Um retorno às fontes para continuar a Missão
Missionários da Consolata com 10 a 15 anos de sacerdócio participaram de um mês de formação, convivência, espiritualidade e partilha de experiências no Brasil
“Voltar às fontes” foi um tema que marcou os participantes do Curso Continental de Formação Contínua dos Missionários da Consolata, realizado de 31 de agosto a 24 de setembro, no Brasil. Durante quatro semanas, missionários com 10 a 15 anos de ordenação sacerdotal ou profissão perpétua participaram de uma experiência voltada à renovação da vocação, ao aprofundamento do carisma consolatino-allamaniano e à preparação para os novos desafios da missão.
A formação teve início e término em São Paulo, na Casa Regional dos Missionários da Consolata, e incluiu atividades em Aparecida, Foz do Iguaçu, Cascavel, Curitiba e São Manuel. O percurso reuniu momentos de estudo, espiritualidade, retiro, peregrinação, convivência fraterna e partilha entre missionários que atuam em diferentes realidades da América Latina e de outras regiões.
Inspirado no caminho dos discípulos de Emaús, narrado no Evangelho de Lucas 24, o curso propôs aos participantes um itinerário de escuta, diálogo, celebração e discernimento. A experiência também esteve relacionada ao Ano da Vida Comunitária e às orientações do XIV Capítulo Geral dos Missionários da Consolata, que convidam ao retorno às raízes do carisma como caminho de renovação da vida e da missão.
Para os participantes, entretanto, a formação não se resumiu a conteúdos e atividades acadêmicas. Os testemunhos revelam que o encontro foi também uma oportunidade de olhar para a própria história, reencontrar companheiros de caminhada, recuperar forças e perguntar novamente pelo sentido da vocação missionária.

Escutar antes de anunciar
O colombiano padre José Fernando Flores Arias (foto), que há 14 anos atua na região amazônica entre Colômbia e Peru, trouxe para a experiência formativa uma aprendizagem recebida dos povos indígenas com os quais convive.
Ao chegar à Amazônia, sua pergunta era como fazer não apenas para “estar”, mas para “saber estar”. Um ancião murui-muinane lhe ensinou três atitudes fundamentais: “sente-se, escute e observe”. A orientação transformou sua compreensão sobre a missão.
O mandato missionário tradicionalmente associado ao anúncio — “vá e anuncie” — ganhou, em sua experiência, outra dimensão: “vá e escute”. Para Fernando, a escuta precisa ser acompanhada de paciência, expressa na palavra murui feicuyca, que significa “devagar”, “com calma”.
Essa postura também marcou o planejamento missionário desenvolvido na região, estruturado sobre três pilares: território, cultura e vida. Inspirado no Evangelho de João — “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10) —, o missionário compreende que a defesa do território, da vida e da cultura também participa da Boa-Nova.
Depois de anos de caminhada, sua síntese é clara: o missionário não é simplesmente aquele que leva Deus a determinado lugar, mas aquele que aprende a encontrar Deus onde quer que vá.

Reencontro e renovação
O padre Wilfred Gikundi Kaibe (foto), natural do Quênia e atualmente missionário na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, na Diocese de Roraima, destacou a alegria do reencontro com companheiros de diferentes países e regiões.
Para ele, a formação foi uma oportunidade de recuperar vínculos com missionários que não encontrava havia alguns anos. O encontro, segundo seu testemunho, possibilitou “recuperação”, “renovação” e fortalecimento das forças necessárias para continuar o trabalho missionário.
A peregrinação a Aparecida também foi significativa. O momento de oração diante de Nossa Senhora esteve acompanhado pela convivência e pela fraternidade. Wilfred chamou atenção para uma necessidade muitas vezes esquecida na vida missionária: o missionário também precisa de momentos para descansar, conviver, conhecer-se e fortalecer os laços comunitários.
“Às vezes os padres podem trabalhar sempre para os outros, mas, se não há essa oportunidade de reunir, de conviver, de confraternização, aí a gente pode acabar de si mesmo por causa do trabalho”, refletiu.

A missão feita com o coração
Para o padre brasileiro padre Júlio Caldeira (foto), missionário que viveu cerca de 15 anos de experiência na Amazônia, entre Equador, Colômbia e Brasil, a formação também foi ocasião para reafirmar a alegria de ser missionário.
Questionado sobre se vale a pena ser missionário hoje, ele responde a partir da própria experiência: a missão se faz com o “corazonar”, envolvendo coração, mente e espírito, sempre colocando Jesus no centro do caminho.
A convivência com os povos amazônicos lhe ensinou a reconhecer a riqueza de suas culturas e modos de vida. Entre os aprendizados, destaca o cuidado: consigo mesmo, com o outro, com a relação com Deus e com a casa comum.
Em outro momento de seu testemunho, Júlio descreve as quatro semanas como uma verdadeira experiência de discipulado. O percurso o levou a recordar a origem de sua vocação, retomar sua caminhada como Missionário da Consolata, realizar um retiro espiritual e, finalmente, fortalecer a identidade missionária diante das novas perspectivas e expectativas da missão.

Gratidão pelas raízes
Com 11 anos de sacerdócio, o queniano padre Urbanus Mulati Nzomo (foto) descreveu o curso como uma “viagem de volta às raízes”. Para ele, a experiência permitiu recuperar a memória do caminho percorrido, agradecer a Deus pelos anos de serviço e reconhecer a contribuição do Instituto Missões Consolata em sua trajetória.
A formação, segundo Urbanus, foi marcada por diferentes dimensões: estudo, espiritualidade, convivência, encontro consigo mesmo e reencontro com companheiros de caminhada.
Atualmente pároco da Paróquia Senhor do Bonfim, na Diocese de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, o missionário atua em uma realidade marcada pelas periferias urbanas e pela promoção humana. A paróquia desenvolve, entre outras iniciativas, a Pastoral Afro e a Pastoral Carcerária e conta com 16 comunidades, além da matriz.
Para ele, aprofundar o carisma e a identidade dos Missionários da Consolata significa também renovar a disposição para servir nas realidades concretas onde a missão acontece.

Formação também é missão
O também queniano, padre James Murimi Njimia (foto), com 11 anos de sacerdócio e 17 anos de vida consagrada missionária, entende a formação contínua como parte integrante da própria missão ad gentes.
Atuando em Roraima e também como vice-superior regional dos Missionários da Consolata, ele considera que o retorno às fontes permite fortalecer três elementos fundamentais da identidade missionária: o anúncio, a vivência dos conselhos evangélicos e a vida comunitária.
Para James, o caminho realizado durante o curso ajudou os participantes a olhar para o futuro e a planejar a missão a partir do estilo próprio da Consolata: aproximar-se das pessoas, conviver com elas e tornar concreta a presença missionária.
A experiência lhe recordou também o período do noviciado, quando assumiu mais profundamente a identidade de missionário ad gentes. Por isso, considera as semanas de formação como um tempo importante para renovar uma identidade assumida há 17 anos e recuperar energia para continuar anunciando e testemunhando o Evangelho.

Novas perguntas para novos desafios
O padre Edgar Chavarro Ortiz (foto), colombiano, chegou ao curso trazendo perguntas e inquietações sobre o caminho percorrido ao longo dos anos de ministério.
Sua reflexão parte de uma questão mais ampla: o que significa ser sacerdote diante das transformações vividas pela Igreja e pela sociedade? Ao recordar uma pesquisa realizada por jesuítas no Peru sobre a identidade sacerdotal antes e depois do Concílio Vaticano II, Edgar chama atenção para os desafios enfrentados atualmente pelos presbíteros.
Para ele, os avanços da tecnologia, das ciências e as novas questões apresentadas pela sociedade exigem uma formação permanente capaz de dialogar com uma realidade cada vez mais complexa. Filosofia e teologia continuam sendo fundamentais, mas o missionário questiona se a formação tradicional é suficiente para responder a todas as demandas pastorais do século XXI.
Nesse sentido, o encontro com outros missionários foi igualmente importante. Além dos estudos e reflexões, houve espaço para celebrar, passear, rir e festejar. Para Edgar, esses momentos fortalecem a unidade, criam vínculos de família e oferecem novo vigor para a pessoa e para a missão.
As perguntas, porém, permanecem abertas: é preciso continuar refletindo sobre os métodos utilizados e sobre a capacidade de responder às novas questões pastorais. A formação contínua, portanto, não oferece apenas respostas; também ajuda a formular novas perguntas para a caminhada missionária.

Uma missão que se renova
O padre Patrick Murunga Waiganjo (foto), com dez anos de sacerdócio e atuando no México, trabalha no acompanhamento de famílias que enfrentam situações relacionadas ao alcoolismo. Para ele, trata-se de uma missão exigente, que envolve tanto o acompanhamento das pessoas quanto o trabalho de conscientização e solidariedade da comunidade.
Participar do curso representou a oportunidade de viver uma experiência renovada com Deus e com os irmãos que atuam em diferentes regiões. A convivência e a partilha de experiências contribuíram, segundo Patrick, para enriquecer seu próprio caminho missionário e possibilitar novos aprendizados.
Sua experiência sintetiza uma das dimensões centrais do encontro: o missionário também precisa ser acompanhado, formado e fortalecido para continuar acompanhando outras pessoas.
Voltar às fontes para seguir adiante
O Curso foi orientado pelos padre Luis Mauricio Guevara, reitor do Seminário Internacional João Batista Bísio, o Superior Regional, padre Paulo Mzé, e o padre Juan Pablo de Los Ríos Ramirez, da direção geral do Instituto Missões Consolata, responsável pela formação dos missionários do continente latino-americano.
Embora tenham trajetórias e campos de missão diferentes, os testemunhos dos sete padres convergem em alguns pontos: a necessidade de renovar a identidade missionária, fortalecer a vida comunitária, aprofundar o carisma, aprender com os povos e realidades onde a missão acontece e olhar para o futuro com novas perspectivas.
“Voltar às fontes” não significou simplesmente recordar o passado. Para os participantes, foi uma oportunidade de revisitar a história vocacional, reencontrar companheiros, recuperar forças e discernir como continuar a missão em um mundo que apresenta novos desafios.
O curso reafirmou, assim, que a formação permanente não é uma etapa encerrada da caminhada, mas parte da própria vocação missionária. Depois de anos de ministério, retornar às fontes pode significar justamente reencontrar o sentido primeiro do chamado e, a partir dele, renovar o compromisso de anunciar o Evangelho, caminhar com os povos e testemunhar a Boa-Nova de Jesus Cristo.
A experiência realizada no Brasil foi a segunda edição continental do curso. A primeira ocorreu em 2025, na Colômbia.