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Com cautela e responsabilidade

Missionário da Consolata na Venezuela, padre Juan Carlos Greco analisa o que está acontecendo na Venezuela, com a invasão dos Estados Unidos ao país. 

Por Juan Carlos Greco

Acredite ou não! Em Boa Vista, o debate sobre a ação “yanqui” na Venezuela criou uma forte polarização política, que vem gerando embates entre venezuelanos e não venezuelanos. Para a grande maioria que deixou a terra natal para fugir das mãos do governo Maduro, sua captura é motivo de grande festa e júbilo. Não lhes interessa as circunstâncias em que tudo ocorreu. Nas redes sociais muitos chegaram a escrever algo como “se não é venezuelano, então melhor nem emitir comentários” (ou outras frases que não poderíamos publicar). 

Os locais (brasileiros) alinhados com a direita, sobretudo, se somam à comemoração pela queda do sucessor de Hugo Chávez, deixando (como cegos) as violações aos direitos e legislação internacional. Também a possíveis implicações. Os poucos alinhados com uma agenda progressista (Roraima em geral é da “asa direita”), o foco centra-se na ilegalidade da ação e pregar respeito à soberania nacional venezuelana. Mas tal enfoque por muitos tem sido muitas vezes visto como uma defesa de Nicolás Maduro, o que gera grande desconforto junto aos migrantes. 

É uma situação difícil de explicar. Ainda que seja uma ação que contrarie as leis internacionais, para muitos venezuelanos foi uma ação necessária. 

No pessoal vejo que muitos desejam com tanta vontade a queda do regime que acabam aceitando que um câmbio aconteça do jeito que for. Dizem que “numa ditadura, a única certeza é a impossibilidade”. É uma tragédia que tenha sido Trump a fazer isso acontecer. É o pior homem, agindo do pior jeito. 

“Autoritarismo” não enxerga “autoridade”. Impactos para frente!!

A Prêmio Nobel da Paz em 2025, Maria Corina, celebrou a captura de Maduro, mas a oposição venezuelana não parece incluída nos planos do “Super Trump”. Para o presidente americano María Corina “é uma boa pessoa, mas não conta com respaldo suficiente”. A mulher que tem lutado na rua, que tem demonstrado uma coragem heróica, que tem o apoio de mais de 66 % de seus concidadãos, para Trump não “presta”.

Acho que a superação do autoritarismo não pode significar a substituição de um domínio por outro. Atravessado por tensões entre democracia, soberania e ingerência internacional, o debate tende a ocupar um lugar central nos futuros processos eleitorais da nossa região: Brasil, Colômbia e Peru. Mais do que uma disputa eleitoral, trata-se de definir qual projeto político será capaz de articular democracia substantiva, justiça social e autodeterminação nacional no contexto latino-americano contemporâneo. 

Dentro de um macro panorama é necessário reafirmar que o repúdio à intervenção imperialista não implica apoio ao governo de Nicolás Maduro. Ninguém entre os oito milhões de migrantes venezuelanos nega que se trata-se de um regime autoritário e ditatorial, marcado pela repressão político-social, que apontou sempre ao enfraquecimento das instituições democráticas e que se sustenta com violações aos direitos humanos. 

Um autoritarismo que deseja apoiar e colaborar para impor nas eleições 2026 candidatos que tenham um pensamento submisso ao Norte. Apoiar o Norte, apostar no dólar, afastar o BRICS (sobretudo Rússia e China) do continente americano. 

As palavras do Papa Leão XIV sobre o fato enfatizam que "o bem do amado povo venezuelano deve prevalecer sobre qualquer outra consideração" e insistem na necessidade de garantir a soberania do país, o respeito ao Estado de Direito estabelecido na Constituição e o pleno exercício dos direitos humanos e civis, com especial atenção aos mais pobres, afetados pela difícil situação econômica.

A violação da soberania de um povo não pode ser naturalizada nem legitimada por discursos que se digam humanitários ou democráticos, uma vez que, historicamente, intervenções externas produzem sofrimento psíquico coletivo, aprofundam conflitos sociais e intensificam processos de violência, luto e desamparo. Afirmava Eduardo Galeano: “Cada vez que os Estados Unidos “salvam” um povo, o deixam transformado em manicômio ou cemitério”.

Desafios para os migrantes

No Chile, José Kast – o presidente eleito que toma posse dentro de dois meses – tem a linha dura na temática migratória como um de seus eixos. Entre as promessas de campanha está a criação de um “corredor de devolução de migrantes”, Na Europa, muitos países suspenderam a análise de pedidos de refúgio de sírios logo após a deposição de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024. Será que com um novo governo certas administrações locais passem a não tolerar ou até mesmo forçar que os venezuelanos retornem à sua pátria?

No Brasil, o prefeito, Ricardo Nunes (dia 6 de janeiro de 2026), disse esperar “que os venezuelanos não precisem mais vir à São Paulo uma vez que Maduro não está mais no poder”, embora tenha complementado que “caso venham, serão acolhidos”.

No Piauí foi registrado um caso (o vídeo circula pelas redes sociais) que alerta contra xenofobia e violações de direitos humanos da comunidade venezuelana. Aconteceu na cidade de Teresina onde uma mulher – cuja identidade não foi revelada – chamou a atenção ao abordar indígenas venezuelanos da etnia warao pedindo que eles retornassem à Venezuela após a prisão de Maduro. Em Boa Vista em um dos abrigos que acolhem indígenas, o pessoal da segurança começou a dizer a alguns warao que comecem a pensar em voltar para a sua terra. 

Que falar para aquele migrante que ainda não está inserido nestas terras brasileiras e não entende a situação? Talvez a pergunta mais importante que a gente poderia ter em mente é como explicar geopolítica para quem até ontem estava sofrendo fome, doenças, perseguições e outros males na sua terra?

Não temos as respostas a muitas perguntas, mas, diante disto, os Missionários da Consolata apoiamos o direito à liberdade de escolha sobre o território ou país em que qualquer pessoa deseje viver e rejeitamos quaisquer posturas xenófobas que tentam incentivar o retorno imediato da população para a Venezuela. Não aceitamos que nenhum povo seja tratado como peça de manobra em disputas geopolíticas globais.

Nós, os migrantes que chegamos da Venezuela (me incluo, porque trabalhei até 2023 nessa terra e depois cheguei a Boa Vista) não acreditamos que qualquer intervenção vai mudar de maneira imediata a situação socioeconômica da terra de Bolívar. É vox populis que todos os migrantes rejeitamos que se use o drama humano em contextos de deslocamento forçado como ferramenta política por governos autoritários.

A voz da Igreja na Venezuela

A Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) pediu, no sábado, que todos os venezuelanos mantenham “serenidade, sabedoria e força” em meio à situação política e militar no país, após a captura e extradição de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.

Por meio de sua conta no Instagram, a Igreja Católica Venezuelana expressou solidariedade aos “feridos” e às famílias daqueles que “morreram” em decorrência dos ataques dos Estados Unidos em locais específicos da capital e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira.

“Diante dos acontecimentos que nosso país vivencia hoje, peçamos a Deus que conceda a todos os venezuelanos serenidade, sabedoria e força. Nos solidarizamos com os feridos e com as famílias dos que morreram. Perseveremos na luta pela unidade do nosso povo”, diz a publicação (afirmo que na página oficial da Conferência Episcopal não se tem nenhum comunicado, só esse citado no Instagram).

“Serenidade, sabedoria e força”. Nos unimos em oração e continuamos a pedir a Deus o discernimento e a prudência para todos os governantes do mundo. Podemos nos unir, rezando a oração do Papa Francisco pela Paz Mundial

“Senhor Jesus, diante de Ti quero expressar meu horror ao terror e à injustiça da guerra.

Meu coração sangra ao ouvir os gritos de sofrimento de milhares de seres humanos presos em um conflito que não desejam nem criaram.

Diante de Ti, Senhor, pergunto-me:

"Qual é o preço da paz? Que ações ela nos desafia a tomar?" Ajuda-nos, Senhor, a humanizar a sociedade, abrindo nossos corações a uma cultura de ternura e paz, promovendo o bem-estar social.

Para que a paz seja efetiva, todos devemos nos comprometer com atitudes autênticas de humildade saudável.

Uma atitude de coração e uma compreensão de mente que permitam que os outros sejam eles mesmos, com todos os direitos inerentes ao ser humano”.

Juan Carlos Greco (Mongolito), imc, é Missionário da Consolata na Venezuela.

Capa da Edição

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