, que não somos eternos, que não podemos viver sempre no excesso sem perder o essencial. As cinzas pousam na testa como um sussurro suave de Deus que nos diz: volta ao que é simples, volta ao que é verdadeiro, volta ao que realmente importa nesta vida.
A Quaresma chega como quem não disputa espaço com o Carnaval, mas o interpreta. Ela não nega a alegria; convida a aprofundá-la. Depois do excesso de estímulos, surge o convite ao essencial. Depois da multidão, o deserto. Não como castigo, mas como cuidado.
Essa passagem é necessária. O ser humano adoece quando vive apenas no estímulo, na excitação contínua, na fuga do silêncio. A Quaresma oferece um espaço terapêutico da alma: menos ruído para reconhecer emoções, menos consumo para reencontrar o desejo de transcendência, menos pressa para curar feridas que o Carnaval apenas disfarça ou mascara. A Quaresma é um abençoado tempo de honestidade interior.
Espiritualmente, os 40 dias propostos por este tempo litúrgico penitencial não nos tira alegria; ensina-nos outra alegria. Uma alegria mais lenta, mais profunda, menos dependente do aplauso e barulho, para podermos respirar o bom silêncio interior. É a alegria de quem se sabe acompanhado por Deus no deserto, de quem descobre que o silêncio também é fecundo, de quem aprende a jejuar não só de comida, mas de palavras vazias, julgamentos fáceis e distrações que anestesiam a alma.
Do Carnaval à Quaresma, a Igreja não nos pede que mudemos de roupa, mas de olhar. Somos desafiados a sair: das ruas da superficialidade para a abundância do coração, do excesso para o essencial, e do grito para a escuta. Paradoxalmente, é nesse caminho que o homem e a mulher de fé, não correm o risco de perder a vida, mais bem, finalmente a encontram.
Deus não fala mais alto do que a nossa vida; fala mais fundo. E a Quaresma é esse mergulho. Um tempo para passar do ruído à escuta, da dispersão à presença, do espetáculo ao coração.
Talvez a grande pergunta não seja o que deixamos no Carnaval, mas o que escolhemos levar conosco para a Quaresma. Se levamos apenas o cansaço, perdemos o sentido. Mas se levamos a sede de Deus, então essa passagem da euforia ao deserto, se torna caminho pascal.
Luiz Mauricio Guevara, imc, é reitor do Seminário Internacional João Batista Bísio, São Paulo, SP.