Revista Missões Logo
Missão em Contexto

Uzbequistão “na ponta dos dedos”

Missionárias da Consolata aceitaram o desafio de abrir Missão no Uzbequistão em 2022.  

Por Stefania Raspo

Um pedido improvisado. Uma grande disponibilidade para entrar no jogo. E eis que nasce uma nova missão ad gentes, em meio a uma pequena comunidade cristã. Então se faz necessário um caminho de conversão ao essencial. 

Fevereiro de 2022. O mundo inicia timidamente a reabrir as fronteiras, também se a COVID ainda dita as regras. Após muitas mudanças de datas, finalmente umas 30 irmãs da Consolata conseguem estar juntas em Nepi, Itália, na Casa Geral do Instituto das Missionárias da Consolata para uma reunião chamada de Intercapítulo (reunião que acontece entre dois Capítulos. Capítulo é uma assembleia geral  que acontece a cada seis anos), um evento importante, que acontece na metade do mandato do Conselho Geral, para avaliar os caminhos percorridos e também tratar de temas específicos. 

No Intercapítulo de 2022 as irmãs refletiram sobre o carisma da Congregação. Um carisma missionário, sustentado por uma espiritualidade eucarística e mariana, segundo a intuição do fundador, São José Allamano. Neste contexto chegou, de longe, um e-mail para Simona Brambilla, a Superiora Geral nesta época, que dizia assim: “Sou o Bispo do Uzbequistão. Gostaria de convidá-las para a minha Igreja.” Irmã Simona aproveita da ocasião no ar, e responde: “estamos reunidas nestes dias com irmãs representantes de toda a Congregação: o Senhor estaria disponível para apresentar a proposta em uma videochamada?”

Monsenhor Jersy Maculewicz, administrador apostólico do Uzbequistão , não se faz esperar, e com muito entusiasmo, apresenta à Assembleia a proposta da missão ad gentes. 

A missão não fica parada. E não se deixa parar nem mesmo pelo lockdown. E nem mesmo se deixa parar pelos cálculos precisos e impiedosos, como as estatísticas sobre o pessoal, que deixam transparecer a diminuição do número de coirmãs do Instituto e aumento da idade. A proposta da missão entre os não cristãos no Uzbequistão ressoa forte entre as irmãs, que vibram durante o Intercapítulo, refletindo sobre o carisma missionário consolatino. A Assembleia pede à Direção Geral para reunir mais informações a fim de apresentá-las ao Capítulo Geral que estaria agendado para o ano de 2023. 

E assim, após uma visita in loco e a reflexão capitular, a nova Direção Geral assume o pedido e inicia o caminho para concretizar uma nova abertura ad gentes das Missionárias da Consolata na Ásia Central. 

Após um tempo de preparação em Nepi, em 23 de março de 2025, as irmãs Judith Kikoti (tanzaniana), Adenech Mitiku (etíope), Immaculate Nyaketcho (ugandesa) e Andréa Leite Carvalho (brasileira) partem para o Uzbequistão, e lá são acolhidas na manhã do dia seguinte pelas Missionárias da Caridade de madre Teresa em Urgench, cidade da parte nordeste do Uzbequistão, que fica sobre a antiga “rota da seda”. 

Primeiros Passos 

Um misto de fortes emoções enchem os corações das irmãs: alegria, comoção ao ver que o carisma chega também a esta terra. “Senti-me responsável por esta missão, somos aquelas que abrem um caminho”, diz irmã Judith. “Tinha tanta expectativa, para mim esta é a minha primeira destinação missionária, e fui mesmo escolhida para esta nova presença”, nos revela irmã Andrea, a mais jovem da Comunidade. 

Um lugar desconhecido, totalmente novo: “Aqui não existe nada que se possa comparar às realidades que conheci, seja na África como na Europa”, afirma irmã Immaculate.

Mas a novidade não é experimentada somente pelas irmãs, as pessoas do lugar também se demonstram sempre curiosas em relação à elas. Fazem tantas perguntas e também tantas fotografias àquela estranha comunidade intercultural que veio morar em Urgench. Pouco a pouco as irmãs se habituam ao contexto e as pessoas se habituam a estas estrangeiras que apenas balbuciam um pouco de russo, e algumas palavras em uzbeko (língua local).

Em particular há uma palavra que chama a atenção: "Mas, por que vocês vieram aqui?”.

O Uzbequistão  é um país com uma média muito baixa de idade, a população é composta de jovens que deixam a própria Pátria em busca de um futuro melhor. Mas, e essas estrangeiras? São como os estudantes indianos que estão cursando medicina na Universidade? Não. E sequer são como os turistas que visitam a Rota da Seda. Por que vieram a Urgench?

Não obstante a sensação de “estranheza” provocada por esta chegada das irmãs, a população de Urgench se demonstra acolhedora e amiga, e até cuidadosa para com as missionárias. O vendedor se preocupa em vender os melhores produtos. As pessoas ficam atentas para que as irmãs desçam no ponto certo do ônibus.

A maioria da população é muçulmana, mas as pessoas não fazem distinção: convidam as estrangeiras à sua casa e lhes oferecem o chá e o típico pão do Uzbequistão. 

Como os dedos da mão

Mas também as próprias irmãs fazem a experiência do grande acolhimento que nasce do coração e da oração dos cristãos locais. “Nós as esperamos por cinco anos.”, dizem as pessoas da pequena comunidade católica que, por anos, rezaram para ter alí na paróquia uma presença que as acompanhassem. 

O ad gentes no Uzbequistão  se alicerça na oração e na comunidade. Já o dizia São José Allamano, consciente que a missão é de Deus e nasce da união com Ele e entre nós. 

“Neste momento estamos observando, procurando escutar e compreender a realidade que encontramos a cada dia”, diz a irmã Judith. Aqui temos um contato quase cotidiano com a dezena de católicos que frequentam a paróquia Mãe de Misericórdia.

“Percebemos que é importante o estar, não o fazer. Assim, decidimos intensificar a nossa oração. Não fazemos porque temos muito tempo livre. Sobretudo temos dado novo significado a cada momento de nossa oração, porque nós estamos aqui para este povo. E então rezamos por ele”, continua irmã Judith. 

Por esta razão as irmãs decidem fazer adoração após a Missa. É uma iniciativa das missionárias que, porém, logo se tornou um empenho da comunidade cristã.  É significativo escutar uma senhora dizer: “elas estão aqui para rezar por nós”.

Um ad gentes no silêncio, no escondimento, sem grandes obras e sem grandes números: “Quando estão todos, os cristãos são mais ou menos dez. Como os dedos das mãos.”

A missão do fazer, do ir a visitar, não existe, ao menos por enquanto. Não existe a consolação humana de ouvir dizer: “Você é excelente”.

Um caminho de despojamento, de conversão ao essencial. De paciência, sobretudo para consigo mesma. Mas um caminho que não é percorrido cada uma por si: a comunhão profunda entre as irmãs é o espaço que faz crescer, nestes primeiros tempos de missão no Uzbequistão. 

Stefania Raspo é Missionária da Consolata. Revista Missioni, janeiro /fevereiro 2026 Tradução Benildes Clara Capellotto, MC.

Capa da Edição

Compartilhe: