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Fé em Ação

Dorothy Stang: uma voz, uma causa, uma luta (ontem, hoje, amanhã e sempre)

A memória dos mártires faz parte da história e liturgia de nossa Igreja. (Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu)

Por Marcus Eduardo de Oliveira*

Nessa era moderna do mundo, enquanto estamos experenciando a febre do planeta (palavras fortes de Ailton Krenak), o atual modelo de desenvolvimento (agricultura industrial, extrativismo, mercantilização da natureza, enfim...) continua produzindo o que se pode chamar de desmoronamento ecológico total, capaz de destruir os meios de subsistência que temos. Nesse tempo de agora, todo ele marcado por acelerações e excessos, de uma verdade não podemos escapar: nossos abusos antropocêntricos (humanos versus natureza, para ser direto) já foram longe demais. 

Isso significa dizer, sem ineditismo, que não cessamos de manipular violentamente a natureza, sempre para atender a interesses do mundo econômico. 

É assim, aliás, que se procura manter o status quo.

Logo, de maneira direta, é possível seguir dizendo que estamos desafiando os limites seguros dos sistemas naturais. Estamos mudando ecossistemas inteiros. 

Entre as nossas escolhas e o nosso comportamento, o tempo avisa: em nome da síntese da modernidade, estamos diante de alterações que desregulam a temperatura terrestre. Um olhar mais atento logo identifica ameaças futuras. Essas assumem a forma de crises conjugadas que nos cercam. A crise social, a econômica, a ecológica, a climática. São crises que atingem todas as esferas da vida. 

Agora mesmo, (todas) as consequências do aquecimento global e, mais ainda, (todos) os contratempos da degradação sistemática de florestas, que obviamente são problemas interligados, podem ser classificados como os mais significativos sinais da carga pesada que nós, os modernos, impomos ao planeta. E isso é tão pesado, note-se, que já se diz que estamos desorganizando os sistemas ecológicos globais, e transformando a capacidade de suporte do planeta. 

Essa atmosfera de agora, desfavorável ao sistema vida, não é de agora, vem de longe. 

Aliás, sendo franco, foi nessa atmosfera de elevado risco ambiental - que sempre existiu aqui e acolá, notadamente por força de interesses econômicos de grileiros e madeireiros, por exemplo, que não por acaso avança especialmente na Amazônia -, que uma das vozes mais vibrantes em favor da preservação da Amazônia foi brutalmente calada. 

Foi assim que Dorothy Stang, missionária norte-americana, nos deixou em 12 de fevereiro de 2005, executada com seis tiros à queima-roupa por pistoleiros a mando de fazendeiros em Anapu, no Pará – ainda hoje, local de intensos conflitos ambientais e agrários da Amazônia. 

Vale insistir: um município que segue assistindo a violação de direitos humanos na Amazônia.

Biografia

Freira da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur, Dorothy Stang, nascida em 1931, chegou ao Brasil em 1966, ainda na ditadura militar; viveu no interior do Maranhão, do Ceará e da Paraíba até que, em 1982, se estabeleceu em Anapu, no Pará, onde passou a atuar na organização política dos trabalhadores rurais e na denúncia de crimes contra o meio ambiente. Dorothy mapeava as áreas griladas, identificava os ladrões de terra e desmatadores e levava as denúncias às autoridades.2

Eles, os brutais assassinos, calaram a voz da Irmã Dorothy, defensora da vida e da floresta. 

Eles, os criminosos de plantão, tiraram de cena Irmã Dorothy e sua atuação em torno da assistência social; minaram seu modo próprio de organizar a política local e de denunciar os crimes contra o meio ambiente. 

Eles, à serviço da desumanidade, ceifaram a vida de uma missionária que contava 73 anos.

Mataram a lutadora, a missionária, a ativista, a sonhadora de utopias, mas não eliminaram a luta maior pelo desenvolvimento equilibrado e pela reforma agrária. 

Essas lutas continuam vivas. 

Esses ideais permanecem. 

Mais do que isso, a luta de Dorothy Stang segue inspirando ativistas em todos os cantos.

Dorothy Stang segue “presente”.

Triste realidade de um país que trata com certo desdém o ativismo, além de Dorothy, outras quatro lideranças dos trabalhadores rurais do Pará foram assassinadas naquele mesmo dia. 

Assim, com a força das evidências, a verdade dita sem meias palavras é que “a luta de Dorothy incomodava os poderosos da região, que a perseguiam com ameaças e calúnias. Ela chegou a ser acusada de contrabando de armas”. 

Mas, detalhe, “a freira não se intimidava”. 

Seguia e seguia firme, com um propósito, com um sentimento de buscar a justiça social, com um ideal de defender a floresta.

“Em suas andanças, sempre levava consigo uma bolsa de pano, mas, em vez de armas, carregava a bíblia e mapas da região e anotações sobre os conflitos agrários, incluindo nomes de seus algozes”.3 

Duas décadas depois, o barulho dos conflitos e das balas disparadas, como é fácil supor, ainda domina a realidade atual de Anapu.

A propósito, “segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), desde a morte de Dorothy Stang, dezenas de trabalhadores rurais e lideranças comunitárias foram assassinadas na região. Líderes camponeses continuam sob ameaça, vivendo sob constante medo de represálias por defenderem o direito a terra e à floresta”.4

Doa a quem doer, Irmã Dorothy “vive” na causa maior do ativismo ambiental. Ela é presença no coração de quem faz ecologia na prática. 

O exemplo de vida de Irmã Dorothy é luz para quem caminha nas trilhas que levam à floresta. O ideal de Dorothy Stang serve de esperança para quem carrega a missão de lutar todos os dias por um futuro ecológico comum. De quem segue profetizando, evangelizando, ecologizando. Acima de tudo, e isso não podemos esquecer, “o principal legado que a Dorothy deixou foi à forma como ela viveu, ou seja, tratando a terra como se fosse sua mãe”, revela a irmã Kátia Webster.5 

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Autor de A civilização em risco (ed. Jaguatirica, 2024). prof.marcuseduardo@bol.com.br

Notas:
1. Recolhido de https://www.ihu.unisinos.br/categorias/192-paginas-especiais/648071-dorothy-stang-quem-derramou-o-seu-sangue-pela-causa-mais-nobre-o-reino-de-deus-nunca-pode-ser-esquecido
2. Para mais detalhes, acessar: https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2025/02/13/o-legado-de-dorothy-stang-na-preservacao-da-amazonia-20-anos-apos-seu-assassinato
3. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/daniel-camargos/vinte-anos-sem-dorothy-stang-a-batalha-pela-terra-e-pela-floresta-nao-terminou/
4. Consultar: https://amazoniareal.com.br/dorothy-stang-20-anos-depois
5. Ver: https://ihu.unisinos.br/entrevistas/28019-dorothy-stang-um-crime-ainda-impune-entrevista-especial-com-katia-webster

 

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