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Da euforia ao deserto

Talvez a grande pergunta não seja o que deixamos no Carnaval, mas o que escolhemos levar conosco para a Quaresma.

Por Luiz Mauricio Guevara  

O fenômeno cultural do Carnaval no Brasil passa nestes dias pelas ruas como um rio de cores.  Há um excesso de sons, corpos em movimento e desejos à flor da pele. O Brasil sabe celebrar  com o corpo inteiro: dança, riso, suor, abraço. Nada disso é desprezível. Tudo isto revela algo  profundamente humano: o desejo de sair de si, de esquecer os pesos, de celebrar o instante. Há  nisso uma verdade importante: as pessoas precisam de festa, de catarse, de dança para se  lembrar que estão vivas. Mas toda festa verdadeira conhece o seu fim. Quando todo esse  perfume de carnaval, impregnado do glamour de penas coloridas, trajes brilhantes e ritmos de tamborins se calam, fica a pergunta: o que permanece quando o barulho termina? 

A Quaresma começa exatamente aí, nesse instante de transição em que o coração precisa  aprender um novo ritmo. Se o Carnaval é expansão, a Quaresma é concentração. Se uma  proposta nos leva como uma explosão para fora, a outra nos reconduz como uma implosão para  dentro. Não se trata de negar a alegria, mas de depurá-la; não é apagar o corpo, mas escutá-lo  em profundidade. 

A espiritualidade que nos convida a viver o tempo quaresmal não é uma fuga do mundo, mas sim,  uma arte e desafio de habitar o real com maior profundidade e verdade. As cinzas que recebemos na fronte no início da Quaresma não são um sinal de castigo: são um gesto de  lucidez. Elas nos recordam que somos frágeis, que não somos eternos, que não podemos viver  sempre no excesso sem perder o essencial. As cinzas pousam na testa como um sussurro suave de Deus que nos diz: volta ao que é simples, volta ao que é verdadeiro, volta ao que realmente  importa nesta vida. 

A Quaresma chega como quem não disputa espaço com o Carnaval, mas o interpreta. Ela não  nega a alegria; convida a aprofundá-la. Depois do excesso de estímulos, surge o convite ao  essencial. Depois da multidão, o deserto. Não como castigo, mas como cuidado. 

Essa passagem é necessária. O ser humano adoece quando vive apenas no estímulo, na  excitação contínua, na fuga do silêncio. A Quaresma oferece um espaço terapêutico da alma:  menos ruído para reconhecer emoções, menos consumo para reencontrar o desejo de  transcendência, menos pressa para curar feridas que o Carnaval apenas disfarça ou mascara. A  Quaresma é um abençoado tempo de honestidade interior. 

Espiritualmente, os 40 dias propostos por este tempo litúrgico penitencial não nos tira  alegria; ensina-nos outra alegria. Uma alegria mais lenta, mais profunda, menos dependente do  aplauso e barulho, para podermos respirar o bom silêncio interior. É a alegria de quem se sabe acompanhado por Deus no deserto, de quem descobre que o silêncio também é fecundo, de  quem aprende a jejuar não só de comida, mas de palavras vazias, julgamentos fáceis e  distrações que anestesiam a alma. 

Do Carnaval à Quaresma, a Igreja não nos pede que mudemos de roupa, mas de olhar. Somos  desafiados a sair: das ruas da superficialidade para a abundância do coração, do excesso para o  essencial, e do grito para a escuta. Paradoxalmente, é nesse caminho que o homem e a mulher de fé, não correm o risco de perder a vida, mais bem, finalmente a encontram. 

Deus não fala mais alto do que a nossa vida; fala mais fundo. E a Quaresma é esse mergulho. Um  tempo para passar do ruído à escuta, da dispersão à presença, do espetáculo ao coração. 

Talvez a grande pergunta não seja o que deixamos no Carnaval, mas o que escolhemos levar conosco para a Quaresma. Se levamos apenas o cansaço, perdemos o sentido. Mas se levamos a sede de Deus, então essa passagem da euforia ao deserto, se torna caminho pascal.

Luiz Mauricio Guevara, imc, é reitor do Seminário Internacional João Batista Bísio, São Paulo, SP.

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